quinta-feira, 30 de junho de 2016

A Queda Dum Anjo (Camilo Castelo Branco)















  Conto mais do que devo, se não quer saber, pondere!
 
Que leitura prazerosa! Um mês de verdadeiro encantamento na companhia deste peculiar e inesquecível Calisto Elói. Camilo Castelo Branco concebeu um anjo impossível de esquecer e, o mais surpreendente de tudo, e que pude constatar nas inúmeras críticas e textos de apoio que fui lendo posteriormente, prende-se com a atualidade deste pequeno livro. Escrito em 1866, tudo o que nele consta, é prato certo dos nossos dias. Sem tirar, nem pôr.
 
Nesta sátira cheia de humor, Camilo Castelo Branco, na personagem de Calisto Elói, traz a lume a figura de um país cheio de manhas e maus costumes. Mas que se mantenham as posturas.
O título é pensado ao pormenor sendo ele mesmo o fio condutor de toda a história, vejamos: Calisto é um homem de costumes e que parece ter estagnado no tempo. Com uma moralidade a tender para excessos desmedidos, tem um apontar de dedo a tudo o que de mal vai na sociedade. Estudioso e muito dedicado às suas leituras, a sua vida transforma-se a partir do momento em que deixa a vida de Trás-os-Montes para viver em Lisboa, no momento em que é eleito Deputado, representando a sua terra.
 
A questão política vem evidenciar a moralidade exacerbada deste anjo, que critica todos os luxos de que Lisboa é feita, num exagero que roça o ridículo. É também nesses acesos debates que Calisto deixará de ocupar tanto do seu precioso tempo nas leituras para, contra a vontade, começar a travar conhecimentos com outras pessoas que se tornarão, igualmente, muito pertinentes nesta história.
 
Um deles será Bruno de Mascarenhas e D. Catarina, personagens fundamentais numa história que é feita, tão somente de duas facetas de um anjo que, afinal, se tornou no mais comum dos mortais.
 
Quando soube da relação adúltera daquela, Calisto não pensou duas vezes em arranjar forma de pôr termo a tal disparate, a tal imoralidade. No entanto, é precisamente neste ponto que o anjo, até então intocado, conhece o poder do amor. E com ele, tal como o vento, tudo leva, pela porta dianteira.
 
Camilo Castelo Branco nesta pequena sátira conseguiu, no conjunto de personagens irrepreensíveis, apontar o dedo a uma série de questões essenciais aos costumes de um país. É a casaca da política que se veste, e se vira, com uma facilidade tal, é o amor que de seguro nada tem e «quanto mais prima mais se lhe arrima», entre uma série de outros desarranjos pessoais e sociais de que só um anjo tentado, disfarçado afinal de homem, se digna a cumprir na perfeição.

 
 
 
Um dos melhores livros deste desafio literário!
Venha o próximo.
 
Boas leituras!

terça-feira, 28 de junho de 2016

Ritmo Cardíaco

 
O ritmo cardíaco fala-nos diariamente. Vai-nos dizendo a dimensão da nossa euforia e, em igual grau, a profundidade do nosso mau humor.
Os dias apressados não nos deixam ver nada, muitos diriam. Quanto mais prestar atenção ao ritmo cardíaco. Mais! As tecnologias avançadas têm, já, aplicações formidáveis que nos permitem contabilizar os passos, nas corridas e caminhadas, portanto, prestar atenção a quê, mesmo?
É que, perdoem-me a partilha um tanto desmiolada, mas hoje dei comigo a pensar nas maravilhas do ritmo cardíaco. São coisas.
Corram desenfreadamente. Depois, parem. Mas parem mesmo! E escutem.
Lá está ele.

Não deveria ser estupidamente espetacular?
Paneleirices, muitos diriam.
A merda.




Ao som de: "Heartbeats" de José Gonzalez

sexta-feira, 24 de junho de 2016

La Vie En Rose

 
 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Zoran Zivkovic | Diário de Notícias

 

 
Zoran Zivkovic é um dos poucos escritores sérvios com obra traduzida em Portugal. Esteve em Lisboa com "O Livro"
 
