quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O Lado Selvagem (Jon Krakauer)

Fugir. Pernas e pés numa sintonia apaixonada. E como o pulsar de um coração aflito, percorrem caminhos desconhecidos na esperança de se reencontrarem. Reencontrar o quê? Não se sabe, mas acredito que essa incerteza não faz parte do percurso. Quereres encontrar-te onde mais ninguém te procura, não é? Como se os risos, sorrisos, comentários vindos de bocas conhecidas infestassem todo o ar e te impedissem, assim, o crescimento da alma...
Uma sintonia apaixonada que te leva para longe, e basta. Poderiam chamar-te egoísta, por ires assim, sem dizeres. Há um apelo, não é? Há o apelo do coração, que triste, te pede que vás. Vazio, pede-te que o preenchas, para lá do conforto das quatro paredes de um quarto adolescente.
Vai. Vai, vá...
Mas por favor, que não seja para me encontrares.
Um apelo do coração vem de ti, para ti. Nunca para mim.
Para ninguém.
Para ti, apenas.


Ao som de: ...



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Obrigada pelo lume (Mario Benedetti)

 
Passamos os dias, que são enormes quando somos pequeninos e minúsculos quando somos grandes, a encontrar um saco de boxe. Uma procura incessante de um saco de boxe que possa preencher a dor da culpa, do ressentimento, do arrependimento, da mágoa, da saudade do que fomos e jamais seremos.

Sempre um saco de boxe, que apesar de estúpido, tem um ar amigo. Confortável e querido. 
Há sempre um. Em cada um de nós, há um saco de boxe: alguém que sustenta as nossas culpas e se torna raiz forte da nossa fúria, do nosso impasse ... a razão para tudo. Tudo de mal.
Uma necessidade que dói. Necessidade  de arrancar os pulmões e respirar fora do corpo!
E tu, que colocas tudo isso numa caixa de Pandora, e eu abro porque te pertenço.
O que fazer quando o nosso saco de boxe partilha o sangue, essa corrente estranha que nos torna tão especiais entre um pequeno grupo, bem, o que fazer nessa situação?
Quero matar-te? Conseguirei eu matar-te? Não.
Por isso mesmo, mato-me a mim.

Para sempre o vencedor. E o saco de boxe lá ficará, a pender para um dos lados. Como tudo na vida.


Num dia de chuva. E hoje não gosto dela. Detesto-a.
Ao som de: How to save a life (The Fray)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Gaveta de Papéis (José Luís Peixoto) #2

Queres? (No ar, a interrogação vibra como uma onda invisível.)
Queres? (Pelo silêncio, não sei quem és, não sei a razão em mim que te deseja.)
Queres? (É quase de manhã e poderíamos esquecer tudo, fazer as malas, dormir finalmente).
Queres? (Uma porta talvez aberta para talvez um abismo ou um deus).
Quero. (Já não podemos fugir aos nossos olhos inimagináveis, inalcançável é o cansaço).
Quero. (A luz do quarto continua acesa sobre a luz da manhã, tornamo-nos artificiais.)
Quero. (Os nossos corpos, claro, sempre os nossos corpos, sempre apenas os nossos únicos corpos.)
Quero. (Tarde demais.)


 

 



sábado, 10 de dezembro de 2011

Gaveta de Papéis (José Luís Peixoto)


QUARTO


Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
 da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.


Ao acaso abri o livro, e salta este poema. Ironia? Talvez. Continuo sem saber. Desgraçados são os que continuam a brincar com castelos de areia, que se julgam o Narciso à beira da água, e que nesse processo ... se esquecem da adolescência no bolso. Ou se infiltram nela, numa mistura doentia, estranha, assustadora...
Feliz adolescência, que dás o sabor dos rebuçados de mentol às amizades. O calor dos abraços a essas amizades jamais quebradas. O fogo dos amores para sempre guardados, mesmo com bombeiros para os apagar.

Desgraçados aqueles que se esquecem da simplicidade da vida. Dos pequenos, grandes, gestos.
Desgraçados aqueles que se esquecem.
Desgraçados. Simplesmente.


Fartei-me.
 



Ao som de: I Don't Want To Be (Gavin DeGraw)







sábado, 26 de novembro de 2011

A Pousada da Jamaica (Daphne Du Maurier)

Este é mais um livro cuja essência da mulher é retratada na sua mísera condição. A condição de eterna estúpida.
São ridiculamente estúpidas que já não há escapatória possível, são assim, estúpidas, imbecis. Decidem, por conta própria, a deixarem cérebros de ouro na gaveta, e tornam-se seres miseráveis, estúpidos, regidos por emoções vagas, que as levam o vento!
Mulheres estúpidas. Para sempre estúpidas.
Súplicas pela igualdade, mas acordem. Para sempre estúpidas.

Porcaria de fim de livro. Infelizmente, um retrato miserável de quem estupidamente se ... apaixona.
Mary, és uma mulher estúpida.


