sábado, 26 de novembro de 2011

A Pousada da Jamaica (Daphne Du Maurier)

Este é mais um livro cuja essência da mulher é retratada na sua mísera condição. A condição de eterna estúpida.
São ridiculamente estúpidas que já não há escapatória possível, são assim, estúpidas, imbecis. Decidem, por conta própria, a deixarem cérebros de ouro na gaveta, e tornam-se seres miseráveis, estúpidos, regidos por emoções vagas, que as levam o vento!
Mulheres estúpidas. Para sempre estúpidas.
Súplicas pela igualdade, mas acordem. Para sempre estúpidas.

Porcaria de fim de livro. Infelizmente, um retrato miserável de quem estupidamente se ... apaixona.
Mary, és uma mulher estúpida.


Ao som de: "Here To Stay" (Korn)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Ratos e Homens (John Steinbeck)

Hoje estou destroçada. Não sei porquê. E se calhar, sei.
O final deste livro, à lareira, finalizou este meu destroço já iminente. Acho que tive mesmo vontade de o atirar à lareira, tal foi o estrondo que provocou por aqui. Uma nuvem, e a ameaça da chuva, outra vez.
Hoje estrou destroçada e não vou dizer mais nada.

Pobre Lennie. Pobre George.
Vida. Puta.

Chuva. Muita chuva.


Ao som de: Imogen Heap "Hide and Seek"



Sobre o livro: George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência. Em 'Ratos e homens', Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna.

domingo, 13 de novembro de 2011

A Menina do Farol (Jeanette Winterson)

Hoje, só quero que me contes uma história.
O poder das histórias na nossa vida é como uma lufada de ar fresco. É a lufada de ar fresco que preciso neste momento.
Agora. E vou respirar sem doer!





Ao som de: The Man Who Can't Be Moved (The Script)


Sobre o livro: Silver é uma órfã, um barco sem âncora, criada num farol por Pew – um faroleiro cego e sem idade – , que lhe conta histórias e revela que o mundo é feito de histórias. Como a de Silver, que se cruza com a do Reverendo Babel (que viveu na sua aldeia cem anos antes), a de Robert Louis Stevenson, a de Charles Darwin, e também a de um Dr. Jekyll e um certo Sr. Hyde... Em A Menina do Farol, Jeanette Winterson dá provas de um talento indiscutível, com uma invejável mestria de um lirismo intimista. Uma das autoras mais originais da sua geração, Winterson cria neste livro uma fábula moderna acerca do poder transformador da própria narrativa. «Trata-se sem dúvida de uma das vozes narrativas mais interessantes da Europa actual.» ABC Cultural

sábado, 12 de novembro de 2011

O Homem Duplicado (José Saramago)

Existe um homem exactamente igual a ti.
Vou dizer-te isto.
Existe por aí um homem exactamente igual a ti. Tirar nem pôr. Por dentro e por fora.
Digo-te isto e ansiosamente te pergunto: o que farias?
Lutavas com mais força pela tua essência, ou continuarias impávido e sereno de rabo colado nesse sofá castanho?
Existe um homem exactamente igual a ti.
Se isso te der a força suficiente para sair desse torpor, dessa coisa estranha que nasce como cogumelos à volta do teu coração, vou gritar-te isto até perder a voz!







Sobre o livro: Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».
Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo»...
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
O Homem Duplicado é sem dúvida um dos romances mais originais e mais fortes do autor de Memorial do Convento.


Hoje o «Ler(-te)» celebra o 1º ano! :)
Comentem!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

As Cinzas de Angela (Frank McCourt)

- Olá. Sou o Frank, queres brincar aos berlindes?
- De onde vens tu, palhaço? Não vês o que estou a fazer?
- O que tens nas mãos?
- (Risos) Isto é um computador, e estou no Facebook, a falar com os meus amigos.
Confuso, o Frank diz:
- Porquê que não falas com os teus amigos, à tarde, depois da escola?
- Aqui é mais giro!? Vê! Já tenho 300 amigos.
- 300 amigos? - pergunta Frank, tão absorto - isso não é possível!
- Estou a dizer-te que é, seu estúpido. Não sabes ver, ler, contar?
- Sim, sei. Realmente está aí... escrito. Ah, os teus amigos são feitos de letras, é isso?
- Vai levar no cu! - e o rapaz foi embora, muito zangado.
Frank ficou surpreso, sem compreender, a contemplar aquela fúria de duas pernas a correr, cada vez mais longe, cada vez mais pequenino.

