quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O Lado Selvagem (Jon Krakauer)

Fugir. Pernas e pés numa sintonia apaixonada. E como o pulsar de um coração aflito, percorrem caminhos desconhecidos na esperança de se reencontrarem. Reencontrar o quê? Não se sabe, mas acredito que essa incerteza não faz parte do percurso. Quereres encontrar-te onde mais ninguém te procura, não é? Como se os risos, sorrisos, comentários vindos de bocas conhecidas infestassem todo o ar e te impedissem, assim, o crescimento da alma...
Uma sintonia apaixonada que te leva para longe, e basta. Poderiam chamar-te egoísta, por ires assim, sem dizeres. Há um apelo, não é? Há o apelo do coração, que triste, te pede que vás. Vazio, pede-te que o preenchas, para lá do conforto das quatro paredes de um quarto adolescente.
Vai. Vai, vá...
Mas por favor, que não seja para me encontrares.
Um apelo do coração vem de ti, para ti. Nunca para mim.
Para ninguém.
Para ti, apenas.


Ao som de: ...



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Obrigada pelo lume (Mario Benedetti)

 
Passamos os dias, que são enormes quando somos pequeninos e minúsculos quando somos grandes, a encontrar um saco de boxe. Uma procura incessante de um saco de boxe que possa preencher a dor da culpa, do ressentimento, do arrependimento, da mágoa, da saudade do que fomos e jamais seremos.

Sempre um saco de boxe, que apesar de estúpido, tem um ar amigo. Confortável e querido. 
Há sempre um. Em cada um de nós, há um saco de boxe: alguém que sustenta as nossas culpas e se torna raiz forte da nossa fúria, do nosso impasse ... a razão para tudo. Tudo de mal.
Uma necessidade que dói. Necessidade  de arrancar os pulmões e respirar fora do corpo!
E tu, que colocas tudo isso numa caixa de Pandora, e eu abro porque te pertenço.
O que fazer quando o nosso saco de boxe partilha o sangue, essa corrente estranha que nos torna tão especiais entre um pequeno grupo, bem, o que fazer nessa situação?
Quero matar-te? Conseguirei eu matar-te? Não.
Por isso mesmo, mato-me a mim.

Para sempre o vencedor. E o saco de boxe lá ficará, a pender para um dos lados. Como tudo na vida.


Num dia de chuva. E hoje não gosto dela. Detesto-a.
Ao som de: How to save a life (The Fray)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Gaveta de Papéis (José Luís Peixoto) #2

Queres? (No ar, a interrogação vibra como uma onda invisível.)
Queres? (Pelo silêncio, não sei quem és, não sei a razão em mim que te deseja.)
Queres? (É quase de manhã e poderíamos esquecer tudo, fazer as malas, dormir finalmente).
Queres? (Uma porta talvez aberta para talvez um abismo ou um deus).
Quero. (Já não podemos fugir aos nossos olhos inimagináveis, inalcançável é o cansaço).
Quero. (A luz do quarto continua acesa sobre a luz da manhã, tornamo-nos artificiais.)
Quero. (Os nossos corpos, claro, sempre os nossos corpos, sempre apenas os nossos únicos corpos.)
Quero. (Tarde demais.)


 

 



sábado, 10 de dezembro de 2011

Gaveta de Papéis (José Luís Peixoto)


QUARTO


Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
 da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.


Ao acaso abri o livro, e salta este poema. Ironia? Talvez. Continuo sem saber. Desgraçados são os que continuam a brincar com castelos de areia, que se julgam o Narciso à beira da água, e que nesse processo ... se esquecem da adolescência no bolso. Ou se infiltram nela, numa mistura doentia, estranha, assustadora...
Feliz adolescência, que dás o sabor dos rebuçados de mentol às amizades. O calor dos abraços a essas amizades jamais quebradas. O fogo dos amores para sempre guardados, mesmo com bombeiros para os apagar.

Desgraçados aqueles que se esquecem da simplicidade da vida. Dos pequenos, grandes, gestos.
Desgraçados aqueles que se esquecem.
Desgraçados. Simplesmente.


Fartei-me.
 



Ao som de: I Don't Want To Be (Gavin DeGraw)