Amor aplicado | Teórico-prática nº3.583.623

sexta-feira, 12 de julho de 2019


"(...) tendo chegado à conclusão, da maneira mais dura, de que a medida do amor não está no número de separações por que se passou, mas sim na certeza de que haverá sempre mais um reencontro."

In "Até ao fim do mundo" | Amy Bloom 
 
 
 
Seja feliz,

Serotonina (Michel Houellebecq)

quarta-feira, 3 de julho de 2019

 
Muito se fala sobre a escrita depressiva de Houellebecq. Transformou-se nessa marca, num ponto vincado que o define, sempre com histórias aparentemente cruas, mordazes e sombrias. Há, porém, uma base de onde tudo isto surge e pasme-se leitor, porque é no amor que Houellebecq se centra em (quase) tudo o que nos escreve. Talvez seja esse um dos grandes motivos, como ainda recentemente li, para estarmos perante um dos escritores mais humanistas de sempre.
 
Repare, Houellebecq é realmente assim, escreve incisivamente, é mordaz, é irónico, inconveniente muitas vezes mas é, em igual medida, sentimentalista (acredite) porque só alguém com o coração desarrumado poderá, alguma vez, aspirar a algo mais do que uma vida pacata, mesmo que falemos em aspirações preguiçosas. Ponto assente. 
 
Esta é a história de Florent-Claude Labrouste, com 46 anos de idade, capaz financeiramente fruto do seu trabalho como funcionário do Ministério da Agricultura. Não gosta do seu nome, não gosta de muitas coisas:
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"(...) Deus tinha disposto de mim mas eu não era, não era na verdade, nunca tinha sido nada sessão um cobarde inconsistente, e tinha já quarenta e seis anos e não fora capaz de gerir a minha própria vida, enfim, parecia deveras plausível que a segunda parte da minha existência acabasse por ser, à imagem da primeira, um frouxo e doloroso desabamento."

Entre muitas das coisas constava a namorada japonesa, cerca de vinte anos mais nova. Não gostava, cansou-se, independentemente do sexo até ser bom, havia todo um fastio em torno de uma mulher vazia, afinal. Um vazio que acabou por se tornar num abismo:
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"(...) o número de objectos necessários para manter o seu estatuto de mulher era absolutamente alucinante, as mulheres ignoram-no em geral, mas é uma coisa que desagrada aos homens, que os enoja mesmo, que acaba por lhes dar a sensação de terem adquirido um produto adulterado que só mantém graças a artifícios infinitos (...)."

Será numa viagem com destino a Espanha, na tentativa rogada de passar uns dias de férias com a namorada, que uma viragem parece acontecer na vida deste homem. Aquelas viragens internas que nos bofeteiam, sem prever, para um novo despertar. Serão duas jovens indefesas, quando lhe pedem ajuda com o carro, que o farão sentir-se atingido na idade já firme, no passar do tempo e no vácuo a que tem dedicado toda a sua vida.
 
Este é um claro exemplo do brilhantismo do autor: de uma cena aparentemente despercebida, está criado o vórtice de pensamentos bloqueados de Florent-Claude. Como tudo nesta vida, a importância casa sempre com o pormenor.
 
Em «Serotonina» vivemos o regresso do autor com um tema universal, contudo, redigido pela sua mão firme e pragmática, que nos aponta cruelmente todos os dedos de humilhação que, tantas vezes, nos atacam. Essa couraça de autoproteção, de um ego inflamado que não suporta críticas e, muito menos, suposições sobre uma vida que tomamos como nossa para, mais lá à frente, percebermos o quanto desejaríamos que não fosse só nossa, tão individual:
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"Seria eu capaz de ser feliz na solidão? Não acreditava nisso. Seria capaz de ser feliz no geral? É o tipo de perguntas que, creio, devem evitar fazer-se."

Terá sido Florent-Claude Labrouste, em toda a sua vida, este farrapo que deambula entre passado e presente? Não. Adianto-lhe que não e descobrir o motivo que lhe inflama esta desmotivação tão viva, é o que nos motiva a nós, leitores convictos, a procurar uma resposta. Não fossemos todos tão humanos em que a existência de uma resposta, preferencialmente baseada em factos científicos, de vinte mil trabalhos académicos, seja capaz de nos acalmar não só o ego inflamado, como a alma que se quer sempre pacificada.

Merda para isso. Merda para todas as possíveis respostas. Em Deus. Em nós. No mundo. Há momentos de uma vida, muitas vezes apenas horas, que nos transformam para sempre e mesmo tendo nós a resposta certa na ponta da língua, há todo um abismo que nos seduz em direção contrária. Quem encontrará, jamais, a resposta para os devaneios que nos tornam humanos? Ser-se humano é já a resposta em si mesma. Como viver com isso?
 
E é isto, leitor. É disto que nos fala Houellebecq, sem qualquer pudor e sem qualquer receio de esmagar feridas alheias: a culpa de sermos infelizes é nossa. Como o Padre apregoa nas homilias de Domingo: por minha culpa, minha tão grande culpa.
 
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"(...) não é o futuro, é o passado que nos mata, que volta para nos moer e nos minar, e que acaba finalmente por nos matar."
Como viver com o fardo da culpa, do peso dos dias, do passado que mata?
Tomemos um comprimido.

Para os destemidos e para os cagados desta vida, ler Houellebecq é uma obrigatoriedade. Para assustar uns, para empurrar outros, faça de «Serotonina» um manual de instruções sobre como não morrer enquanto a vida nos pulsa cá dentro.
 


 Com o apoio:
Seja feliz,

Gaveta de Filmes

segunda-feira, 1 de julho de 2019

 
Este é um daqueles exemplos em que temos tudo para um bom filme mas algo falha. Desde as interpretações, algumas pouco credíveis bem como à condução da própria história, «A Vigilante» é um filme que, ainda assim, merece ser visto pelo tema que encerra: a violência doméstica. É um daqueles casos que mesmo com algumas falhas, o conteúdo em si vale e obriga-nos a esse necessário despertar de consciências.



Seja feliz, uma boa semana!
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