 
O escritor sérvio Zoran Zivkovic é uma presença "estranha" na Feira do Livro de Lisboa porque faz questão de conversar principalmente sobre livros numa iniciativa em que é dada à gastronomia - e à produção editorial relacionada com a culinária - um papel que rivaliza com a importância da literatura de modo a seduzir as famílias para irem até ao Parque Eduardo VII.
Aliás, o livro que veio ontem lançar, a sua sexta tradução em Portugal, chama-se mesmo O Livro. Que começa assim: "Não é fácil ser um livro." Desenvolvendo-se a partir desse parágrafo inicial por 168 páginas num registo que parece o do ensaio mas entronca com o do romance.
É a terceira vez que visita o nosso país, a primeira foi em 2005, onde o seu livro mais famoso, A Biblioteca, já vai na terceira edição. Obra que recentemente foi traduzida no restrito círculo de livros estrangeiros que a Arábia Saudita permite e que também faz parte da publicação da sua obra completa no, também difícil, mercado dos Estados Unidos.
Zivkovic é o escritor sérvio mais traduzido fora do seu país, um dos poucos que, à exceção do Nobel sérvio Ivo Andric, está à disposição dos leitores portugueses. Não evita comentar o afastamento entre a Sérvia e Portugal: "Estamos geograficamente muito separados e a Sérvia sofre com as fronteiras invisíveis que substituem as barreiras naturais existentes." Nada que impeça a presença nacional junto dos leitores sérvios: "A literatura portuguesa é muito popular na Sérvia. Saramago tem a obra toda traduzida e Pessoa também, mas é Afonso Cruz o destaque na literatura portuguesa contemporânea, com A Boneca de Kokoschka. É uma megaestrela lá."
A regularidade das deslocações a Portugal fá-lo confessar: "Cada vez que aqui venho, Lisboa está mais nova e eu mais velho." O seu discurso nada tem de negativo, antes expressa sempre uma opinião positiva e é de poucas lamentações. Mesmo que o protagonista em O Livro seja de um lamento constante.
Do que trata O Livro? É um livro em que o livro é o protagonista e ao mesmo tempo o único tema. Zivkovic põe-se na pele de um livro e contesta os maus-tratos dos leitores. Como escrever notas nas margens, dobrar o canto das páginas, sublinhar palavras e, o pior crime, não lhe dar a importância que merece: "Só há duas espécies inteligentes neste planeta, uma é a humanidade e a outra os livros. Este é um livro triste sobre a história dos livros desde que são impressos, contada de forma próxima da comédia."
Só que nem tudo é comédia em O Livro, em que o final [o livro foi publicado em 2003] faz uma previsão catastrófica para o livro tradicional face ao livro digital. Ainda pensa assim? "Acho que o livro digital não vai destruir o de papel, apesar de continuar a pairar uma ameaça muito perigosa sobre o livro. A maioria dos leitores não vão querer o novo suporte, até pela dificuldade em os ler. Nem conheço assim tanta gente mais nova que, tendo começado como fãs do livro digital, não tenham mudado para o papel. Os livros vão continuar a existir deste modo", diz. Não evita o remoque: "Há algo erótico quando se pega num livro à noite para ler e não é essa a sensação quando se leva a máquina para a cama."
Entre as confissões de O Livro está uma que pode ser polémica, a de defender o roubo de livros. Zoran Zivkovic esclarece: "Roubar um livro é mau para os editores, mas como eu não sou editor acho que se uma pessoa roubar um livro é um pecado muito maior não ler o livro do que o roubar. E eu sei que para um editor roubar um livro é como assaltar um banco!"
Na defesa que fez do livro, Zivkovic ressalta o facto de pertencerem a uma raça inteligente. E os escritores também o são? "Acho que os livros são muito mais inteligentes do que a humanidade. São a verdadeira essência do que há de melhor em nós e o reflexo perfeito da sabedoria."
Já que se fala do escritor, questiona-se como é o seu processo de escrita. Transcende-se enquanto escreve? "Com certeza, é isso que me acontece. Dou o melhor nos livros que escrevo." Ou seja, acredita na inspiração? "A mais complexa questão sobre literatura é como um livro aparece", alerta. Entre as hipóteses, aponta para o método habitual nos Estados Unidos: "Acham que se deve fazer antes de tudo um plano completo para o livro. Essa é uma forma estranha de conceber um livro, pois escrevo a partir do meu subconsciente. É aí que a história se vai formando através da massa crítica, surgindo no papel de um modo que desconheço." Pede-se que explique melhor: "Tenho só a perceção da primeira frase, a partir daí o livro vai-se desenvolvendo. Escrevo devagar, o que me faz ser ao mesmo tempo escritor e leitor. Tudo isto acontece desde o meu primeiro livro sem uma planificação antecipada, a única coisa que devo fazer é obrigar-me a sentar e a escrever porque a minha arte sai do subconsciente. Sinto-me um datilógrafo."
Antes de terminar, pede-se para explicar qual é o seu registo literário: "Na internet dizem que sou escritor de ficção científica. É falso, o meu estilo é definido em sérvio como fantástico - nos EUA, fantasia. É como o Hamlet, que é uma obra onde o fantástico está presente. Pode-se contrapor que é um drama político, mas quando aparece o fantasma do pai de Hamlet o que é isso? O fantástico existe, mas ainda não existe um nome que caracterize o registo em que escrevo."
 
