Orlando e o Rinoceronte (Alexandra Lucas Coelho)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Alexandra Lucas Coelho, jornalista e conceituada escritora portuguesa, estreia-se agora numa coleção infantil, «As Aventuras de Orlando».
No primeiro volume, «Orlando e o Rinoceronte», crianças, jovens, adultos e séniores terão a oportunidade de revisitarem trechos da História do nosso Portugal. Tudo isto através de uma escrita solta, aventureira e sonhadora, de quem sabe ser criança em qualquer idade.
 
Orlando é um menino de oito anos que, do amor dos pais, herdou cabelo ruivo e carapinha. Essa junção nem sempre o anima, muito menos o amor de Sofia, a garantir-lhe que um dia se casará com ele.
 
Depois do divórcio dos pais, Orlando habituara-se a dividir o seu tempo em duas casas. Foi na casa da mãe que, um dia, enquanto o seu pai viajava, recebeu uma estranha carta daquele com um desenho de um estranho rinoceronte.
 
Através dessa enigmática carta, Orlando partirá numa aventura ao desconhecido, uma viagem no tempo, acompanhada pelo seu peculiar tio Tristão, a viver no Brasil.
 
O desenho do rinoceronte que tanto deslumbrou Orlando, é o cenário criado para a autora nos fazer regressar ao passado colonial do nosso país, embrenhando-se na história de D. Manuel I e o seu rinoceronte-indiano.
 
Rinoceronte de  Durer
Xilogravura inspirada no Rinoceronte-indiano chegado a Lisboa em 1515
 
Numa entrevista à SAPOMAG, sobre os intentos desta coleção, a autora refere a criação de uma série de livros que permitam lidar : "(...) "com a vida, com a família, com o passado, com questões de género, tanta coisa que pode ainda ser contada para crianças".
 
Através do fascínio que só as crianças sabem impor, Alexandra Lucas Coelho desafia-nos a revisitar o passado do país, apontando o seu lugar vitalício na memória de todos nós.
 
Gostei imenso e só posso recomendar.
O segundo livro da coleção está previsto para a primavera de 2018.
 
 
 
Com o apoio:
 
 

Boas leituras e sejam felizes,

Onde a vida se perde (Paulo Ferreira)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

«Onde a Vida se Perde» é o primeiro romance escrito por Paulo Ferreira.
A história vem contar-nos a vida de um homem, Pedro, a quem lhe ditaram apenas 6 meses de vida, na sequência de um tumor cerebral.
Aquilo que poderíamos considerar o início de uma história muito padronizada, acaba por nos dar a volta quando percebemos que Pedro, ao invés de correr e fazer tudo o que aquele prazo limitado lhe permitiria, decide antes reunir aquelas que sempre considerou como as quatro mulheres da sua vida: Mia, Carmen, Rita e Alice.
 
 
"Rita era a mulher instável e fútil; Carmen, a loucura e o regozijo do amor (substantivo que a magoava, mal de gramática); Alice, o sinal de que Pedro poderia tornar-se monogâmico (...).
Nesse tempo, Mia vivia numa espécie de limbo."
 
 
Cada uma destas mulheres tem uma história. A sua história individual e a história que se mistura, irrevogavelmente, com um homem estranho, sonhador, inseguro e atado às linhas menos previsíveis. É que Pedro parece ter amado todas elas, ao mesmo tempo, não amando nenhuma. Amando-se a si mesmo e a uma lamúria pertinente de que nada chega. De que nada lhe chega. De que tudo é demasiadamente passageiro, na vida, para se assentar na vida de alguém. Imiscuir-se. Envolver-se como as claras de um bolo, compactas e previstas na forma, sólida, de um bolo.
 
Ao longo do livro o leitor viverá aquela espécie de compaixão misturada com repúdio. É um homem com seis meses de vida, numa sala, com as quatro mulheres devotas aos amores mais tenros e maduros da sua vida. Se, por um lado, lhe deseja o melhor, por outro, fica o travo da incompreensão só capaz aos mais afoitos. Talvez. Até ao momento.
 
Chegará o momento, então, em que todas as inseguranças de um professor universitário, virado para o seu mundo de literatura, se dissolvem na certeza de um desejo comum, um lugar comum a todos nós: as ânsias de ser amado.
 
Percorremos, assim, a jornada de vida de um homem condenado pelo tempo, pelo corpo, pela vida. As decisões finais que encerram vontades de um princípio, atribulado, mas com um destino: encontrar em cada mulher que amou, o amor necessário para se saber ido, mas chegado de pedra e cal a um futuro sólido.
 