Oh vida! Confusa por vezes. Cada vez mais entrelaçada, mais ainda que o esparguete cozido tempo demais, e depois disso, incapaz de descolar.
Questiono-me sobre os valores. Questiono-me sobre uma palavra cada vez mais escondida nas gavetas do tempo: a cortesia. Questiono-me sobre a resiliência. Questiono-me sobre a capacidade de amar. Questiono-me sobre a força interior que nos move, e que parece tão adormecida. Questiono o lugar das antigas brincadeiras. Os berlindes. A bola. As bonecas! Terra nos dentes, depois da queda! Risos!
Questiono, também, onde está o cheiro das castanhas? Onde está aquela sensação de mão com mão, boca com boca, e abraço colado a ferros?
Caramba, onde estão as pessoas? Onde está aquela chama que nos aquece?
O Mundo evoluiu, segundo me disseram. Bem, o que sinto poderia resumir-se a: o Mundo aquece nessa evolução, e as pessoas tão loucas, congelam mais e mais!
Congelam na pressa. Congelam, simplesmente.
Onde está aquela chama que nos aquece? Onde está a alma? Onde estão as palavras, aquelas que saem directamente do coração?

Caramba!

Indignada. Cada vez mais indignada.

Brutalmente indignada.

Ao som de: John Mayer "Waiting on the world to change"


Sobre o livro: Nas noites trágicas, geladas, visitadas pelo espectro da fome e arquejantes, sacudidas pela violência da tuberculose, Frank conhece, na intimidade, a impiedade da miséria. Cresce nos bairros pobres, apinhados, de Limerick, na Irlanda dos anos 40, exangue pela guerra civil, carente de sustento material e intelectual; cresce à mercê da crueldade, da insensatez, do adormecimento negligente que transforma cada dia de um quotidiano dramático numa cruzada contra a morte. Frank McCourt revisita a criança que foi com uma vitalidade contangiante, e a sua voz lírica, plena de uma energia rara, de musicalidade, de humor, profere as suas memórias numa prosa impetuosa, pictórica, sagaz, com a graça narrativa dos grandes romances. Uma obra que comove e deslumbra pela sua beleza, pela sensibilidade que supera o sofrimento e o rancor e torna-se matéria-prima de uma narrativa sobre o amor e o crescimento. "Prémio Pulitzer" de 1997.
www.wook.pt

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Oliver Twist (Charles Dickens)

As ruas são cinzentas, difíceis, labirintos onde me tentam perder.
Tentam. Mas não conseguem!

Oliver Twist



Ao som: ... da minha cabeça.


Nota: De Charles Dickens ... recomendo tudo! :)


Sobre o livro: Obra maior de Charles Dickens, Oliver Twist destaca-se pelo seu realismo, retratando pela primeira vez a rudez dos gangs londrinos, até então descritos com glamour e romantismo. Realça a vida de escravatura das crianças de rua e um submundo paralelo ao mundo imperial da Grã-Bretanha.
Ladrões, assassinos, mentes perversas, prostitutas, a dureza da vida na sarjeta num mundo sem esperança povoam o universo de Oliver Twist, o órfão que personifica a resistência ao sofrimento à corrupção e à luta pela vida que faz dele um verdadeiro sobrevivente. Diversas vezes adaptado ao cinema e à televisão, Oliver Twist tem agora uma nova versão cinematográfica pela mão do mestre Roman Polanski.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Rebecca (Daphne Du Maurier)

