Os Pobres (Raul Brandão)

terça-feira, 17 de julho de 2018


Leitura Kindle | Projeto Adamastor
 

Raul Germano Brandão nasceu no Porto em 1867. Foi militar (sem nunca ter gostado de o ser), jornalista e escritor. O autor é sobretudo conhecido pelo realismo que imprime nas suas descrições, uma linguagem direta e sem subterfúgios.
 
"Homens de gosto colecionam quadros ou estátuas. O meu amigo coleciona dor."

«Os Pobres», de Raul Brandão, é um daqueles livros equivalentes a um soco no estômago. Certeiro. Sem prever. Direto ao ponto.
Uma das obras mais relevantes deste escritor português, «Os Pobres», obriga-nos a entrar num mundo contornado pela miséria, pela falta, pela fome. Fala-nos da miséria na sua globalidade, material, física, psicológica e, sobretudo, espiritual.
 
É a história de Gebo, mas também de muitas outras pessoas espalhadas por ruas de verdadeira amargura. Gebo não tem trabalho. Tem mulher. Tem Sofia, a sua filha reservada, triste e calada.
A fome e a miséria abraçam-no diariamente, na expectativa de um dia diferente, de conseguir mendigar algum pão para as bocas cansadas que o esperam em casa.
 
Também Raul Brandão faz alusão à poesia, neste que é, sem margem de dúvidas, um hino cortante e profundo da pobreza. A poesia como uma janela, a permitir ver em profundida. Gabiru, o poeta, o filósofo, deambula também ele na procura de respostas à essência de ser homem, de ser gente, de se agarrar à dádiva da natureza, as árvores, o bom que Deus nos deu, e que prontamente renegamos.
 
Sobre esta personagem foi dito:
 
"O poeta dos Pobres não é um romancista. A alma do evocador fluidicamente se desagrega nas almas de sonho que ele evoca. Dir-se-iam espelhos, brancos, verdes ou azuis, planos, côncavos ou convexos, reflectindo todos eles um único semblante, que julgamos distinto, porque aparece deformado."

E numa frase, se descortina a centralidade de toda esta história:

"Viver é sofrer, e tudo vive, tudo sofre."

Raul Brandão, polémico, inquieto e insubmisso, o autor menos lembrado do que deveria, oferece-nos um panorama difícil, mas real, de um conjunto de gentes a representar tantos outros, por essa vida fora. A pobreza, seja ela de pão ou da alma, é narrada de um modo sublime, capaz de nos remexer as entranhas, obrigar-nos a repensar a vida que assumimos como garantida, um epicentro miserável em que todos nós podemos cair um dia. Seja essa fome do pão que falo, seja agora, e mais premente, as dores e pobrezas das almas desajustadas.

"O universo é o sonho dolorido de Deus."
 
Recomendo. Garantidamente.
 
Seja feliz,

A ler José Ovejero

segunda-feira, 16 de julho de 2018

"Nunca gostei de álbuns de fotografias: neles, as pessoas têm tendência a parecer mais felizes do que na realidade são, porque só fotografamos as festas, as celebrações, as ocasiões em que estamos com os amigos, as viagens, e até nos momentos em que não estamos de todo felizes, quando nos pomos diante de uma câmara, temos tendência a sorrir, a abraçar o corpo que temos a nosso lado com mais força ou emoção do que na verdade sentimos. Deviam tirar-se fotografias dos momentos tristes, dizer: «Espera, não te mexas» à mulher que chora por nossa culpa ou que nos insulta porque não lhe damos aquilo que acha que tem direito, auto-retratarmo-nos no momento em que estamos a mentir, ou a cerrar os maxilares para não dizermos o que pensamos, ou quando nos sai um gesto de desprezo no qual custaria imenso reconhecer-nos. Suponho que os álbuns ou as coleções de fotografias que guardamos no computador servem de compensação ao trabalho injusto da nossa memória, pois ela, pelo contrário, costuma guardar os momentos dolorosos, os traumas e as frustrações, aquilo em que falhámos, as situações em que não reagimos como era nosso desejo."

José Ovejero in "A Invenção do Amor"
 
 
 
Boa semana,

Ensaios de Amor (Alain de Botton)

sábado, 14 de julho de 2018

"Nada nas nossas vidas causa tanta ansiedade como ser feliz na vida amorosa."
 