Há quem diga, e bem, que na memória jamais morremos.
Para Pedro será, sem dúvida, o seu último desejo.
 
 
Boas leituras.

Quem quer um livro?

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Em parceria com a Alfaguara, estamos a oferecer um exemplar de «As Nossas Almas na Noite» de Kent Haruf.
Todas as condições estão no post, logo ali ao lado, no Facebook do Blogue.
 
Boa sorte!
 


Instrumental (James Rhodes)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

James Rhodes tem 38 anos e o livro com o título «Instrumental» é a sua biografia.
Poderá, o leitor, questionar-se sobre os motivos de um homem tão jovem decidir-se a escrever a sua própria história. E eis que chegamos ao ponto que me permite explicar-lhe: James Rhodes foi vítima de abuso sexual aos 6 anos, perpetrado pelo seu professor de educação física, durante mais de cinco anos.
 
"(...) a música, literalmente, salvou-me a vida (...)"
 
Mais do que um relato comovente, limpo e cru da sua vida, o autor oferece-nos a redenção através do poder da música. Foi com Bach que a oportunidade à música clássica se lhe surgiu diante dos olhos, ainda menino, numa espécie de antídoto ao mais cruel cenário de quem rouba, por quem dá cá aquela palha, a inocência de uma criança.
 
"Não se trata de abuso quando um homem de quarenta anos enfia à força a sua piça no cu de um menino de seis anos. Isso nem se aproxima de abuso. É uma violação agressiva. Isso redunda em múltiplas cirurgias, deixa cicatrizes (interiores e exteriores), tiques, perturbação obsessivo-compulsiva, depressão, tendências suicidas, automutilação grave, alcoolismo, vício de drogas, as maiores perturbações sexuais que se possam imaginar, confusão de género (...), confusão quanto à sexualidade, paranoia, desconfiança, mentira compulsiva, perturbações alimentares, perturbação de stress pós-traumático, transtorno de personalidade múltipla e assim sucessivamente."
 
Implacável, o autor discorre sobre aquilo que é o abuso mas, sobretudo, as consequências a todos os níveis da vida de uma pessoa.
 
O receio de comiseração ou os olhares de terceiros, muitas vezes traiçoeiros, fizeram-no ponderar escrever. No entanto, pesa a consciência de um certo dever em partilhar as suas amarguras, na tentativa de incitar novos comportamentos, um agitar de consciências que se traduza no olhar devido, atento e preventivo de situações do género.
 
James Rhodes escreve com um coração assolapado e abre-se perante o leitor nessa partilha dolorosa e muito íntima, sobre uma vida de provação e superação.
 
Ao longo da leitura, o leitor conhecerá James Rhodes enquanto criança, adolescente e, por fim, homem (des)feito. Todas as fases atribuladas da sua vida, todos os momentos, foram pautados pela música clássica.
Se esta é uma biografia de um homem vítima de abuso sexual, é também uma partilha de superação perante as adversidades mais cruéis, comprovando que se no coração ainda resta espaço para uma paixão, a vida ganha segundas e terceiras oportunidades.
 
São as paixões que nos movem. E as pessoas.
A música clássica ofereceu-lhe perspetivas diferentes das respostas que sempre ambicionou. As pessoas, traduzidas no seu filho e na mulher que viria a amar incondicionalmente, mostraram-lhe a capacidade do ponto final. E o parágrafo do que virá depois.
Que seja a esperança.
 
Recomendo sem reservas.
 
Esta leitura contou com o apoio:
 
 
 
 
 
Boas leituras, muitos livros.

Onde?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Onde tinhas a cabeça?
(...)
No coração.
 
 
Tão bonito.
Uma jovem de 17 anos.

O Romance Gótico (Virginia Woolf)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Centrando-se no trabalho de Edith Birkhead, pioneira na arte do romance gótico, Virginia Woolf, no seu modo acutilante que já não nos estranha, mostra alguns dos seus  pontos de vista sobre as particularidades do género literário em questão.
 
A autora promove uma reflexão sobre o romance gótico e, sobretudo, o ponto alto que lhe permite ser apreciado. Na opinião de Virginia, nada há de novo ou interessante desde os seus primórdios, em 1764 com a conhecida obra «Castle of Ortranto» de Horace Walpole, considerado o primeiro romance gótico alguma vez escrito.
 