O nosso maior erro é partir do princípio que estamos certos. E o nosso maior erro é que partimos sempre do princípio que estamos certos, quando estamos perdidamente apaixonados. Seja pelo lado bom, como pelo lado mau.
Como explicar estas tonalidades pouco claras?
Pois bem, quando estamos apaixonados podemos pender para um, ou para o outro, prato da balança, mas sempre longe do equilíbrio.
Dois pratos. O da abundância. O da ausência.
Abundância num coração recheado de amor doente para dar. É tanto que transborda nas cordas vocais, desafina e grita numa dor pungente. Dramatismo que combina com atenção, atenção que combina com a certeza de estar lá, sempre. Nessas luzes da ribalta!
Ausência de si, de tanto amor para dar. Espécie de altruísmo que combina com sentimentos doentes, para dar. Eternamente ausente de corpo, algures em saldos, e coração a prémio. A desaparecer em si mesmo…!
Dizer que o amor é complexo, seria o mesmo que dizer o meu nome: nada de novo. Essa complexidade nada de novo nos traz. Contudo, não consigo deixar de me sentir tola …
Sinto-me tola porque quando o meu cérebro repousa neste tema tão abençoado, não consigo desligá-lo do egoísmo de que também é feito.
Abundantes são os loucos que asseguram para si a certeza absoluta de que são amados, sejam ou não.
Ausentes são aqueles que se anulam em prol de um dito amor, que nem sabem se existe, mas de nada fazem para se assegurarem dessa desejada, mas temida, certeza.
O egoísmo senta-se nesse cadeirão, de dois braços, abundantes e ausentes. De tudo querer, mas só para si, empanturrados em almofadas e conforto fingido.
Mas que merda é esta?
O amor é preparar o coração para a dor.
O amor é saber que teremos de ser, um dia, corajosos para dizer «amo-te» sem a certeza do eco da nossa voz.
O amor é um sorriso provocado na boca do outro.
O amor é apenas … simplicidade!



O medo de amar apodrece dias que poderiam contar as melhores histórias.


terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Riso de Deus (António Alçada Baptista)

Passamos a puta da vida a questionar, a questionar, a questionar.
A vida. O meu pé inchado. A minha dor de cabeça. Os meus amores frustrados. As minhas amantes. Os meus amantes. Um papel rasgado. Que não deveria estar rasgado. Um problema respiratório, provocado por problemas cardíacos. Por ti, apenas por ti. E questionamos mais, e mais.
Oh, valha-me Deus! E voltamos ao mesmo. Para quê chamar? Por quem chamar se nessas cabeças as dúvidas são tantas, impossíveis de criar um caminho, um fio condutor, capaz de nos levar, realmente, a essa procura, a esse lugar tão desejado?
Ele está lá. Ele coloca nas mãos as nossas questões e com elas brinca ao Monopoly. Iremos parar à prisão? Teremos de retroceder quantas casas?
Mas continuamos a perguntar: porquê? Porquê? Porquê?


O Riso de Deus. É óbvio que se ri!


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Sombra do Vento (Carlos Ruiz Záfon)

Acordei vestido de adolescente, e este vestido acorda emoções desconhecidas. Há um sonho na rua. Existem segredos com o rabo de fora.
Caminho até esse Cemitério dos Livros Esquecidos e lá, encontro-te. Estás lá, vestido como eu. À minha espera. À espera de uma história que encaixa na nossa.
Salta! Corre! Foge! Dança! Ama! E não olhes mais para trás...!
Escreve. Mergulha nessas letras. Desenha a carvão.
E não olhes mais para trás.
Não olhes.

JC

Ao som de: Katy Perry "Teenage Dream"




Sobre o livro: Numa manhã de 1945 um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: o Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona.
Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, "A Sombra do Vento" é sobretudo uma trágica história de amor cujo o eco se projecta através do tempo. Com uma grande força narrativa, o autor entrelaça tramas e enigmas ao modo de bonecas russas num inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, numa intriga que se mantém até à última página.

domingo, 6 de novembro de 2011

Todos os Nomes (José Saramago)


Estou a olhar para o relógio e a procurar, desenfreadamente, o teu nome. A rasgar-me por dentro, na procura diabólica, do teu nome.
Está aqui, afinal. Procuro, procuro e procuro mais um bocado, para chegar a uma triste conclusão. A uma conclusão idiota, como tu. E como eu.
O teu nome. O teu nome é feito de chuva. Passado. Cheiros antigos. Um abraço de horas. Risos. Saudade. Gavetas fechadas. O teu nome é saudade e dor.
O som do teu nome, hoje, é um estalo de luva branca nesta minha pálida pele.
Como pude procurar-te tanto e tu aqui, sempre?
O teu nome. O teu nome. O teu nome.
Gosto do som. E a impossibilidade que trouxeste com ele escondeu-me, também, numa concha que levou com ela a capacidade de me fazer ouvir. Culpar-te? Talvez. Culpar-me? Absolutamente.
 
Que livro.

O teu nome.

