sábado, 27 de maio de 2017

Romão e Juliana (Mário Zambujal)











Mário Zambujal, num estilo tão seu, é um daqueles escritores que jamais desiludem.
Em «Romão e Juliana», no seu jeito inconfundível a misturar comédia e tragédia, vivemos um amor (aparentemente) sem limites, qual Romeu e Julieta.
 
As famílias de Juliana e Romão, inimigos de longa data, jamais poderiam imaginar ou conceber a ideia de um Valebranco com um Pontefina. Sempre me disseram que o amor tem um afinado sentido de oportunidade, aparecendo nos lugares e nas horas mais inesperadas.
 
Foi assim com a Juliana, que num incêndio, conhece Romão e por ele, incendeia também o seu coração assolado. Estaria, assim, o cenário criado à maior tragédia que só o amor pode provocar.
 
Furiosos pela saudade vitalícia, o casal corre perigos, salta muros e rouba beijos um ao outro na pressa das noites que passam velozes de mais.
Até ao dia em que tudo, repentinamente, parece mudar pela obra dos dias, já cansados e desesperados, quem sabe. Força das circunstâncias?
Poderá o amor sobreviver sem obstáculos ou, quiçá, sejam aqueles o seu maior motor de sobrevivência?
 
Mário Zambujal escreve com uma ironia brilhante.
Sempre fiel ao seu estilo narrativo, o autor lança achas a uma fogueira de que, atualmente, muito se fala. Estará o amor, também, em vias de extinção na perspetiva única de um futuro instantâneo e prazeres vagos como a noite? Dá que pensar.
Irónico, mas tão certeiro, vai levar o leitor a olhar para dentro e a questionar-se. Esse é o primeiro passo para que a vida se forre de mais sentido, sobretudo, nestes dias velozes que apagam o essencial priorizando a leveza, essa tal leveza do momento.
 
 
Ao som de: Damien Rice

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O deslumbre de Cecilia Fluss (João Tordo)

 
Fecha-se, assim, com chave de ouro, uma das melhores trilogias que já tive oportunidade de ler.
 
João Tordo figura, sem reservas, como um dos autores portugueses a reclamar todas as atenções e deslumbres de leitores exigentes.
 
Esta história conduz-nos e confronta-nos com um conjunto de personagens perdidas em si mesmas. Se nos livros anteriores a indiferença, a sensação de perda e culpa eram temas gritantes, em «O deslumbre de Cecília Fluss» tudo se mantém mas na sombra, eu diria figurada, da demência.
 
"O que eu quero dizer com isto é que, para os cães, o passado não existe, pelo menos da maneira que existe para nós - uma história carregada de medo, de angústia, de ressentimento, de dor, entidade viva que transportamos connosco." p.121
 
Esta é a história de Matias Fluss, adolescente carregado com as preocupações típicas dessa idade. Há o sexo que espera urgente, amizades que se consolidem, um tio enlouquecido que admira, a família que parece toldar-lhe os movimentos. Surgem as fábulas budistas, inspiradas pelo professor, numa tentativa simultânea de ausência e procura de si mesmo.
 
A história de João Tordo é belíssima. Neste último livro fecha um ciclo sobre pessoas enterradas numa caixa de Pandora, revelada antes do tempo. Quem nunca se sentiu perdido, desfocado ou diminuído no reflexo de alguém? Quem nunca?
 
É Cecília quem nela carrega a visão turva, e sempre condicionada, de Matias. A relação destes irmãos ditará o futuro de cada um deles, pautado, sempre, pela dor de uma ausência ridiculamente imposta por um destino, quase sempre, traiçoeiro.
 
Porque não esquecer, então?
Porque não, afetuosamente, guardar para si toda uma história até que a demência vença por si mesma?
 
"Temos tanto medo porque achamos que há muito a perder, mas não é assim tanto, as coisas que achamos que nos trazem a felicidade também nos trazem o contrário da felicidade, que é a terrível angústia de nos faltarem." p.177
 
No peso da saudade, da dúvida, de avanços, de retrocessos e de identificações, Matias perdeu-se e fechou-se em si mesmo no vazio que Cecília lhe vendeu, ao decidir desaparecer.
Mais tarde, essa perda gradual surgiria no fio incerto, mas claro, que só o tio Elias lhe poderia garantir.
 
"Toda a gente precisa de um lugar onde transformar a sua dor."
 