 
Fonte, aqui

quarta-feira, 22 de junho de 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

O Meças (J. Rentes de Carvalho)





É com algum desalento que hoje vos falo da mais recente obra do monstro. Para mim Rentes de Carvalho é um monstro da literatura, isso é inegável, no entanto, «O Meças» não me conquistou como assumi que seria. São coisas.
 
A promessa de uma história cruel, violenta e fria fez-se certeza. Talvez pela dimensão de tanta nudez e crueldade, não fui capaz de me condoer com as amarguras de vida desse «Antolinho», independentemente de, até ao leitor menos empático, entender aqui e ali, os motivos de uma vida pautada pelas sombras de um passado com muitos amargos de boca.
 
É um livro negro, capaz de nos mostrar o quanto o passado nos magoa, nos transforma e nos condiciona. Para todo o sempre. Essa mágoa encabeça todo o percurso de vida dos personagens. Porque nem só do Meças este livro se constrói. São várias as personagens sofridas, que de um passado pouco alicerçado, caminham pelos dias inseguros, na incerteza do que virá e de sonhos tímidos que nem ousam pronunciar.
 
Ao longo da história conhecemos a infância de António, o Meças, que vivenciou os abusos continuados à sua irmã, por um tal Engenheiro que tudo parecia poder naquela terra pequena. E ele, também pequeno, cresceu com um ódio que se apoderou da sua própria vida. Com base nesse ódio, tomou curtas rédeas a uma vida que de feliz pouco tinha para ser. Limitou-se à resignação típica dos que nada esperam depois da vingança servida em prato frio.
 
Mas não se desanime o leitor, porque há muito mais neste pequeno livro para se descobrir. São muitas as pessoas que aninham histórias que, forçosamente, se cruzarão. E depois, acontece o imprevisível de uma história que continha muitos porquês mal explicados.
Apesar de não ter sido a leitura de Rentes de Carvalho que mais me fascinou, não posso deixar de a recomendar pela beleza da escrita tão caraterística deste autor. E depois, bem, depois temos o Meças que, independentemente das sombras, merece aquela luz de curiosidade de qualquer leitor.

Boas leituras.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Be faithful to yourself

 
 
Dean Winchester | Supernatural
 

sábado, 18 de junho de 2016

Há Caminho no correio!


Fui surpreendida pela Leya (Caminho) com o novo livro de Daniel Sampaio «O Tribunal é o Réu», focado nas questões em torno do divórcio, o conflito entre o casal, a mediação familiar e as questões legais em torno desta temática tão importante, cujo tribunal muitas vezes potencia o conflito entre o casal não se focando nos reais interesses das crianças.
Um muito obrigada ao Grupo por esta oferta, de um livro que aparenta ser obrigatório na estante de qualquer leitor.
 
 

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Strange & Beautiful

 I'll Put a Spell On You
 
Arrisco-me a apontá-la como uma das músicas mais bonitas de sempre.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Estante de Serviço #3


Arrogância
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Orgulho e Preconceito
Jane Austen
 
A arrogância é um dos maiores crimes da literatura. Sabemos isso porque, quando Mr. Darcy desdenha de Elizabeth Bennet no baile de Bingley - ao recusar dançar com ela, menosprezando a sua beleza como apenas «tolerável» e a ser desagradável em geral com os habitantes de Longbourn  - é imediatamente rejeitado por todos, até por Mrs Bennet, como o «homem mais orgulhoso e mais desagradável do mundo.» E isto apesar de ser muito mais bem-parecido do que o simpático Mr. Bingley, apesar de ter uma grande propriedade em Derbyshire e apesar de ser de longe o melhor partido num raio de vinte e cinco milhas - o que, como sabemos, significa muito para Mrs Bennet, com cinco filhas para casar.
Felizmente, a alegre Elizabeth Bennet, a heroína de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, sabe como pô-lo no seu lugar. Usa uma combinação de provocação («Estou perfeitamente convencida... de que Mr. Darcy não tem nenhum defeito», dito cara a cara) e rejeição franca e hiperbólica ("Desde que o conheci há um mês que senti que o senho seria o último homem no mundo com quem me poderiam persuadir a casar»), o que não só corrige os seus defeitos mais exibe a «vivacidade da sua mente» de tal modo que ele tona a apaixonar-se por ela, e desta vez como deve ser. Se está acometido de tamanha arrogância, aprenda com este romance como detetar uma provocação inteligente e uma honestidade corajosa - e acolhê-la de bom grado. Seria uma grande sorte transformar-se no homem ou mulher perfeito/a por alguém como Elizabeth.
 