 

Ao som de: Peter Gabriel "No Way Out"

sábado, 5 de novembro de 2011

Bolor (Augusto Abelaira)

 
Dou comigo a acreditar, cada vez mais, que carregamos um bocadinho do Fernando Pessoa. Há um bocadinho dele, daquela tormenta, em cada um de nós.
Existe uma insatisfação constante nos passos dados. Uma instabilidade no coração, uma dor de cabeça provocada pelas palavras dele, dela ou do chefe numa manhã atribulada.
Há sempre qualquer coisa provocada.
Nesse emaranho de lãs, de tantas e escuras cores, procuramos avidamente outros nomes, outras pessoas, outros sapatos onde assentar uma alma perdida e desejosa de se encontrar, cansada de tudo e todos que já tem. Outra pessoa, que por não existir, possivelmente por estar longe, essa inacessibilidade, torna-a perfeita. E basta. Basta para dormir melhor sobre a almofada do amanhã prometido pelo despertador rotineiro.
Não paramos de sonhar quando esse despertador grita, e os olhos continuam fechados. Estranhamente fechados. Fechados numa procura irrealista dessa pessoa inacessível, baseados na crença de perfeição invisível, intocável. Porquê? E aquela pessoa à nossa frente? Ali, diariamente? E nós, reflectidos no espelho, diariamente?
Somos humanos. E somos preguiçosos, nessa eterna culpa atribuída ao outro.
Sonhar com aquilo que não temos é mais doce e confortável. Corremos como o hamster, infinitamente, aos círculos, numa procura de tudo e nada.
Sonhar com aquilo que temos e construí-lo, diariamente, esculpir, voltar a esculpir, olhar, voltar atrás, escutar, falar e abraçar isso que temos, aquilo que temos, aquele que temos. É agridoce. É cansativo. Mas é digno.
Sonhar por sonhar é quase uma ofensa. Os sonhos também gostam da perfeição.

Depende dos nossos sapatos. Não da inacessibilidade, e sim da autenticidade. Da nossa “Pessoa”.

Dedicado à tolerância, aos casais, ao casamento.



Ao som de: Adele “Someone Like You”

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Adeus, Tsugumi (Banana Yoshimoto)

As palavras são pesadas como as camisolas de Inverno, ou como os armários da sala. Também podem ser leves como penas ou folhas de papel. Depende de quê? No final de contas, o peso das palavras depende de quê?
Depende do som. Depende da forma como as evocamos com a boca e como esse som entra e sai, simultaneamente, de um coração que tem tanto de cansado como de esperançoso.
Morte. Fecho os olhos e vejo aquele armário da sala, pesado, a cair sobre mim. Palavra pesada, de som duro, seco, frio, que corta, gela, arrepia e me deixa sozinha.
Passamos os dias nesse medo gelado que uma palavra assim, tão desfocada, entre nas páginas de um livro da nossa casa, sem pedir. E congelamos mais um bocadinho, perdendo a perfeição necessária para evocar as palavras leves. São as leves. Só as leves é que podem combater as pesadas.
Sorriso. Sol. Céu. Passeio. Lágrima. Relva. Chuva. Salto. Amigo. Amor. Mãos. Beijo. Abraço. Querer. Gelado. Algodão. Mar. Nuvem. Areia. Casa. Livro. Criança. Bola. Flores. Filmes. Família. Chupa-chupa. Cabana. Lugar. Endereço. Café. Música. Lembrança. Paixão. Objectivo. Acreditar. Estrada. Praia. Pé. Saia. Calças. Rebuçados. Pescoço. Perfume. Infinito.
A morte é, sim, uma palavra pesada. Fecho os olhos e vejo aquele armário da sala. Mas existem tantas outras palavras leves que valem tudo. Valem tudo!
O segredo está na conjugação sábia da boca, em saber evocá-las, e a crença num coração de bom ouvido: que saiba distinguir aquilo que vale realmente ser dito e daí em frente, ser sentido e vivido sem medo. Essa sim, outra palavra pesada. Que sufoca. Que impede. Que não deixa viver...!





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

As Vinhas da Ira (John Steinbeck)

Corre ao meu lado por essa estrada fora, onde não há comida, onde os mortos se aglomeram entre si e entre nada. Corre ao meu lado entre tudo e nada, mas corre.
Corre. Corre. Corre. E não desesperes. Lá no fundo, não será bem ali, mas quem sabe se não é do outro lado da estrada? Continua. Eu vou contigo.
Mostra. Mostra a tua matéria, e corre.
Mostra que nem sempre tudo o que parece, é.
Mostra-lhe que podes conseguir mesmo quando todos te dizem o contrário.
Eu vou contigo.

Às pessoas com espírito.