Assim começa «Ensaios de Amor», de Alain de Botton: um livro que nos convida a conhecer toda a jornada de uma relação amorosa, desde o início ao (quase esperado) fim.  
O autor, de uma forma muito clara e convicta, reclama-nos uma reflexão cuidada sobre as particularidades das relações amorosas. Questões relacionadas com o merecimento de sermos amados, as dúvidas quanto ao facto de alguém ser capaz de tamanha proeza, o medo da rejeição, a tendência à acomodação, entre outros aspetos, todos eles, de uma enorme relevância.
 
Tudo começa numa viagem de avião, quando o nosso protagonista conhece Chloe. Imediatamente se sente invadido, impressionado pela sua beleza e postura. Irremediavelmente apaixonado.

"Apaixonamo-nos porque desejamos fugir de nós próprios com uma criatura tão ideal quanto somos corruptos."
Este homem começa a sentir, desde logo, o pavor da eventualidade de ser rejeitado. Porém, após uma simpática e cordial conversa, percebe que também Chloe lhe corresponde. Há a esperança de um afeto correspondido, que muita alegria lhe traz, porém, o tempo e a confirmação de um amor correspondido pode, igualmente, surtir um efeito de certo enfado:

"(...) [Montaigne] No amor não existe senão o desejo cego do que nos foge - ideia partilhada pela máxima de Anatole France: «Não é costume amar o que se tem.»
De um modo visivelmente irónico, Alain de Botton faz-nos sentir, sem dó nem piedade, ridículos nessa arte de amar. Ridículos por, aparentemente, desejarmos apenas o que não temos, renegar o que temos de bom porque, se é nosso, muito provavelmente não é bom o suficiente.
As inseguranças de amor, aqui tão bem retratadas, espelham a fragilidade a que muitos casais estão sujeitos, seja por medo, seja por receio, seja por falta de iniciativa. Há, no entanto, uma esperança sempre a pairar: o sentido de humor.

"(...) um ingrediente que (se existisse em abundância) provavelmente salvaria da intolerância tanto os Estados como os casais: o sentido de humor."
É através dos risos partilhados, das piadas privadas, dos comentários às particularidades mais infelizes dos amigos, a capacidade de rir perante os próprios defeitos, em confronto direto com a pessoa que nos aponta, que permite uma lufada de ar fresco entre ambos. Imagine uma espécie de sala de reuniões onde, através do rir de si mesmo, se chegam a decisões (quase) unanimes.

Eis o amor como uma procura constante de felicidade, de paz, de validação. É o perceber as coordenadas de um GPS pouco claro, apenas com a promessa de um destino derradeiro, feliz. Mas será mesmo assim? É a que felicidade, tal como o autor refere, por ser rara, amedronta e paralisa:

"Um dos maiores inconvenientes do amor é que nos faz, pelo menos durante algum tempo, correr o risco de sermos realmente felizes."
É um risco muito elevado, esse, de sermos felizes. Imagine, ser feliz, e depois? E se a felicidade acaba de um dia para o outro? Como sobreviver a essa possibilidade?
Vive-se, pois então, um amor repleto de ansiedade. Uma curva de Gauss que não para de oscilar entre a confirmação de um afeto partilhado, o enfado dessa mesma confirmação para, mais tarde, surgir o pânico de já não sermos apreciados aos olhos do outro.
 
"Alguma vez se pode aplicar a linguagem dos direitos ao amor, obrigar uma pessoa a amar por dever?" 
Eis a questão que mortifica. O outro, um dia, sem sabermos porquê, deixa de ver o que inicialmente o prendeu a nós. Há todo um luto urgente, uma série de acrobacias emocionais, a fatalidade do fim, a vida como nunca mais será.
Resta-nos a questão de como poderemos, então, sobreviver ao amor? O autor arrasta a cortina, subtilmente, para nos fazer crer que a solução reside num novo amor. Simples assim, aparentemente.

Alain de Botton, em «Ensaios de Amor», é sublime na forma como nos vende o nascimento e morte de uma relação amorosa. Imprime-nos a ilusão, a expectativa, a alegria, o encantamento, a desilusão e o derradeiro confronto de duas pessoas que se amaram mas que, fruto de um conjunto de inibições pessoais e sociais, não souberam dar-lhe a continuidade dos dias. São coisas.
 
 
Um livro que promete fazê-lo refletir na globalidade das relações amorosas, as suas particularidades e dificuldades. Em traços gerais, uma reflexão sobre esse que é, indubitavelmente, o maior desejo de todos nós: sermos verdadeiramente, e incondicionalmente, amados.
 
 
Para ler. Para reler. Para pensar.
Recomendo sem reservas.
 


Seja feliz,
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