Ao som de: "Here To Stay" (Korn)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ratos e Homens (John Steinbeck)

Hoje estou destroçada. Não sei porquê. E se calhar, sei.
O final deste livro, à lareira, finalizou este meu destroço já iminente. Acho que tive mesmo vontade de o atirar à lareira, tal foi o estrondo que provocou por aqui. Uma nuvem, e a ameaça da chuva, outra vez.
Hoje estrou destroçada e não vou dizer mais nada.

Pobre Lennie. Pobre George.
Vida. Puta.

Chuva. Muita chuva.


Ao som de: Imogen Heap "Hide and Seek"



Sobre o livro: George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência. Em 'Ratos e homens', Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna.

domingo, 13 de novembro de 2011

A Menina do Farol (Jeanette Winterson)

Hoje, só quero que me contes uma história.
O poder das histórias na nossa vida é como uma lufada de ar fresco. É a lufada de ar fresco que preciso neste momento.
Agora. E vou respirar sem doer!





Ao som de: The Man Who Can't Be Moved (The Script)


Sobre o livro: Silver é uma órfã, um barco sem âncora, criada num farol por Pew – um faroleiro cego e sem idade – , que lhe conta histórias e revela que o mundo é feito de histórias. Como a de Silver, que se cruza com a do Reverendo Babel (que viveu na sua aldeia cem anos antes), a de Robert Louis Stevenson, a de Charles Darwin, e também a de um Dr. Jekyll e um certo Sr. Hyde... Em A Menina do Farol, Jeanette Winterson dá provas de um talento indiscutível, com uma invejável mestria de um lirismo intimista. Uma das autoras mais originais da sua geração, Winterson cria neste livro uma fábula moderna acerca do poder transformador da própria narrativa. «Trata-se sem dúvida de uma das vozes narrativas mais interessantes da Europa actual.» ABC Cultural

sábado, 12 de novembro de 2011

O Homem Duplicado (José Saramago)

Existe um homem exactamente igual a ti.
Vou dizer-te isto.
Existe por aí um homem exactamente igual a ti. Tirar nem pôr. Por dentro e por fora.
Digo-te isto e ansiosamente te pergunto: o que farias?
Lutavas com mais força pela tua essência, ou continuarias impávido e sereno de rabo colado nesse sofá castanho?
Existe um homem exactamente igual a ti.
Se isso te der a força suficiente para sair desse torpor, dessa coisa estranha que nasce como cogumelos à volta do teu coração, vou gritar-te isto até perder a voz!







Sobre o livro: Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».
Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo»...
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
O Homem Duplicado é sem dúvida um dos romances mais originais e mais fortes do autor de Memorial do Convento.


Hoje o «Ler(-te)» celebra o 1º ano! :)
Comentem!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

As Cinzas de Angela (Frank McCourt)

- Olá. Sou o Frank, queres brincar aos berlindes?
- De onde vens tu, palhaço? Não vês o que estou a fazer?
- O que tens nas mãos?
- (Risos) Isto é um computador, e estou no Facebook, a falar com os meus amigos.
Confuso, o Frank diz:
- Porquê que não falas com os teus amigos, à tarde, depois da escola?
- Aqui é mais giro!? Vê! Já tenho 300 amigos.
- 300 amigos? - pergunta Frank, tão absorto - isso não é possível!
- Estou a dizer-te que é, seu estúpido. Não sabes ver, ler, contar?
- Sim, sei. Realmente está aí... escrito. Ah, os teus amigos são feitos de letras, é isso?
- Vai levar no cu! - e o rapaz foi embora, muito zangado.
Frank ficou surpreso, sem compreender, a contemplar aquela fúria de duas pernas a correr, cada vez mais longe, cada vez mais pequenino.

Oh vida! Confusa por vezes. Cada vez mais entrelaçada, mais ainda que o esparguete cozido tempo demais, e depois disso, incapaz de descolar.
Questiono-me sobre os valores. Questiono-me sobre uma palavra cada vez mais escondida nas gavetas do tempo: a cortesia. Questiono-me sobre a resiliência. Questiono-me sobre a capacidade de amar. Questiono-me sobre a força interior que nos move, e que parece tão adormecida. Questiono o lugar das antigas brincadeiras. Os berlindes. A bola. As bonecas! Terra nos dentes, depois da queda! Risos!
Questiono, também, onde está o cheiro das castanhas? Onde está aquela sensação de mão com mão, boca com boca, e abraço colado a ferros?
Caramba, onde estão as pessoas? Onde está aquela chama que nos aquece?
O Mundo evoluiu, segundo me disseram. Bem, o que sinto poderia resumir-se a: o Mundo aquece nessa evolução, e as pessoas tão loucas, congelam mais e mais!
Congelam na pressa. Congelam, simplesmente.
Onde está aquela chama que nos aquece? Onde está a alma? Onde estão as palavras, aquelas que saem directamente do coração?

Caramba!

Indignada. Cada vez mais indignada.

Brutalmente indignada.

