sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A Cidade das Flores (Augusto Abelaira)


Enquanto ela se enche de coragem, se descalça, e caminha livremente naquele jardim, todo o meu corpo ganha uma nova força, até então desconhecida.
A arte daquele café incendeia o meu coração, para nunca mais se apagar.
Toda uma força vai nascendo em mim, em ti, nele, nela, e em nós, incapaz de cair.
Incapaz de cair.


Sobre o livro: Em Itália, um grupo de jovens tenta rebelar-se contra o fascismo de Mussolini. Toda a sua luta assemelha-se ao que o nosso País vivia, até ao 25 de Abril.
Abelaira situa o enredo noutro País devido à censura fascista que, facilmente, apreenderia o seu livro.



Dedicado a:

Joana, Lúcia, Aida, Patrick, Chico, Paula, Christina, Ana, Ângela, Raquel, Marília, Mª João, João, Johnny F., Catarina, Sónia, Tatiana, Helena, Indira, Susana, Janeca, Mickael, Clara, Ricardo, Rui Pedro, Sandra, Tiago, Ruben e Miguel.

Eu sei porquê.

 Ao som de: Hanson "Where's the Love"

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

As Intermitências da Morte (José Saramago)

Vais amar-me até ao teu último suspiro.
Meu amor, até eu, tão leve e subtil, desejo ardentemente ser amada.
Desejo que me ames mortalmente, que nada vejas além de mim, que adormeças nos meus braços, certo que não irei embora. Não vou.
Levo comigo esse teu último suspiro.

Com amor,
Morte

Sim. No dia seguinte, vieste comigo. (Risos)




Ao som de: Foo Fighters "All My Life"

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Perfume - História de um Assassino (Patrick Süskind)

As meninas guardam flores entre os cadernos na certeza de que, assim, o seu perfume perpetuará nas folhas imaculadas.
Os amantes percorrem as zonas desconhecidas dos corpos pelo convite do seu perfume, imortalizado na sua mente, no seu coração.
Poderão os dias arrastar-se a anos. As ruas mudarem. As cores das montras alterarem. Os passos ficarem mais lentos, as memórias atenuarem, mas se o vento trouxer esse perfume, guardado carinhosamente num pescoço que, outrora, quis encantar, tudo pára e regride.
Os dias retrocedem. As ruas voltam a ter a mesma cor. As montras ganham aquele brilho e roubam sorrisos fáceis. Os passos pequenos e cansados são agora transformados numa veloz corrida de encontro a um tempo perfumado, de memórias felizes. Nesse pescoço, nesse recanto onde tudo era tão protegido, em que te amei e memorizei.
A ingratidão de um relógio é cortante como o gelo de um cínico Inverno. Corre e leva com ele a bagagem amealhada, duramente conquistada pelos anos.
O que dizer de ti, Grenouille, capaz de matar?
O que dizer de mim, Grenouille, capaz de te amar?
Dizem que apenas morremos no coração de alguém. E no meu, estás vivo.
Se como eu, incapaz de ser notada, me banhaste nesse perfume perfeito, por ti feito, como poderia eu, jamais, negar-me a esse doce egoísmo de te amar?

Dedicado ao expoente máximo do amor: a loucura.
Texto inspirado numa possível apaixonada de Grenouille, também ela nascida sem qualquer cheiro.


Ao som de: “O Perfume – A História de Um Assassino” (Banda Sonora)

Anna Karénina (Lev Tolstoi)


São muitas as opiniões, críticas, sei lá eu, à volta deste livro.
Hoje vou escrever, também, sobre aquela que considero ser a essência deste livro.

Ora bem. Histórias de amor, quem não as tem?
Quem é o grande camelo que não cai numa dessas histórias de…? Amor?
Vronsky. A sua elegância. Os seus olhos penetrantes. A sua delicadeza. A respiração que parece bloquear à medida dos seus passos, cada vez mais próximos.
É a paixão, dizem os sábios.
Porque será, meus caros, tantas vezes o amor, paixão, o que seja, comparado a uma tragédia?
Olhares. Suores. Suspiros. Aproximações. Condenações. Moralidades quebradas. Desejos proibidos alcançados. Paixão. Sim, paixão. Jamais, jamais negada.
Mas… e depois?
Valerá o sacrifício de dois corpos unidos por esse sentimento de… paixão? Uma paixão, um amor tão grande que esquece mundos exteriores, feitos de pequenos fragmentos onde cada um pousa, onde cada um desses amantes pertence. Cada beijo roubado é um estalo de luva branca a alguém que o sentirá, mais tarde.
Amor? Paixão? Diferenciam os conceitos. Ainda não consegui entender a diferença.
Só consegui ver dois pontos de semelhança inquestionáveis: egoísmo puro.
Tão puro como só Anna entendeu no seu expoente máximo, ao atirar-se para aquela linha de comboio, agora, tão libertadora.
Tão, igualmente, egoísta.



Amor?
Paixão?



Dizem que o corpo humano é constituído por mais de 70% de água.
98% de egoísmo constitui a alma de um homem apaixonado.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Propriedade (Valerie Martin)

«Este é o meu marido. Este é o meu marido.»
Dou comigo a pensar enquanto contemplo aquela gélida imagem de homens negros, agarrados a cordas, no rio, comandados por ele. Só porque sim. Numa rídicula luta à Darwin.
Este é o meu marido.
Sempre achara, na inocência da idade, que todas as suas reservas eram o rascunho de um desenho final de grande sensibilidade, que admirava.
Não. Era um rascunho de estranha arrogância, fortaleza nojenta, de um pó que carregava e largava sempre consigo.
Um pó que fazia arder os olhos e o coração.
Que fez arder. Juntamente com Sarah, a que se tornara gaveta dos seus filhos amarelos.
Fez arder, esse pó. Fer arder, tudo.
Hoje contemplo a janela, ferida. Mas livre.



Dedicado às mulheres que viveram, e vivem, de coração envolto em armaduras de ferro.
Dedicado a grandes mulheres.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Há Sempre Um Amanhã (Pearl S. Buck)

Depois de um dia tenebroso, o conforto de um amanhã promissor.
Depois de dias e dias tenebrosos, há sempre a sensação reconfortante de que um amanhã poderá ser diferente.
A audácia está, precisamente, em saber preparar o coração para que, nessa altura, os olhos, em sintonia, vejam exactamente na mesma direcção.
Na direcção desse longínquo, mas tão reconfortante, amanhã.



Dedicado aos que ainda sabem sonhar.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Confissão de Uma Jovem (Marcel Proust)



Peças de puzzle. Peças de puzzle, de vidro.

Imaginem a asfixia que não é uma vida comandada por peças de puzzle... feitas de vidro?

Onde será o espaço de cada uma delas? Aqui? Ali?

Onde me encaixo eu?

Onde te encaixas tu?

E se nesse trajecto desesperado, tão aflito, me excedo e todas as peças se quebram?


Ao som de: Switchfoot - The Beautiful Letdown