De forma sucinta, para Virginia Woolf, descrever um cadáver, uma assombração talvez, o vampiro ou outros, não escapa a uma espécie de neblina forçada, de quem sabe e não quer ver ou de quem quer ver, mesmo sabendo. Há uma ideia generalizada, neste ensaio, de uma presunção à partida, bem como a dificuldade e mestria necessárias, na escrita de um romance gótico. Quase morto às nascença.
 
Produzir o efeito de terror no leitor parece-lhe quase infundado, baseando-se numa crença que lhe justifica o que diz:
 
"São os nossos fantasmas interiores que nos fazem estremecer, e não os cadáveres de barões em decomposição ou as actividades subterrâneas de vampiros."
 
Serão os nossos fantasmas interiores os responsáveis pela tendência de procurar emoções fortes sem o perigo iminente, num pressuposto cobarde de não conseguirmos olhar para dentro?
 
Um ensaio de uma mulher que, como sempre, nos transcende, nos obriga a refletir para lá do óbvio, do aparentemente normal. Como só Virginia nos faz crer, na vida há sempre essa ponta solta a relembrar os fantasmas que nos assistem, e que nos ultrapassam, face às tentativas diárias de lhes escapar.
 
 
Um livro essencial.
Boas leituras,

Filhos e Amantes (DH Lawrence)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Considerado uma das obras-primas da literatura do século XX, «Filhos e Amantes» de DH Lawrence foi, inicialmente, recebido numa onda de polémica. Algumas passagens, inclusivamente, foram cortadas pelo editor. Na altura, o autor acabou por aceitar, referindo: "(...) quero lá saber se [o editor] vai cortar uma centena de páginas duvidosas de «Filhos e Amantes». O livro tem de se vender, preciso do dinheiro para viver."
 
Tudo começa com a união de um casal.
Quando Mr Morel decide casar-se, fá-lo com paixão. E a mulher também. Uma história simples de amor que pareceu surgir do nada mas que na mesma proporção, parece extinguir-se na força dos dias. Pesados. Rotineiros. Disformes e desorganizados, em que o nascimento do primeiro filho ditará, para sempre, a separação iminente com laivos de uma raiva nunca exteriorizada.
 
«Filhos e Amantes» é a história de um amor materno doentio. Uma mãe que deixou de viver para si para se entregar, sem arnês, ao amor recebido e quase reclamado, dos seus filhos. É Paul quem melhor a conhece, a estima e preserva. Dos quatro filhos nascidos, será a simbiose desta mãe e do filho mais novo, a força constante de uma história por vezes delicada, por vezes angustiante.
 
Que a família nos pesa na alma, não é novo. Que a família nos incendeia os prenúncios daquilo que viremos a ser um dia, também não é novo. Mas mesmo as coisas que não nos são novas, não deixam de nos fazer refletir.
 
A forma como DH Lawrence expõe os demónios de um jovem que anseia voar por si interdito pela sombra de uma mãe que nada parece pedir, angustia e reclama reflexões cuidadas sobre o papel da família, dos elos aparentemente inocentes.
 
Um cliché, talvez. Porém, uma necessidade reconhecida.
Paul viu-se impedido de amar Miriam, jovem doce e inocente, ainda assim com garras capazes de o transformar naquilo que jamais ambicionara. Viu-se igualmente impedido de uma entrega verdadeira a Clara, mulher com o coração desarrumado, ainda assim, capaz de o amar.
 
Viu-se impedido de si mesmo.
De início ao fim, Paul é a personificação do medo de ir, para ficar, sem ficar. A amálgama de complexos imprimidos ao longo do tempo para nos mostrar, quase sem dó nem piedade, a fragilidade com que somos feitos. Uns bebés grandes a desejar, ainda assim, o quente de um colo expirado há muito.
 
Angústia maior, em prol de um amor que oprime, dificilmente se encontra.
 
 
Gostei muito. E recomendo.
Boas leituras,

Histórias de adormecer para raparigas rebeldes (Elena Favilli)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O livro «Histórias de adormecer para raparigas rebeldes», de Elena Favilli, presenteia-nos com a vida de 100 mulheres extraordinárias que souberam fazer a diferença, e cuja presença se mantém firme até aos dias de hoje.
 
Numa edição lindíssima e repleta de ilustrações distintas, o leitor terá a oportunidade de conhecer a vida de muitas mulheres que, firmes nas suas convicções, não desistiram de sonhar e dar forma às suas crenças.
 
Atualmente, que tanto se fala sobre a diferenciação de género, convido-o a ler este livro sem esse tipo de reserva. Este é um livro sobre mulheres mas, sublinhando a negrito, não apenas para elas. A autora consegue, com a obra, provar que sob a perspetiva de um olhar atento e consciente, homens e mulheres podem apreciar as conquistas de cada um, sem que o pipi ou a pilinha determinem o grau de importância das mesmas.
 