Ao som de: John Mayer "Waiting on the world to change"


Sobre o livro: Nas noites trágicas, geladas, visitadas pelo espectro da fome e arquejantes, sacudidas pela violência da tuberculose, Frank conhece, na intimidade, a impiedade da miséria. Cresce nos bairros pobres, apinhados, de Limerick, na Irlanda dos anos 40, exangue pela guerra civil, carente de sustento material e intelectual; cresce à mercê da crueldade, da insensatez, do adormecimento negligente que transforma cada dia de um quotidiano dramático numa cruzada contra a morte. Frank McCourt revisita a criança que foi com uma vitalidade contangiante, e a sua voz lírica, plena de uma energia rara, de musicalidade, de humor, profere as suas memórias numa prosa impetuosa, pictórica, sagaz, com a graça narrativa dos grandes romances. Uma obra que comove e deslumbra pela sua beleza, pela sensibilidade que supera o sofrimento e o rancor e torna-se matéria-prima de uma narrativa sobre o amor e o crescimento. "Prémio Pulitzer" de 1997.
www.wook.pt

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Oliver Twist (Charles Dickens)

As ruas são cinzentas, difíceis, labirintos onde me tentam perder.
Tentam. Mas não conseguem!

Oliver Twist



Ao som: ... da minha cabeça.


Nota: De Charles Dickens ... recomendo tudo! :)


Sobre o livro: Obra maior de Charles Dickens, Oliver Twist destaca-se pelo seu realismo, retratando pela primeira vez a rudez dos gangs londrinos, até então descritos com glamour e romantismo. Realça a vida de escravatura das crianças de rua e um submundo paralelo ao mundo imperial da Grã-Bretanha.
Ladrões, assassinos, mentes perversas, prostitutas, a dureza da vida na sarjeta num mundo sem esperança povoam o universo de Oliver Twist, o órfão que personifica a resistência ao sofrimento à corrupção e à luta pela vida que faz dele um verdadeiro sobrevivente. Diversas vezes adaptado ao cinema e à televisão, Oliver Twist tem agora uma nova versão cinematográfica pela mão do mestre Roman Polanski.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Rebecca (Daphne Du Maurier)

O nosso maior erro é partir do princípio que estamos certos. E o nosso maior erro é que partimos sempre do princípio que estamos certos, quando estamos perdidamente apaixonados. Seja pelo lado bom, como pelo lado mau.
Como explicar estas tonalidades pouco claras?
Pois bem, quando estamos apaixonados podemos pender para um, ou para o outro, prato da balança, mas sempre longe do equilíbrio.
Dois pratos. O da abundância. O da ausência.
Abundância num coração recheado de amor doente para dar. É tanto que transborda nas cordas vocais, desafina e grita numa dor pungente. Dramatismo que combina com atenção, atenção que combina com a certeza de estar lá, sempre. Nessas luzes da ribalta!
Ausência de si, de tanto amor para dar. Espécie de altruísmo que combina com sentimentos doentes, para dar. Eternamente ausente de corpo, algures em saldos, e coração a prémio. A desaparecer em si mesmo…!
Dizer que o amor é complexo, seria o mesmo que dizer o meu nome: nada de novo. Essa complexidade nada de novo nos traz. Contudo, não consigo deixar de me sentir tola …
Sinto-me tola porque quando o meu cérebro repousa neste tema tão abençoado, não consigo desligá-lo do egoísmo de que também é feito.
Abundantes são os loucos que asseguram para si a certeza absoluta de que são amados, sejam ou não.
Ausentes são aqueles que se anulam em prol de um dito amor, que nem sabem se existe, mas de nada fazem para se assegurarem dessa desejada, mas temida, certeza.
O egoísmo senta-se nesse cadeirão, de dois braços, abundantes e ausentes. De tudo querer, mas só para si, empanturrados em almofadas e conforto fingido.
Mas que merda é esta?
O amor é preparar o coração para a dor.
O amor é saber que teremos de ser, um dia, corajosos para dizer «amo-te» sem a certeza do eco da nossa voz.
O amor é um sorriso provocado na boca do outro.
O amor é apenas … simplicidade!



O medo de amar apodrece dias que poderiam contar as melhores histórias.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Riso de Deus (António Alçada Baptista)

Passamos a puta da vida a questionar, a questionar, a questionar.
A vida. O meu pé inchado. A minha dor de cabeça. Os meus amores frustrados. As minhas amantes. Os meus amantes. Um papel rasgado. Que não deveria estar rasgado. Um problema respiratório, provocado por problemas cardíacos. Por ti, apenas por ti. E questionamos mais, e mais.
Oh, valha-me Deus! E voltamos ao mesmo. Para quê chamar? Por quem chamar se nessas cabeças as dúvidas são tantas, impossíveis de criar um caminho, um fio condutor, capaz de nos levar, realmente, a essa procura, a esse lugar tão desejado?
Ele está lá. Ele coloca nas mãos as nossas questões e com elas brinca ao Monopoly. Iremos parar à prisão? Teremos de retroceder quantas casas?
Mas continuamos a perguntar: porquê? Porquê? Porquê?


O Riso de Deus. É óbvio que se ri!


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Záfon)

Acordei vestido de adolescente, e este vestido acorda emoções desconhecidas. Há um sonho na rua. Existem segredos com o rabo de fora.
Caminho até esse Cemitério dos Livros Esquecidos e lá, encontro-te. Estás lá, vestido como eu. À minha espera. À espera de uma história que encaixa na nossa.
Salta! Corre! Foge! Dança! Ama! E não olhes mais para trás...!
Escreve. Mergulha nessas letras. Desenha a carvão.
E não olhes mais para trás.
Não olhes.