 
 
Um livro que para muitos, tal como eu, dispensa apresentações. Um clássico incontornável da literatura que recomendo a toda a gente!
 
Boas leituras.
 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Há Penguin no correio!

Chegou cá a casa a última novidade da Penguin Random House (Nuvem de Tinta): «A Rapariga que sabia demais» de M.R. Carey. Muito se tem falado sobre este livro, que será adaptado ao cinema brevemente.
Curiosos? Eu estou.
 
Muito obrigada à Penguin Random House por mais esta boa surpresa.


 
 
 

terça-feira, 14 de junho de 2016

domingo, 12 de junho de 2016

Desnorte (Inês Pedrosa)

«Desnorte» é o mais recente livro - de contos - de Inês Pedrosa.
Conheci a autora com o fantástico livro «Fazes-me Falta», há uns bons anos atrás, emprestado pela Joana naquela altura, surtindo muitas discussões em torno dele. Um livro sobre a morte, a perda, numa escrita de ímpar beleza.
 
Neste livro de contos, Inês Pedrosa mantém um registo íntimo com as palavras, uma sensibilidade notória em todas elas e, por vezes, uma precisão de mão muito firme na arte de escrever sentimentos que ferem.
 
São histórias curtas mas que perduram na mensagem. São contos sem norte, sim, sobre pessoas que poderiam ser qualquer uma de nós, em qualquer momento da vida. Em «Mar Aberto» (o meu preferido) conhecemos o pescador que volta a estudar para que possa ler histórias à filha, entretanto roubada por uma mãe cruel. Encontramos homens com amores platónicos, cuja realidade que lhe sopra na cara, um dia e do nada, revela-lhe a preciosidade de quem tem ao lado, apagando um passado de dedicações, então, ingénuas e supérfluas. Há amigos e amigas, em amizades que de tão fortes não se entendem e, por isso, necessitam de ser postas à prova, ao mais alto nível. Há aviões que encerram gente muito conhecida, à beira de um desastre, até ao momento em que a magia prevalece.
 
Nestes contos o leitor encontrará melancolia, saudade, amor e desamor, persistência, dedicação, algum humor e, tudo isto, na simbiose perfeita de quem escreve com a sensibilidade na justa medida das coisas da vida.
 
Recomendo.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

About love


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Hardly Working



Sarah Andrsen

terça-feira, 7 de junho de 2016

Awkward silence

domingo, 5 de junho de 2016

As Primeiras Coisas (Bruno Vieira Amaral)

Este livro traz com ele o deslumbramento dos prémios. Bruno Vieira Amaral surgiu do nada, aparentemente, e com as suas primeiras coisas conquistou o arrebatamento geral que lhe garantiu Prémios como «Fernando Namora», «Prémio Pen Clube Narrativa», «Prémio Time Out - Livro do Ano», «Prémio Novos Literatura» e, mais recentemente, o cobiçado «Prémio José Saramago».
 