São mulheres, são pessoas como qualquer outras.
A grande diferença reside, precisamente, na capacidade de sonhar e levar adiante aquilo que carregam no espírito. É essa força de espírito que caracteriza a maioria das mulheres aqui presentes: pintoras, bailarinas, investigadoras, escritoras, modelos, entre tantas outras, mostram-nos, pela sua jornada de vida, que independentemente das adversidades, o caminho é feito sempre em frente.
 
Um livro que terá presença assídua por aqui.
 
 
Recomendo.
Sonhe muito,

Intrigas

domingo, 1 de outubro de 2017




Porquê rio Douro se ele
não é feito de ouro?

O Principezinho mais velho e as suas questões sempre pertinentes.
(Risos)
 
 
 
Bom Domingo,

A ler "A Prisioneira"

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

"Assim, quando um amor nasceu de uma hora angustiada relativa a uma pessoa, da incerteza sobre se poderemos retê-la ou se nos escapará, esse amor traz a marca dessa revolução que o criou e bem pouco tem a ver com o que até então tínhamos visto quando pensávamos nessa mesma pessoa."

 
Marcel Proust
A Prisioneira | Em Busca do Tempo Perdido (Volume 5)
 
 
Penso que ninguém escreveu tão bem o amor como Proust.


Nada (Janne Teller)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O livro da dinamarquesa Janne Teller, recentemente publicado no nosso país pela Bertrand Editora é, numa palavra, desconcertante. Quer queira, quer não, é um livro que obriga a uma profunda reflexão sobre o significado da vida, sobre os propósitos, as jornadas de cada um, os objetivos e sonhos.
Estaremos, de facto, reduzidos a nada?
Quando Pierre Anton  decide que a vida nada mais é do que um nada, isenta de qualquer significado, decide deixar de ir à escola para subir a uma ameixeira a contemplar o nada.
Os colegas da sua turma de 7ºano, intrigados, questionam a atitude do Pierre, que os atormenta lá do cimo da ameixeira com argumentos que se colam nas indecisões de cada um:
"- Se vocês viverem até aos oitenta anos, terão passado trinta anos a dormir, nove anos a assistir às aulas na escola e a fazer trabalhos de casa, e catorze anos a trabalhar. Como já todos passaram seis anos a ser crianças e a brincar, e vão passar pelo menos doze a limpar, a cozinhar e a cuidar dos vossos filhos, só vos restam no máximo nove anos para viverem (...)."
Perante as deambulações de Pierre, os amigos começam a sentir uma necessidade inexplicável de o confrontar, de o contradizer, de encontrar afinal o significado que a vida tem. Tem de haver alguma coisa, forçosamente, a fazer sentido.
É nessa premissa que o grupo de colegas decide, em conjunto, reunir o máximo de coisas pessoais e que muito lhes diga. Coisas essas que devem gritar significado em cada um deles.
 
A pilha de significado, criada e nascida numa serração, é apenas o prelúdio de uma catástrofe iminente. A pressão gerada em cada um deles, a intimidade de verbalizar a importância de uma ou outra coisa, bem como os limites que quebram nessa busca teimosa, torna-se o grande propósito de Teller, na ambição de nos mostrar a quente a frieza de cada um. A pilha aumenta não só em tamanho como na perigosidade que, aparentemente, o significado das coisas tem de ter.
 
Eu repito-me quando digo que este livro é desconcertante. Induz no leitor a urgência de olhar para dentro, de questionar valores, vontades e atitudes. Estaremos, de facto, reduzidos a nada  e, à custa disso mesmo, vivermos iludidos na esperança desenfreada de o contradizer?
 
Através de um grupo de púberes, Janne Teller, cujo livro chegou a ser proibido na Dinamarca, escreve incisivamente, sem dó nem piedade, numa confiança invejável sobre as fraquezas do ser humano, a podridão escondida na sombra de fazer prevalecer vontades próprias.
 
E você, até onde vai para provar ao mundo aquilo em que (supostamente) acredita?
"Pierre Anton tinha ganhado.
Mas em seguida cometeu um erro.
Virou-nos as costas."
Com um fim ainda mais aterrador e inesquecível, e comparado ao brilhante «O Deus das Moscas», Janne Teller figura, agora, como uma autora que irei, com toda a certeza, seguir de perto.
Um credo de tão bom.  
 