JC

Ao som de: Katy Perry "Teenage Dream"




Sobre o livro: Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona.
Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, "A Sombra do Vento" é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.

domingo, 6 de novembro de 2011

Todos os Nomes (José Saramago)


Estou a olhar para o relógio e a procurar, desenfreadamente, o teu nome. A rasgar-me por dentro, na procura diabólica, do teu nome.
Está aqui, afinal. Procuro, procuro e procuro mais um bocado, para chegar a uma triste conclusão. A uma conclusão idiota, como tu. E como eu.
O teu nome. O teu nome é feito de chuva. Passado. Cheiros antigos. Um abraço de horas. Risos. Saudade. Gavetas fechadas. O teu nome é saudade e dor.
O som do teu nome, hoje, é um estalo de luva branca nesta minha pálida pele.
Como pude procurar-te tanto e tu aqui, sempre?
O teu nome. O teu nome. O teu nome.
Gosto do som. E a impossibilidade que trouxeste com ele escondeu-me, também, numa concha que levou com ela a capacidade de me fazer ouvir. Culpar-te? Talvez. Culpar-me? Absolutamente.
 
Que livro.

O teu nome.

 

Ao som de: Peter Gabriel "No Way Out"

sábado, 5 de novembro de 2011

Bolor (Augusto Abelaira)

 
Dou comigo a acreditar, cada vez mais, que carregamos um bocadinho do Fernando Pessoa. Há um bocadinho dele, daquela tormenta, em cada um de nós.
Existe uma insatisfação constante nos passos dados. Uma instabilidade no coração, uma dor de cabeça provocada pelas palavras dele, dela ou do chefe numa manhã atribulada.
Há sempre qualquer coisa provocada.
Nesse emaranho de lãs, de tantas e escuras cores, procuramos avidamente outros nomes, outras pessoas, outros sapatos onde assentar uma alma perdida e desejosa de se encontrar, cansada de tudo e todos que já tem. Outra pessoa, que por não existir, possivelmente por estar longe, essa inacessibilidade, torna-a perfeita. E basta. Basta para dormir melhor sobre a almofada do amanhã prometido pelo despertador rotineiro.
Não paramos de sonhar quando esse despertador grita, e os olhos continuam fechados. Estranhamente fechados. Fechados numa procura irrealista dessa pessoa inacessível, baseados na crença de perfeição invisível, intocável. Porquê? E aquela pessoa à nossa frente? Ali, diariamente? E nós, reflectidos no espelho, diariamente?
Somos humanos. E somos preguiçosos, nessa eterna culpa atribuída ao outro.
Sonhar com aquilo que não temos é mais doce e confortável. Corremos como o hamster, infinitamente, aos círculos, numa procura de tudo e nada.
Sonhar com aquilo que temos e construí-lo, diariamente, esculpir, voltar a esculpir, olhar, voltar atrás, escutar, falar e abraçar isso que temos, aquilo que temos, aquele que temos. É agridoce. É cansativo. Mas é digno.
Sonhar por sonhar é quase uma ofensa. Os sonhos também gostam da perfeição.

Depende dos nossos sapatos. Não da inacessibilidade, e sim da autenticidade. Da nossa “Pessoa”.

Dedicado à tolerância, aos casais, ao casamento.



Ao som de: Adele “Someone Like You”

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Adeus, Tsugumi (Banana Yoshimoto)

As palavras são pesadas como as camisolas de Inverno, ou como os armários da sala. Também podem ser leves como penas ou folhas de papel. Depende de quê? No final de contas, o peso das palavras depende de quê?
Depende do som. Depende da forma como as evocamos com a boca e como esse som entra e sai, simultaneamente, de um coração que tem tanto de cansado como de esperançoso.
Morte. Fecho os olhos e vejo aquele armário da sala, pesado, a cair sobre mim. Palavra pesada, de som duro, seco, frio, que corta, gela, arrepia e me deixa sozinha.
Passamos os dias nesse medo gelado que uma palavra assim, tão desfocada, entre nas páginas de um livro da nossa casa, sem pedir. E congelamos mais um bocadinho, perdendo a perfeição necessária para evocar as palavras leves. São as leves. Só as leves é que podem combater as pesadas.
Sorriso. Sol. Céu. Passeio. Lágrima. Relva. Chuva. Salto. Amigo. Amor. Mãos. Beijo. Abraço. Querer. Gelado. Algodão. Mar. Nuvem. Areia. Casa. Livro. Criança. Bola. Flores. Filmes. Família. Chupa-chupa. Cabana. Lugar. Endereço. Café. Música. Lembrança. Paixão. Objectivo. Acreditar. Estrada. Praia. Pé. Saia. Calças. Rebuçados. Pescoço. Perfume. Infinito.
A morte é, sim, uma palavra pesada. Fecho os olhos e vejo aquele armário da sala. Mas existem tantas outras palavras leves que valem tudo. Valem tudo!
O segredo está na conjugação sábia da boca, em saber evocá-las, e a crença num coração de bom ouvido: que saiba distinguir aquilo que vale realmente ser dito e daí em frente, ser sentido e vivido sem medo. Essa sim, outra palavra pesada. Que sufoca. Que impede. Que não deixa viver...!