Sobre o livro: Centra-se nos efeitos da Grande Depressão nas pequenas famílias de fazendeiros do Oeste Americano, que se vêem obrigadas a abandonar as suas terras devido à chegada do progresso e de um novo regime de propriedade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Principezinho (Antoine de Saint-Exupéry)




Falamos de amor à boca cheia. Cheia de rebuçados, açúcar a cair aos bocados pelos cantos, caramelo e chocolate, por vezes. São tantos os ingredientes, todos doces, mas tantos, e é exactamente nessa quantidade, na importância do quantificar que reside tudo. O importante é poder olhar para os dedos lambuzados e pegajosos do doce e contar, contar muito, o quanto temos, o quanto amor temos. Olha! Tanto caramelo, tanto açúcar e tanto chocolate por essa noite fora.
Vivemos no mundo de cubinhos e, infelizmente, não são cubinhos mágicos. São, só e apenas, cubinhos. Cubinhos grandes, aglomerados, quantificáveis, onde se vão colocando as medalhas dos feitos conseguidos pela força dos dias teimosos, que depois de espremidos, como fazemos com os limões, não conseguimos perceber bem o que acabámos de contar.
Acordamos já a correr, saltamos desse cubinho, não mágico, na procura de mais coisas para quantificar e asfixiar o relógio, roer as unhas e quantificar mais, até à hora de dormir. Conseguir uma promoção, sim, conseguir um elogio de alguém que não diz «bom dia», mas quantificar isso numa folha importante sim, e correr mais um bocadinho.
E a noite surge, num manto rápido, com propensão a uma grande e violenta má disposição, de quem não conseguiu quantificar o suficiente.
Quantificar. Determinar a quantidade de. Parece que nada é verdadeiramente suficiente e, por isso mesmo, continuamos a correr desesperadamente mesmo por baixo do manto negro a que o dia já se rendeu. O relógio será generoso, certamente!
Entramos na cozinha e existem cubinhos mágicos no armários, que ajudam a condimentar um jantar. Mas no outro cubinho, no nosso cubinho, esse aglomerado de cubinhos que criámos à nossa volta, onde vivemos tão escondidos e centrados, não há um verdadeiro cubinho mágico que faça soprar essa estranha necessidade de … quantificar.
Falamos de amor à boca cheia. Falamos de amor à boca cheia. Cheia de rebuçados, açúcar a cair aos bocados pelos cantos, caramelo e chocolate, por vezes. São tantos os ingredientes, todos doces, mas tantos, e é exactamente nessa quantidade, na importância do quantificar que reside tudo…
O Principezinho é da minha opinião, estou certa, quando digo que não podemos cativar ninguém pelo número de doces que temos nas mãos. Cativa antes por aquilo que és, e não por aquilo que pensas ter. Sim, apenas pensas. No mesmo momento que tens, podes, no seguinte, deixar de ter.
A tua essência nasce contigo e só precisas de preparar o teu coração e depois de cativares, seres responsável por esse amor que cresce à medida da força da tua respiração, da tua crença, da tua entrega.
Da simplicidade.

Dedicado a quem abraça árvores.


Ao som de: Imogen Heap «Hide and Seek»



terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Um Deus Desconhecido (John Steinbeck)

Perguntas. Argumentas e afirmas. Depois ris perante toda esta minha perplexidade.
A verdade é que, realmente, não consigo responder perante esse teu sorriso rasgado, seguro, que contagia os olhos tão igualmente seguros. Em mim.
Não fiques assim. Não sejas assim. Não tenhas essa segurança em mim. Oh tu! Oh tu que tanto amas abraçar as árvores ..., e eu como amo ver-te fazê-lo.
A minha perplexidade perante tudo, perante a dimensão do mundo, e de todas as coisas criadas são, para ti, pequenas partículas de açucar e chuva, para partilhares com quem amas.
És, assim, feito de chuva. E é assim, a simplicidade da vida.
Uma simplicidade que rasga tudo em sorrisos efémeros, mas fortes, e nesses abraços naquela árvore, onde te aprecio e onde tudo pára.
E nada. Nada mais importa.

Mas que raio andam ele aqui a fazer, afinal?
Eles não abraçam as árvores.
Eles não cheiram o jardim após os beijos da chuva.
Oh! Eles não entendem nada disto.

Vamos embora daqui.
Onde eu te entendo, onde tu me entendes.
Esse Deus desconhecido...