Uma das maiores surpresas literárias do ano, recomendo sem reservas.
Partilho um vídeo em que a autora fala um pouco sobre os pontos principais da obra:


 
Boas leituras,

Palavra mal colocada #11

terça-feira, 26 de setembro de 2017





Há expressões que me despertam coisas más.
(Risos)




Economia emocional

segunda-feira, 25 de setembro de 2017


"Um pouco de desprezo economiza bastante ódio."
Jules Renard
 
 
 
Boa semana,

O Jardim das Borboletas (Dot Hutchison)

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

«O Jardim das Borboletas» de Dot Hutchison irá, certamente, provocar-lhe uma revolta nas entranhas. O leitor viverá numa eterna curva de Gauss cujas probabilidades de consternação, irritação, impotência e uma náusea sem fim, serão altamente garantidas.
 
Não estamos a falar de um livro que não supere expectativas. Não é bem essa a questão. Estamos, antes, a falar de um livro que pela temática em si, choca e oprime.
A história começa com um relato policial sobre a existência de um misterioso jardim com direito a borboletas e um empenhado Jardineiro. Esqueça agora os filmes da Disney porque: 1) as borboletas são raparigas e 2) o Jardineiro guarda-as em cativeiro para abusos de toda a espécie. 
 
Independentemente da escrita pouca madura de Dot Hutchison, esta é uma história que o prenderá pela curiosidade. São muitas as pontas soltas capazes de o fazer refletir: a personalidade do Jardineiro, dos seus filhos e, sobretudo, das meninas que representam as borboletas.
 
Ao mais astuto não faltarão as questões perante algumas atitudes e condutas por parte das raparigas, mais especificamente, a personagem principal, Inara.
Com é possível, perguntariam, uma jovem violada constantemente, entregar-se de ânimo leve ao filho do Jardineiro? Em que o sexo com ele chega a ser "(...) divertido."?
 
É possível sim. A Psicologia poderá explicar isto com base em duas Síndromes similares: A Síndrome de Estocolmo (simpatia gerada na vítima pelo abusador) e a Síndrome de Lima (inversamente, o abusador desenvolve sentimentos de afeto pela vítima). O ponto alto deste livro, pessoalmente, é que é possível interpretar e localizar as duas síndromes na história.
Há, no entanto, um objetivo particular na Síndrome de Estocolmo: a adaptação psicológica para a sobrevivência. É neste ponto que a complexidade humana só se vem a comprovar através das aparentes distorções de conduta numa situação de extrema pressão psicológica.
 
«O Jardim das Borboletas» é esse retrato fiel de um cenário macabro e as tentativas inconscientes e (aparentemente) distorcidas de um grupo de jovens a quem o destino lhe reservou a pior história.
Mais do que a história em si, recomendo o livro de Dot Hutchison sobretudo pelo alarme à complexidade do ser humano que não pode, nem deve, ser desconsiderada.
 
 
Esta leitura contou com o apoio:
 
 
 
Boas leituras,
 

[Ainda sobre a] Humidade

quinta-feira, 21 de setembro de 2017


O conto que dá título ao livro do brasileiro Reinaldo Moraes continua a dar-me que pensar. Esse em particular. Um Liminha que se apaixona perdidamente por uma Mariana. Porque ela é linda de mais. É encanto. É samba em dias de Inverno. É luz que lhe escurece as entranhas. É a esperança da carne. É um tudo e um nada. Um olhar distraído que lhe compra a atenção toda.

Este conto pergunta-me qual será então a verdadeira motivação de um amor que já nasceu - aparentemente - mas sem se materializar em si mesmo. Como pode? Afinal que gatilho ativa esse estado que todos invejam, que todos temem, que todos querem como animais desemparelhados?

Qual será a verdadeira essência? São os olhos? São as ancas? São as promessas de um fogo que desperta lá por baixo, sobe e inflama tudo o resto? O que é Liminha? Que tinha a Mariana para dar cabo de ti até ao fim?
 
Muito bom.
Para ler. Para reler. Para divagar.
 


A (Dis)funcionalidade do Amor

domingo, 17 de setembro de 2017


Amar é sofrer. Para evitares sofrer, não deves amar. Mas, dessa forma vais sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer torna-nos infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade - espero que estejas a perceber.
 
Woody Allen



As nossas almas na noite (Kent Haruf)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Tudo começa quando Addie, de setenta anos e viúva, se cansa de passar as noites sozinha.
As noites custam a passar e o vizinho Louis, também ele sozinho, parece ser a companhia certa. Num compromisso vago, numa espécie de logo se vê,  aceita a sua proposta: "(...) passar a noite. E conversar."
 