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

As Vinhas da Ira (John Steinbeck)

Corre ao meu lado por essa estrada fora, onde não há comida, onde os mortos se aglomeram entre si e entre nada. Corre ao meu lado entre tudo e nada, mas corre.
Corre. Corre. Corre. E não desesperes. Lá no fundo, não será bem ali, mas quem sabe se não é do outro lado da estrada? Continua. Eu vou contigo.
Mostra. Mostra a tua matéria, e corre.
Mostra que nem sempre tudo o que parece, é.
Mostra-lhe que podes conseguir mesmo quando todos te dizem o contrário.
Eu vou contigo.

Às pessoas com espírito.

Sobre o livro: Centra-se nos efeitos da Grande Depressão nas pequenas famílias de fazendeiros do Oeste Americano, que se vêem obrigadas a abandonar as suas terras devido à chegada do progresso e de um novo regime de propriedade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Principezinho (Antoine de Saint-Exupéry)




Falamos de amor à boca cheia. Cheia de rebuçados, açúcar a cair aos bocados pelos cantos, caramelo e chocolate, por vezes. São tantos os ingredientes, todos doces, mas tantos, e é exactamente nessa quantidade, na importância do quantificar que reside tudo. O importante é poder olhar para os dedos lambuzados e pegajosos do doce e contar, contar muito, o quanto temos, o quanto amor temos. Olha! Tanto caramelo, tanto açúcar e tanto chocolate por essa noite fora.
Vivemos no mundo de cubinhos e, infelizmente, não são cubinhos mágicos. São, só e apenas, cubinhos. Cubinhos grandes, aglomerados, quantificáveis, onde se vão colocando as medalhas dos feitos conseguidos pela força dos dias teimosos, que depois de espremidos, como fazemos com os limões, não conseguimos perceber bem o que acabámos de contar.
Acordamos já a correr, saltamos desse cubinho, não mágico, na procura de mais coisas para quantificar e asfixiar o relógio, roer as unhas e quantificar mais, até à hora de dormir. Conseguir uma promoção, sim, conseguir um elogio de alguém que não diz «bom dia», mas quantificar isso numa folha importante sim, e correr mais um bocadinho.
E a noite surge, num manto rápido, com propensão a uma grande e violenta má disposição, de quem não conseguiu quantificar o suficiente.
Quantificar. Determinar a quantidade de. Parece que nada é verdadeiramente suficiente e, por isso mesmo, continuamos a correr desesperadamente mesmo por baixo do manto negro a que o dia já se rendeu. O relógio será generoso, certamente!
Entramos na cozinha e existem cubinhos mágicos no armários, que ajudam a condimentar um jantar. Mas no outro cubinho, no nosso cubinho, esse aglomerado de cubinhos que criámos à nossa volta, onde vivemos tão escondidos e centrados, não há um verdadeiro cubinho mágico que faça soprar essa estranha necessidade de … quantificar.
Falamos de amor à boca cheia. Falamos de amor à boca cheia. Cheia de rebuçados, açúcar a cair aos bocados pelos cantos, caramelo e chocolate, por vezes. São tantos os ingredientes, todos doces, mas tantos, e é exactamente nessa quantidade, na importância do quantificar que reside tudo…
O Principezinho é da minha opinião, estou certa, quando digo que não podemos cativar ninguém pelo número de doces que temos nas mãos. Cativa antes por aquilo que és, e não por aquilo que pensas ter. Sim, apenas pensas. No mesmo momento que tens, podes, no seguinte, deixar de ter.
A tua essência nasce contigo e só precisas de preparar o teu coração e depois de cativares, seres responsável por esse amor que cresce à medida da força da tua respiração, da tua crença, da tua entrega.
Da simplicidade.

Dedicado a quem abraça árvores.


Ao som de: Imogen Heap «Hide and Seek»



terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Um Deus Desconhecido (John Steinbeck)

Perguntas. Argumentas e afirmas. Depois ris perante toda esta minha perplexidade.
A verdade é que, realmente, não consigo responder perante esse teu sorriso rasgado, seguro, que contagia os olhos tão igualmente seguros. Em mim.
Não fiques assim. Não sejas assim. Não tenhas essa segurança em mim. Oh tu! Oh tu que tanto amas abraçar as árvores ..., e eu como amo ver-te fazê-lo.
A minha perplexidade perante tudo, perante a dimensão do mundo, e de todas as coisas criadas são, para ti, pequenas partículas de açucar e chuva, para partilhares com quem amas.
És, assim, feito de chuva. E é assim, a simplicidade da vida.
Uma simplicidade que rasga tudo em sorrisos efémeros, mas fortes, e nesses abraços naquela árvore, onde te aprecio e onde tudo pára.
E nada. Nada mais importa.

