Intenções

terça-feira, 7 de abril de 2015

Correu numa direção e o vento soprou noutra. Ele foi precisamente a correr para aquele lado do vento. Nublado. Indeciso e intranquilo. Correu num dia de sol e ele correu para debaixo da chuva porque pareciam cristais de um novembro que muito promete e nada cumpre. Abraçou-o sem querer num outubro indeciso e sem respostas. O vento levou-lhe a intenção e congelou-lhe o abraço num dezembro cheio de neve.
Intenções. Intenções.
As deles foram tudo menos congruentes.
Um calendário desajustado ao sabor de intenções incertas, medrosas, tão desajustadas nos seus tempos. Nos seus ritmos.
Intenções. Que as levem o vento de dezembro. Que as queimem o sol de agosto. Que o tempo a faça desaparecer para o bem dos corações tão enganadoramente bem intencionados.
 
Denise C. Rolo
Fevereiro 2015

Corre, Coelho (John Updike)

sábado, 4 de abril de 2015


Se têm nervos frágeis, aconselho a não tocarem nesta tetralogia de Updike. Se assim for, vão acabar por se enervar e haverá, num momento ou outro, uma vontade terceira de atirar o livro por uma ribanceira abaixo.
Por outro lado, quem se meter nela, não conseguirá sair sem descobrir como acabará a vida do Coelho.
Há muito tempo que ansiava ter estes quatro livros em casa.  Não estou arrependida, estou absurdamente rendida.
Já li livros, entre eles a recente leitura de Richard Yates, com personagens de uma enorme densidade e complexidade, mas o Coelho consegue, em si mesmo, reunir um conjunto tão obscuro da alma humana que é impossível não nos chocarmos e, simultaneamente, nos identificarmos com determinadas passagens. Sejamos honestos, somos todos um pouco fracos, e desistir é o primeiro som do grito da nossa aflição. Do grito sufocado que muitas vezes não pode subir pela garganta acima, tais são os afazeres de dias arquitetados ao pormenor. Já são muitas as escadas que se subiram. Desistir, e voltar ao ponto de partida, implica uma mudança de regras onde a personagem principal não seria a única implicada. E isto é tão simplesmente o significado do verbo viver.
 
Este é o primeiro volume da história de Harry Angstrom, mais conhecido por Coelho. Em tempos de escola, o popular jogador de basquetebol, agora vendedor de MagiPeel Kitchen Peeler, sente que o tempo resolveu não o continuar a brindar, dando-lhe pela frente tempos de dúvida e de constantes provações.
Casado com Janice, alcoólica, pai do pequeno Nelson, Coelho será novamente pai em breve, mas quer desistir. E foge. Assim. Num dia como outro qualquer.
 
Foge no carro, pela noite dentro. E nos dias que se seguem, surge uma nova vida conjunta com Ruth, e um novo amor cresce também. O coração de Coelho parece ser grande. Demais. Mas virado para dentro.
Um coração com olhos grandes e uma boca maior ainda, que suga de fora para dentro, passeando altivo pelas ruas certas de quem nada sabe.
 
"- Vou dizer-te uma coisa - diz-lhe Coelho. - Quando abandonei a Janice, descobri uma coisa interessante (...). - Se tiveres coragem para seres tu mesmo - diz ele -, outros pagarão tudo por ti." (p.149)
 
 
O Coelho corre na procura incessante de questões, sempre certo e envolto num egoísmo que lhe garante uma tonta legitimidade. Mas não corre sozinho.
Para trás, ficam as ruas paralelas com as vidas que foi deixando para trás, de quem correu para ele, por ele, com ele.
 
Que fará agora?
Continuará a correr, sem olhar para trás?
 
 
Boas leituras.
 
 
www.wook.pt: O trabalho mais conhecido de John Updike é a série Rabbit: Rabbit Run (Corre, Coelho), Rabbit Redux, Rabbit is Rich (Prémio Pulitzer), Rabbit at Rest (Prémio Pulitzer) e Rabbit Remebered. Corre, Coelho foi escrito em 1960 e é até hoje um dos livros mais emblemáticos e lidos de John Updike.
Harry "Coelho" Angstrom tem 26 anos e é uma antiga estrela do basquetebol. Casado com a sua namorada do liceu (alcoólica e grávida do segundo filho), vive nos subúrbios da Pennsylvania e é vendedor de acessórios de cozinha. "Coelho" começa a sentir que a sua vida não faz sentido e que só tem duas hipóteses: tentar fazer com que a sua vida seja melhor ou fugir. Decide fugir e abandona a família. Quando parte em direcção a Virgínia encontra o seu antigo treinador que o apresenta a Ruth, uma prostituta em part-time, e nessa mesma noite começam a viver juntos. "Coelho" só não sabe o que o futuro lhe reserva…
 

Para lá da simplicidade...

quinta-feira, 2 de abril de 2015


P: O que mais gosta de fazer na vida?
R: Ler!
P: A sério? E além de ler, o que mais gosta de fazer?
R: De ler.
P: Sim. Mas… certamente existirão outras coisas que o fascinam…
R: Ler.
P: Nada mais?!
R: O que gosto mais de fazer na vida é ler. É preciso escrever, ou não sabe ler?!!
 
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