Das noites surge uma ligação muito especial. A partilha de uma cama de conversas durante a noite ditará uma proximidade de quem aos poucos se liga pelas parecenças da solidão. Essa ligação é amizade que cresce, amor que solidifica e saudade que transforma.
 
Com o passar das semanas, as noites parecem já não bastar. Então, sem medos, assumem essa amizade capaz de vencer mexericos e atritos de vizinhos, também eles, ansiosos e expectantes de sorte parecida.

O livro de Kent Haruf é uma lufada de esperança e a certeza de que o amor é descarado, num sentido de humor muito próprio e cujos caminhos serão sempre como Deus: misteriosos.

Mais do que uma história de amor, este livro obriga-nos a refletir sobre as fragilidades da terceira idade, a perda e o luto, as condutas politicamente corretas, seja lá o que isso signifique, e o poder da família em estreita batalha com as vontades próprias.

Estará uma pessoa mais velha condenada às convenções dos mais novos? Estará a pessoa mais velha incapaz de amar e viver como quiser porque a vergonha perante os outros tem de imperar?
Acredite quando lhe digo que Kent Haruf o obrigará a refletir profundamente sobre estas questões, sobre o poder do amor, da solidão e das segundas oportunidades para quem não sabe, nem quer, desistir de viver.


Recomendo com ambas as mãos e mais houvessem.
Boas leituras.


 
Um leitura:

A Estrada Subterrânea (Colson Whitehead)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017


 
«A Estrada Subterrânea» de Colson Whitehead, vencedor do Prémio Pulitzer 2017 e o National Book Award 2016, ambos para ficção, conta-nos a  história de vida dos antigos escravos numa plantação  de algodão no estado sulista da Georgia, centrada na jornada de uma jovem mulher, Cora.
"Cora é uma jovem escrava numa plantação de algodão. Parece-lhe impossível fugir ao seu destino sombrio. Até que ouve falar da estrada subterrânea."
Cora, cujo pai morreu ainda antes dela nascer e cuja mãe a abandonou, também ela para fugir, é solitária, peculiar e determinada. Nunca lhe parecera possível escapar do destino cruel em que vivia, no entanto, a chegada de Caesar à plantação, muda-lhe o rumo. A estrada subterrânea surge como a possibilidade de uma fuga tantas vezes idealizada.
 
A título de curiosidade, não há, na verdade da História, uma estrada subterrânea propriamente dita. O que naquele tempo se emergia perante a vida pautada de crueldade para com os escravos, era uma rede de apoio através de vários abolicionistas que, contra todo o sistema, facilitavam os meios possíveis para a fuga dos escravos que decidiam fugir, arriscando eles próprios a sua vida. Entre negros e brancos.
 
O autor refere-se a esses caminhos de uma forma sublime e quase fantástica. Há uma salvação em cada estrada subterrânea, uma esperança que se estende até à próxima paragem, incutindo-lhe características tão específicas que, até ao leitor mais desatento, não as esquecerá. Tornam-se reais pela força, provável, de se quererem verdadeiras.
 
É nesse misto entre a ficção e a crua realidade da escravidão, que Whitehead nos aflige, nos inquieta e nos obriga a refletir sobre um período na história do qual, de alguma maneira, todos nós fazemos parte.
 
Cora representa uma época: o martírio de quem suporta uma vida pautada por abusos, uma desumanidade que nos dói crer e depois, o sonho e a esperança. O amor também.
 
"(...) é algo em que qualquer escravo está sempre a pensar: de manhã, à tarde e à noite. A sonhar. Todos os sonhos são de fuga, mesmo que não pareçam."
 
Numa escrita que apavora, com a mestria de nos transferir, de rajada, para um outro tempo, assusta e prende. Afinal, poderá Cora ser verdadeiramente livre depois de tamanhas provações?
Um livro que reúne um pouco de cada coisa em si mesmo: é um romance, é uma fantasia e é, acima de tudo, uma viagem. Uma viagem de quem foge para se tentar encontrar lá mais à frente.
Cora é, indubitavelmente, uma personagem da literatura que ficará para sempre.
Leia. Conheça. Depois diga-me de sua justiça.

Que livro lindo.
 
 
 
Com o estimado apoio:

Oh! Love, love!

terça-feira, 5 de setembro de 2017

 
Já tinha saudades da Sarah.