Mas que raio andam ele aqui a fazer, afinal?
Eles não abraçam as árvores.
Eles não cheiram o jardim após os beijos da chuva.
Oh! Eles não entendem nada disto.

Vamos embora daqui.
Onde eu te entendo, onde tu me entendes.
Esse Deus desconhecido...






terça-feira, 25 de outubro de 2011

Gente Independente (Halldór Laxness)


A independência é o medo a esconder, ferozmente, o melhor coração do mundo.
Os independentes são os donos do melhor coração.
Paradoxo? Não...
É exactamente por isso que fogem.

E é aí que reside o meu amor. Pelo Bjartur.
E por ti, mocho.



Ao som de: Frou Frou "Hear Me Out"

Nota: Um dos melhores livros de sempre, que me tocou o coração. Recomendo-o com as duas mãos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Flor Oculta (Pearl S. Buck)

Acredito que a maioria acredita que o amor é pré-fabricado, como tudo o que está à nossa volta.
Por vezes, dou comigo a pensar o que raio se anda a passar na mente de toda a gente. Depois, adormeço, acordo e descubro que não é a mente: são buracos no coração dessa gente toda.
O amor parece uma caixa, daquelas decoradas pela técnica do guardanapo e cada uma tem de condizer com a outra, numa simetria que não deixa os olhos se distraírem um só segundo. Nem fechar, para respirar o céu, que é azul, ou sentir as gotas da chuva, que caem descontroladamente pelo rosto, e beijam, beijam, beijam tão desavergonhadamente!
Simetrias. Cores iguais. Pontos comuns. Ingredientes essenciais para esse bolo, um amor comestível, ao pequeno-almoço apressado.
E o coração? Como é feita essa pré-selecção? O coração não se vê, dou comigo a pensar como fazer uma selecção dessas...
Vou amar-te porque és branco como eu, os teus olhos são azuis como os meus, e és baixo como eu. O coração, tem buracos e é frio? Não faz mal. O teu rosto é parecido e os nossos corpos podem somar-se todas as noites, nessa simetria tão perfeita aos olhos doentes!

Palhaços.

A maioria das pessoas não precisa de esperar pelo Carnaval. A pele é feita de fatos de palhaço. Escolhem cores e sorrisos condizentes e o coração, esse, arrumado em papel de seda, e numa gaveta.

Amor. Amor. São fragmentos de dias. Perguntem-me o que é o amor e começo logo por gritar. Grito ao tentar dizer que nada tem de visível, está tudo num casulo que só entende quem está dentro desses fragmentos de dias.
Fragmentos! O amor é feito de fragmentos. São as gotas da chuva, violentas, é o sentido do seu humor por cima do nosso corpo.

É uma sala onde só o coração entra.

Ao som de: Imogen Heap "Hide and Seek"






quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A mim. E a vocês!

Hoje o livro é o meu.
Quero dedicar 27 anos de literatura, dias caros, dias baratos, a todas as personagens que de alguma forma fizeram valer cada palavra, cada gesto, cada grito. Cada coisa.
A mensagem pode ser antiga, mas é importante sublinhá-la diariamente: vivam cada página intensamente, leiam-na e absorvam cada palavra até à exaustão.
A vida é curta demais para a ver passar à velocidade do vento.
Como eu digo, agarrem na vossa história e façam dela algo, para sempre, inesquecível!

A mim. E a vocês!
Muitos anos de boas histórias. De bons livros. Cheios de vida.


Será arrogante dizer que só depende de nós?
Não. Não é.


Dedicado ao 20 de Outubro :)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Quase Fim do Mundo (Pepetela)

Ela fecharia os olhos e prolongaria aquele abraço de horas.
Beberia com ele.
Oh! E certamente lhe diria o quanto ele lhe fez ferver o coração triste.
Oh, sim!
Sem medos, seria isso sim.
Seria isso que ela faria no momento em que acordasse e desse por si sozinha no Mundo...


Dedicado a quem ama a chuva. Eu amo.

Ao som de: For The First Time (The Script)


Sobre o livro: Chamo-me Simba Ukolo, sou africano, e sobrevivi ao fim do mundo.
E se a vida animal de repente desaparecesse da Terra, excepto num pequeno recanto do mundo e em doses mínimas? Talvez as causas se conheçam depois, mas o que importa é a existência de alguns seres, aturdidos pelo desaparecimento de tantos, e procurando sobreviver. É sobre estes sobreviventes e as suas reacções, desejos, frustrações mas também pequenas/grandes vitórias que trata este romance. Detalhe importante: o recanto do mundo que escapou à hecatombe situa-se numa desgraçada zona da desgraçada África. O que permitirá questionar as relações contemporâneas no velho Mundo.




quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Os Pais dos Outros (Romana Petri)

Num conto, há sempre quem acrescente um ponto. Ou dois. Ou três.
Bem, o que fazer? Nada, diria eu.
Deus, que é Deus, não agradou a todos. Não é assim que diz o velho adágio popular?
Bem, o que fazer? Nada, digo eu, outra vez.
A culpa. Melhor, a atribuição da culpa é, para o ser humano, aquilo que o açucar é para a formiga: irresistível.
Os psicólogos são os abençoados que vos vêm defender com o trauma que carregam na pesada alma, que levou uns açoites em dias mais tortos, e continuará a doer, confortavelmente.
A dor pode ser confortável, e é de facto. A dor é confortável para tanta coisa!
É confortável no sentido em que nos permite deitar e culpar.
Culpem. Continuem a culpar. Certamente terão toda a razão em culpar. Gritem um bocado. Culpem mais ainda.
A questão é que culpar cria raízes, e nada mudará. De nada adiantará. E continuarão exactamente no mesmo sítio de sempre, mais e mais enraizados.