De coração despedaçado, Bruno, com o fim do seu casamento e desempregado, decide regressar ao Bairro onde nasceu, Bairro Amélia, na Margem Sul do Tejo. É no confronto com as suas próprias raízes que voltam os anseios do que foi a sua infância e adolescência, chocando de frente com as mesmas gerações e outras que, ao contrário dele, estagnaram num Bairro cujo tempo parece discorrer de forma diferente: anda devagar, monotonamente, revestido de uma esperança vã mas persistente nos sonhos emprestados pelos que saem dali.
Mas as respostas, para Bruno, permanecem num vazio questionável. Ele saiu do bairro e voltou mais perdido do que nunca. O fim do casamento inglório atormenta-o e magoa-o, obrigando-o a um virar-se para dentro diário, nas rotinas cansativas do dia-a-dia do bairro, entre o café, corridas pela floresta e as leituras na biblioteca. A tentativa voraz de esquecer-se de si mesmo.
Um dia, entre as corridas e as leituras, chocará no caso do desaparecimento de Vera, em 1993, relembrando a jovem miúda e o aparato daquela situação no Bairro. Assim, conhece Virgílio, o fotógrafo, que segundo o informam, será o único capaz de lhe satisfazer a curiosidade repentina, típica dos que procuram na vida alheia o buraco fundo das suas próprias tormentas. Criou-se, então, o subterfúgio ideal para fugir às próprias dores começando, na companhia de Virgílio, a descortinar as memórias antigas das gentes do bairro, as suas recordações incrustadas pelo tempo, mas vivas pela força de um passado que teima em não ir.
O Bairro Amélia tem identidade e só os de lá poderão entender, então, o que se vive, o que se tem, o que não se tem, e o que se deseja. Enquanto Bruno deambula pelas estradas de terra batida, pensa sobre o seu passado que, inquestionavelmente, é feito de pedaços de gente dali, que levou consigo e volta a agarrar, agora mesmo, numa fase derrotada e irónica da vida.
 
Quem decidir entrar neste bairro, conhecerá a D. Beatriz, os rissóis que cozinhava, e as saudades azedas do filho que, diariamente traz no peito. Há o Bêbado que à custa de tanto assim o chamarem, perdeu o nome. Beto, jovem moço, promessa perdida do futebol. A importância da Igreja e da fé que não se perde, onde quer que se esteja. As manhãs de Domingo e o ar que se mostra diferente. Assassinatos que fizeram história, agitando as gentes locais e acendendo as línguas dos mais atrevidos. Amores e desamores. Os projetos municipais. As crianças. Os desejos e sonhos perdidos. Um bairro que arde.
 
Bruno Vieira Amaral com «As Primeiras Coisas», num enredo original e de grande sensibilidade, proporciona ao leitor uma história de grande beleza sobre a capacidade de resiliência de um homem que, derrotado pelo amor e pela própria vida, retorna às raízes daquilo que foi. Lá, naquele lugar supostamente perdido, entre mortos e vivos, parece reencontrar a paz necessária que impera aos novos princípios.
 
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Ao som de: Ornatos Violeta "Chaga"
 
Foi como entrar
Foi como arder
Para ti nem foi viver
Foi mudar o mundo
Sem pensar em mim
Mas o tempo até passou
E és o que ele me ensinou
Uma chaga pra lembrar que há um fim
 

sábado, 4 de junho de 2016

Carry on My Wayward [Supernatural]


 Season 12 confirmada.
 
Faltam quatro meses.
 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ler(-te) em Português de Junho




O ano de 2016 voa e traz-nos, agora, o mês (ainda) pouco quente de Junho.
Com a recente leitura da vida de Eça de Queirós, nada melhor do que me acompanhar, agora, com a leitura de um dos seus maiores rivais: Camilo Castelo Branco e «A Queda dum Anjo».
Vamos lá então!
 
Mais informações sobre este meu desafio literário, aqui.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O Livro dos Prazeres Inúteis (Tom Hodgkinson & Dan Kieran)














Coincidência, ou não, este livro veio parar às minhas mãos no Dia da Criança.
A infância, num sentido figurado, assume-se como os primeiros anos de vida, o princípio de tudo, de todas as coisas, a iniciação às primeiras experiências de vida. E diz a Filosofia, pomposa como só ela sabe ser, que viver é experienciar.
O livro de Tom Hodgkinson e Dan Kieran é um belíssimo exercício para os adultos que se negam aos pequenos prazeres da vida e que são, na verdade, a estrutura que define tudo aquilo que nos deveria mover. Caminhamos apressados na pressa de chegar a algum lado, na certeza de que o futuro tem, forçosamente, as respostas certas aos anseios de um presente muito preenchido, mas como diz o autor, tão acertadamente: "(...) acreditar no futuro, é completamente irracional. O futuro ainda não aconteceu, portanto não passa de uma mera abstracção." (p.10).
Assim, eu definiria este pequeno livro como um belo exercício de promoção à deambulação e contemplação das coisas simples. Por coisas simples, e aparentemente inúteis, os autores falam em tomar banho, apanhar folhas das árvores, deambular pela cidade, com calma, estender a roupa e muitas outras pequenas coisas que dão a compostura certa à vida.
Sente que já não tem idade para se sentar num banco de jardim, a ler ou tão somente a conversar? Porque não? É adulto demais? Atreva-se.
Atiçar o lume é uma das minhas preferidas. Mas nenhuma outra ganha à capacidade de sonhar: "(...) Sonhar serve de ligação ao nosso inconsciente, a nós próprios. É algo que deve ser estimado. E, como Debbie Harry sabiamente nos lembra, é de graça. Não é extraordinário que uma actividade que ocupa tanto tempo nas nossas vidas seja tantas vezes relegada para as esferas das coisas não importantes? Os sonhos são a nossa base, estão no centro daquilo que somos." (p.75)
Sonhe mais. Vá a bibliotecas. Vá a lojas só para ver. Cante. Leia poesia. Conte histórias aos mais pequenos e invente as mais mirabolantes. Não se limite apenas ao que os livros decidem contar. Sinta o vento. Observe as sombras. Valorize os seus chinelos. Vá pescar. Usufrua das boas companhias. Construa castelos de cartas. Ande de bicicleta. Dance. Dobre papel. Experiencie. Deambule. Preste atenção.