Enredados

domingo, 3 de setembro de 2017



Não conseguimos alcançar uma rede como a deles.
Em nós a vida acontece num corrupio agitado, feliz, de quem conta as horas ausentes.
Tens o cheiro dos Domingos, seja Segunda, seja Terça.
Não conseguimos alcançar uma rede como a deles.
Eles que mostram segmentos rotineiros de vidas, aparentemente felizes. Há um tempo para tudo lá, desde a cozinha tradicional ao novo corte de cabelo. Há também espaço para ovações de uma vida espiritual rica, consistente, de mão dada com o coração sempre sintonizado. Na rede. Sintonizado na rede.
Onde é que eu ia? Nós: as horas passam e o entusiasmo cresce na medida da ausência que morre, cada vez mais próxima de ti. Para te tornar a ver, com olhos de ver. É o chegar a casa, a reclamação do sofá, da almofada, do gato que nos mia. Também ele te reclama.
Os livros caem no chão.
Sem arnês. Sem redes.
Como nós.

Eu e Tu (Niccolò Ammaniti)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Niccolò Ammaniti é um conceituado escritor italiano, cujas obras têm tido um forte impacto não apenas no seu país como um pouco por toda a parte. São quarenta e quatro os países cujas suas obras se encontram publicadas.
 
«Eu e Tu» conta-nos a história de Lorenzo, um tímido rapaz que sentia não gostar nem precisar das pessoas. Ele não precisava de mais nada que não o conforto quente assegurado pelos pais, pela sua casa e pelas suas coisas.
Chegada a idade de ingressar na escola, a sua falta de competências sociais veio acompanhada da preocupação crescente dos seus pais.
Decidem, pelo melhor de Lorenzo, consultarem um Psicólogo.
 
Perturbação Narcísica. Para os pais, o Psicólogo é que estava tolo.
A perturbação narcísica surge do mito grego de Narciso: o rapaz que despertava a paixão de todas as mulheres, nunca correspondida, numa postura arrogante de quem se basta a si mesmo.
Narciso, ao contemplar o seu reflexo num lago, apaixona-se por si mesmo e perante tamanha agonia, acaba por se suicidar (se desejar saber em maior detalhe sobre este mito, consulte o livro «Adolescentes Violentos» de  Yves Tyrode, Climepsi Editores).
 
Lorenzo conhecia as limitações impostas pela ausência de sentimentos para com os outros. Nada lhe parecia ser prazeroso na companhia de aparentes estranhos e colegas de escola. À mínima provocação sentida, Lorenzo respondia com agressividade, progredindo ao esperado (e desejado) isolamento.
 
A preocupação da mãe fê-lo despertar para a necessidade de mudar alguma coisa. Não intrinsecamente, apenas porque sabia que tal faria a mãe feliz, numa atitude desprovida de autenticidade: apenas de quem faz porque tem de fazer.
 
Como fazer amigos na adolescência com um adolescente inerte emocionalmente? Pela imitação.
Lorenzo começa a entender os filtros, os esquemas e padrões dos colegas mais populares, imitando. Um dia descobre que o grupo popular da escola combina uma viagem à neve.
Sem perceber como, informa a mãe que também fora convidado.
 
Ao encontrar a mãe a chorar de felicidade pelo convite, Lorenzo percebe que já não pode voltar atrás com a mentira. Prepara a viagem com o máximo de detalhe e, com a perícia de um adolescente, engana tudo e todos instalando-se no prédio da cave. Junto com ele, livros, bebidas e comida para assegurar aquela que, para ele, seria a verdadeira viagem de sonho.
 
Não contou, porém, com os imprevistos que a vida, num sentido de humor apurado, se encarrega de criar. Esse imprevisto tem o nome de Olívia, a sua meia irmã.
Olívia é a aragem fresca de quem o obriga a quebrar as suas próprias (e fechadas) regras. É na relação criada numa cave, sujeitos ao mínimo conforto, que Lorenzo perceberá, enfim, que o armário de gavetas meticulosamente arrumado em que transformara a sua vida nunca fora, realmente, o que mais almejou para si mesmo. Sentiu, pela primeira vez, a necessidade de pertencer, de estar e de ser.
Havia, enfim, despertado para uma vida com mais sentido, onde percebe um coração que bate para lá da função do corpo. Um coração que bate, também ele, ritmos de amor e de saudade.
 
Uma pequena história que, independentemente de uma mensagem tantas vezes repetida, nunca é de mais parar para refletir na sua urgência: o lugar das pessoas certas nas nossas vidas.
 
 
Recomendo.
Boas leituras.

Psicologia(s) #16


Pois. Dá que pensar.