Culpar é nada mais do que adormecer no velho sofá das recordações de infância.

O caminho é por ali.

Filhos, cortem esse cordão.

Acordem e criem as vossas próprias culpas, passíveis de serem esculpidas e melhoradas, dia-a-dia, numa parede reservada a novos quadros...!






quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)

Não. Pois não.
Não basta um dia de sorte, e uma oportunidade.
É preciso que os pés saltem naquele momento e a boca, num beijo roubado, diga as palavras presas pela chuva dos anos.




Sobre o livro: Uma história centrada na importância da luta e perseverança. Sobre a força. A história de um velho, que após meses de azar, decide enfrentar o mar, encontrar a sorte e lutar perante os rasgos que esta nem sempre contempla.

Ao som de: Breakeven (The Script)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Segredo do Bosque Velho (Dino Buzzati)

O vento é forte e a malícia dos homens continua tão gelada como a neve que se instala nas nossas árvores.
Caminho, sozinha, pelo bosque que sempre senti ser meu. A magia criada não é explicada senão pelo sentir do coração.
Hoje, que não estás, compreendo afinal que essa magia estava também no brilho dos teus olhos, nos passos que corriam velozes ao meu lado, na sintonia dos pensamentos e no silêncio das palavras certas.
Descobri o segredo.
Tarde demais?


Ao som de: We Cry (The Script)

JC

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Trégua (Mario Benedetti)

Acreditamos na existência de uma corda.
Há uma corda onde nos prendemos, como as molas prendem as roupas molhadas.
Há cordas, nos nossos pensamentos. Há linhas, directrizes certas, que devemos seguir. Há aniversários contados pelos dedos, para não perder a conta, há um fio condutor que nos levará ao ócio, desejado ócio de fim de idade.
Andamos perdidos nessa corda que nos vai conduzindo, acreditando na força dos dias e na fé de que é assim porque Deus quer. Mais um dia, mais uma semana, mais um mês rasgado do calendário.
O espelho vai denunciando rugas que os dias desenham à pressa, vamos caminhando agarrados nessa corda, agora mais pesados, não só pelas rugas, mas parece-nos que a ampla visão de outrora, começa a mingar...como a Lua.
Os nossos pensamentos são feitos da mais pura Matemática. São somas de dias e subtracções de felicidades, recordações, sonhos agora inatingíveis.
A surpresa faz-nos estremecer quando a Matemática explode em números impossíveis, a corda se desfaz num momento totalmente inesperado e afinal, ficamos presos aos dias que seriam, pela suposta ordem, de outro alguém. Um outro alguém que ainda agora agarrara a sua corda.
A vida é sempre uma surpresa, nem sempre doce. A surpresa reside no facto de esquecermos sempre esse pequeno pormenor...



Sobre o livro: Este é um livro centrado num homem viúvo quase a alcançar a idade da reforma. Centrado na sua vida pacata, e na sua relação pouco próxima com os seus três filhos, deseja o ócio da reforma. Contudo, a chegada de uma jovem estagiária ao escritório fará suscitar uma série de sentimentos, crenças e projecções até então perdidas na gaveta do tempo. Um bom livro. Recomendo.

Dedicado aos que temem sonhar. Sonhem muito. Façam algo, agora.

Ao som de: Maybe Tomorrow (Stereophonics)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Jane Eyre (Charlotte Brontë)

Querer. Conjugação de tantas coisas, com sabor a açuçar e vento suave que se intromete pelos cabelos, num dia calmo, sereno.
Querer. Mais do que realmente caminhar em direcção a essa doce conjugação, que se assemelha tão simples,... oh é saber renunciar ao coração!
Nem sempre querer é só, e só, querer.
Nem sempre amar é só amar. Nem só querer é só a conjugação do verbo caminhar e abraçá-lo num dia de chuva. A tormenta desses movimentos poderá levar-me, mais tarde, a recear o meu querer, a envergonhar-me dele, a não poder querer.
Deus acredita na existência de determinadas Leis, e a sabedoria do Homem está em não as renunciar exactamente no momento em que o coração mais deseja fazê-lo. Acredito que a essência de amar é esta.
Amar é querer. Querer é amar.
E amar é dar e guardar.
Amar-te implicou guardar o meu querer.
Oh Edward, diga-me meu amor, como não é leve sentir o meu amor neste dia de chuva e cegueira, onde os caminhos são livres de tormentas e onde os segredos se dissipam para lá do vento, agora tão doce como a minha própria voz?