Para os descrentes que farão aquele "hmmpf, tenho de ir trabalhar", também eu tenho de ir. Todos nós temos de ir. A ideia dos autores não passa por um cultura global do ócio. A ideia passa, antes, pela cultura da felicidade e essa sim, deve ser cultivada diariamente e integrada na nossa vida como a prática da respiração.

E já agora, sorria mais.
Um sorriso é aliado garantido de um bem-estar que se propaga.


Ao som de: Foo Fighters "All My Life"

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Estante de Serviço #2



Angústia Existencial
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Siddhartha
Hermann Hesse
 
Qualquer pessoa que já tenha estado na beira de um penhasco lhe dirá que, juntamente com o medo de cair, existe uma emoção igualmente forte e inteiramente contraditória: a pulsão de saltar. Saber que nada o impede de dar esse salto, o salto para a possibilidade - a perceção de que tem livre arbítrio total, o poder infinito de criar e de destruir - enche-o de horror e de receio. É esse horror, de acordo com Soren Kierkegaard, que está na origem da angústia existencial.
Se tiver a pouca sorte de ter sido atingido por este problema debilitante, está com uma necessidade urgente de uma atualização espiritual. Precisa de reduzir as possibilidades, renunciar ao mundo e juntar-se, pelo menos durante algum tempo, aos ascetas. Precisa de Siddhartha.

Siddhartha, o jovem filho de um brâmane fictício na Índia antiga, transmite alegria a toda a gente - menos a si mesmo. Vivendo uma existência aparentemente idílica, rodeado por uma família que o ama, parece estar destinado a coisas grandiosas. Mas, apesar das sua riqueza material e espiritual, o jovem Siddhartha sente que lhe falta qualquer coisa.
E assim, tal como era prática comum entre os jovens na Índia antiga, parte numa demanda espiritual. Primeiro, junta-se aos Samanas, um grupo de ascetas autoflageladores que negavam a carne e procuravam a iluminação através da renúncia. Totalmente flagelado, mas ainda insatisfeito, encontra Gautama, o Buda, que lhe ensina o caminho em oito partes que ilumina a via para o fim do sofrimento. Não satisfeito apenas com este conhecimento, e desejando atingir o seu objetivo através da sua própria compreensão, conhece Vasudeva, um barqueiro com uma luz interior surpreendente, que parece satisfeito com a sua vida simples. Mas também isto não consegue satisfazê-lo. Mesmo depois de viver uma vida sensual e feliz durante muitos anos com a linda Kamala, ainda falta qualquer coisa a Siddharta. Durante algum tempo considera a morte por afogamento. Mas então lembra-se do surpreendentemente feliz barqueiro Vasudeva e percebe que tem de estudar o rio.
Aí descobre ensinamentos que duram uma vida inteira - incluindo o verdadeiro ciclo da vida e da morte, e o que significa fazer parte de uma unidade intemporal. E desde esse dia ele irradia uma compreensão transcendente, autoconhecimento e iluminação. De todo o mundo vêm pessoas ter com ele em busca de sabedoria e de paz. Pessoas como o leitor.


Li Siddhartha era ainda uma adolescente. Um livro que me deslumbrou, não apenas pela fase de desenvolvimento em que me encontrava, mas sim pela obra magnífica que é. Considero reler um dias destes e recomendo amplamente a toda a gente.
Por aí, quem já leu?
Boas leituras. Terapêuticas.