No teu deserto (Miguel Sousa Tavares)

terça-feira, 22 de agosto de 2017


Cada vez me convenço mais de que as histórias de amor por começar, inacabadas ou mortas à nascença, são inadvertidamente as que duram para sempre.
 
Em «O Teu Deserto» um homem decide começar a escrever uma história, até então, escondida no seu passado, talvez pelo medo de enfrentar verdades irrevogáveis e finitas.
_ _ _
«Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." 
A história retrata a viagem de um homem e de uma jovem, ao deserto. Ele fotojornalista, ela envolta num mistério de quem se tenta encontrar a si mesma.
A viagem é recheada das peripécias mais ou menos previsíveis neste tipo de contexto, contudo, acredito que mais do que a viagem propriamente dita, o que conta nesta pequena história, são as viagens interiores de cada uma destas personagens.
 
Há silêncios que afirmam a certeza da proximidade de duas pessoas. Há certezas de que tal proximidade não reclama dias, semanas e anos para se solidificar. Na verdade, bastaram quatro dias para que a relação deles, até então meros desconhecidos, se tornasse especial.

O amor tem destas coisas. Seja lá de que tipo, duração ou previsão.
O livro de Miguel Sousa Tavares, mais do que centrado numa viagem inesquecível ao deserto, sublinha a importância vitalícia de um alguém que sabe fazer, por nós, a diferença que agita e permite reviver memórias acompanhadas. Talvez por isso muito mais felizes, independentemente do seu fim.

Um livro de memórias, um livro de superação através da escrita, que dá forma, que traz sentido a uma dor que reclama lugar.
Que reclama um nome.

Uma boa surpresa.
Boas leituras.
 

O Silêncio dos Gatos

domingo, 20 de agosto de 2017


Se pudessem escolher, tenho a certeza, começariam a ler.
Modelo: Mirtilo (sempre no seu melhor!)

PsicoPAIta (Luís Coelho)

terça-feira, 15 de agosto de 2017


O nascimento de um filho é um dos acontecimentos mais felizes na vida de um casal. É, também, a soma de todas as mudanças que, apesar de previsíveis e esperadas, abalam a estrutura de uma casa.
 
Luís Coelho é publicitário, cronista e humorista. É num registo de humor, quase negro, que apresenta ao leitor uma (quase) sátira muito bem conseguida sobre os desafios atuais da parentalidade.
 
Se aos mais sensíveis a frontalidade do autor poderá chocar, acredite que por detrás dessa rebelião de palavras agridoces, se esconde um pai preocupado e apaixonado pelos filhos. O ponto alto deste livro é mesmo esse: um desabafo sincero e provocador de um pai que, independentemente das dificuldades, se mantém firme no seu papel:
 
"E este é apenas um dos papéis do pai que, antes de ser pai, é muitas outras coisas. É criado das hormonas da mulher, moço de recados, chauffeur, mordomo, empregado, cozinheiro. Enfim, um verdadeiro pau-mandado, ou melhor, pai mandado, lá de casa."
 
O leitor será confrontado a lidar com as mais profundas lamúrias deste pai, não esquecendo a  astúcia para críticas incisivas (e cómicas, claro está) a uma sociedade cheia de pressa, cujo troféu mais cobiçado passa por ser a melhor mãe, o melhor pai, o melhor tudo.
 
O autor sublinha o sentido de oportunidade das crianças. É todo um novo mundo que se afigura e cujas adaptações nem sempre são fáceis de gerir: deixar de fazer parte do grupo dos adultos fixes nas mesas de casamento, passar a falar única e exclusivamente sobre os filhos, guerrear pela melhor posição de pai e de mãe no infantário, resistir a um número cómico de horas de sono, manter a calma quando esta se extinguiu há meses, subjugar-se ao segundo (terceiro ou quarto) lugar na vida da mulher e lidar com cocós sem sentido de oportunidade, são apenas algumas das situações relatadas num humor irrepreensível.
 
Não se deixe iludir pela aparente psicopatia deste pai. Em todos os cenários há um lado bom e um lado mau. Na parentalidade não poderia deixar de ser diferente.
"Mas se, por um lado, anseio pelo descanso que é estar longe, por outro, sinto tantas saudades que o meu coração fica mesmo pequenino. Que feitiçaria é esta?
 
Recomendo sobejamente a leitura deste livro não só pelo humor que percorre todas as páginas mas, sobretudo, pela determinação do autor em expor assuntos que, aposto, todos os pais desejariam mas a quem lhes falta a coragem.
 
Boas leituras!
 
CopyRight © | Theme Designed By Hello Manhattan