Jane

Dedicado ao AMOR

Ao som de: My Edward And I (Jane Eyre Soundtrack)




sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Cidade das Flores (Augusto Abelaira)


Enquanto ela se enche de coragem, se descalça, e caminha livremente naquele jardim, todo o meu corpo ganha uma nova força, até então desconhecida.
A arte daquele café incendeia o meu coração, para nunca mais se apagar.
Toda uma força vai nascendo em mim, em ti, nele, nela, e em nós, incapaz de cair.
Incapaz de cair.


Sobre o livro: Em Itália, um grupo de jovens tenta rebelar-se contra o fascismo de Mussolini. Toda a sua luta assemelha-se ao que o nosso País vivia, até ao 25 de Abril.
Abelaira situa o enredo noutro País devido à censura fascista que, facilmente, apreenderia o seu livro.



Dedicado a:

Joana, Lúcia, Aida, Patrick, Chico, Paula, Christina, Ana, Ângela, Raquel, Marília, Mª João, João, Johnny F., Catarina, Sónia, Tatiana, Helena, Indira, Susana, Janeca, Mickael, Clara, Ricardo, Rui Pedro, Sandra, Tiago, Ruben e Miguel.

Eu sei porquê.

 Ao som de: Hanson "Where's the Love"

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

As Intermitências da Morte (José Saramago)

Vais amar-me até ao teu último suspiro.
Meu amor, até eu, tão leve e subtil, desejo ardentemente ser amada.
Desejo que me ames mortalmente, que nada vejas além de mim, que adormeças nos meus braços, certo que não irei embora. Não vou.
Levo comigo esse teu último suspiro.

Com amor,
Morte

Sim. No dia seguinte, vieste comigo. (Risos)




Ao som de: Foo Fighters "All My Life"

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Perfume - História de um Assassino (Patrick Süskind)

As meninas guardam flores entre os cadernos na certeza de que, assim, o seu perfume perpetuará nas folhas imaculadas.
Os amantes percorrem as zonas desconhecidas dos corpos pelo convite do seu perfume, imortalizado na sua mente, no seu coração.
Poderão os dias arrastar-se a anos. As ruas mudarem. As cores das montras alterarem. Os passos ficarem mais lentos, as memórias atenuarem, mas se o vento trouxer esse perfume, guardado carinhosamente num pescoço que, outrora, quis encantar, tudo pára e regride.
Os dias retrocedem. As ruas voltam a ter a mesma cor. As montras ganham aquele brilho e roubam sorrisos fáceis. Os passos pequenos e cansados são agora transformados numa veloz corrida de encontro a um tempo perfumado, de memórias felizes. Nesse pescoço, nesse recanto onde tudo era tão protegido, em que te amei e memorizei.
A ingratidão de um relógio é cortante como o gelo de um cínico Inverno. Corre e leva com ele a bagagem amealhada, duramente conquistada pelos anos.
O que dizer de ti, Grenouille, capaz de matar?
O que dizer de mim, Grenouille, capaz de te amar?
Dizem que apenas morremos no coração de alguém. E no meu, estás vivo.
Se como eu, incapaz de ser notada, me banhaste nesse perfume perfeito, por ti feito, como poderia eu, jamais, negar-me a esse doce egoísmo de te amar?

Dedicado ao expoente máximo do amor: a loucura.
Texto inspirado numa possível apaixonada de Grenouille, também ela nascida sem qualquer cheiro.


Ao som de: “O Perfume – A História de Um Assassino” (Banda Sonora)

Anna Karénina (Lev Tolstoi)


São muitas as opiniões, críticas, sei lá eu, à volta deste livro.
Hoje vou escrever, também, sobre aquela que considero ser a essência deste livro.

Ora bem. Histórias de amor, quem não as tem?
Quem é o grande camelo que não cai numa dessas histórias de…? Amor?
Vronsky. A sua elegância. Os seus olhos penetrantes. A sua delicadeza. A respiração que parece bloquear à medida dos seus passos, cada vez mais próximos.
É a paixão, dizem os sábios.
Porque será, meus caros, tantas vezes o amor, paixão, o que seja, comparado a uma tragédia?
Olhares. Suores. Suspiros. Aproximações. Condenações. Moralidades quebradas. Desejos proibidos alcançados. Paixão. Sim, paixão. Jamais, jamais negada.
Mas… e depois?
Valerá o sacrifício de dois corpos unidos por esse sentimento de… paixão? Uma paixão, um amor tão grande que esquece mundos exteriores, feitos de pequenos fragmentos onde cada um pousa, onde cada um desses amantes pertence. Cada beijo roubado é um estalo de luva branca a alguém que o sentirá, mais tarde.
Amor? Paixão? Diferenciam os conceitos. Ainda não consegui entender a diferença.
Só consegui ver dois pontos de semelhança inquestionáveis: egoísmo puro.
Tão puro como só Anna entendeu no seu expoente máximo, ao atirar-se para aquela linha de comboio, agora, tão libertadora.
Tão, igualmente, egoísta.



Amor?
Paixão?



Dizem que o corpo humano é constituído por mais de 70% de água.
98% de egoísmo constitui a alma de um homem apaixonado.