Esse lugar seria a ausência palpável do que foi, do que não foi e do que a memória, um dia, decidir de vez apagar. Como as térmitas, subtis, a escarafunchar a madeira.
Mais do que uma história de amor, perda e saudade, a trilogia de João Tordo interroga sobre a força de um coração assolapado, as diretrizes e as jornadas a que nos impele, diariamente, por respostas que acalmem. Se as vamos encontrar, aparentemente, só o tempo e o que fizermos dele, dirá. 
"(...) quando o final, inelutavelmente, chegar, tudo mergulhe numa abençoada vertigem e um sorriso trocista assome aos nossos lábios e possamos saber, finalmente, que se esgotaram as existências, que tudo é sagrado, o que foi feito foi feito, nada a pôr, nada a tirar, e será então que poderemos, finalmente, acolher a imundície humana e a insuportável beleza deste mundo como acolhemos o cálice de uma flor que sabemos morta de antemão, mas que sangra, porque está viva, porque está morta, porque está viva." p.333
 
Ao som de: "Daughter"
 
Obrigada Penguin Random House
 

domingo, 21 de maio de 2017

Psicologia(s) #10

sábado, 13 de maio de 2017

O Sul seguido de Bene (Adelaida García Morales)
















«O Sul seguido de Bene» de Adelaida García Morales, lançado em Portugal pela Relógio d'Água Editores, reúne duas pequenas novelas, «O Sul» e «Bene».
Em ambas as novelas a ausência de um alguém prevalece. Sabemos de antemão como a ausência se sente no peso de uma saudade vitalícia, palpável, que faz adoecer.
 
Na primeira novela, «O Sul», a ausência de um pai e, do outro lado, a filha que, pelo silêncio dos seus gestos aflitos, lhe roga presença, apoio, validação.
Esta novela é tão linda. A simplicidade da escrita conta-nos como só o amor deve ser. Simples, tão genuíno que se transforma numa dor calma, resignada de quem sabe amar tudo, independentemente do (quase) nada que lhe destinam.
Deixem-me repetir o quanto esta novela é belíssima, por tudo. A ausência do pai, a filha que aprenderá a reconsiderar cada gesto ao lado de um homem, que com segredos no nome, acabou por lhe ensinar a amar da maneira mais bonita.
Essa maneira de amar é, sem sombra de qualquer dúvida, nada esperar em troca.
 
Em «Bene», no mesmo registo de ausências bem demarcadas, vive-se uma atmosfera quase fantástica sobre uma mulher, uma menina e o seu irmão, Santiago.
Desde o medo atroz em perder os lugares conquistados, de irmã capaz e bondosa, aos amores doentios e desajustados, esta novela de Morales assume um caminho diferente, inesperado, a merecer a atenção pelo confronto com a morte, com a dor, com a incapacidade de se saber lidar com o que não poderemos ter, jamais.
 
 
 
Sobre «O Sul» Ángel Fernández-Santos disse: "O Sul é uma das narrativas de amor mais originais na sua poderosa simplicidade".
 
Faça um favor a si mesmo e não deixe de o ler.
 
 
 
Muito grata à Relógio d'Água Editores por um livro que se tornou vitalício.
 
 
 
Ao som de:
Bon Iver

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Palavras mal colocadas #8

 
Entre alucinações, delírios, fala desorganizada e comportamento catatónico, eu não consigo compreender algumas aplicações desta palavra, como no exemplo que se segue:


"Este documento é esquizofrénico"

Sem comentários.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

leite e mel (rupi kaur)

O primeiro livro de rupi kaur brinda-nos com um conjunto muito cuidado de poesias sobre o amor, o abuso, a perda e outros temas que, diluídos, se podem misturar naqueles primeiros. Basicamente, a poesia de rupi kaur fala do amor e das suas inevitáveis ramificações, não necessariamente felizes, mas com promessas de uma cura.
 
Nem sempre é fácil concordar com tudo aquilo que nos entra pelos olhos adentro. Há aqui poesias belíssimas, outras, que nos provocam a língua, a querer contrapor. Acredito que o objetivo maior da poesia, mais do que sensibilizar para a beleza da palavra, da fonética e tudo o que mais se lhe reveste, é provocar - nos mais diversos sentidos - quem decidiu ler.
 
Eu li. E decidi que vale a pena desafiar outros leitores a sentirem-se provocados pelas palavras de rupi kaur. Ela sentiu a poesia como fonte de cura, de validação e sobrevivência.
Se não tem alma pequena, acredito que valerá a pena.
 
Boas leituras.

sábado, 6 de maio de 2017

Viajante à Luz da Lua (Antal Szerb)


















«Viajante à Luz da Lua» de Antal Szerb é um dos grandes clássicos da literatura húngara, recentemente publicado em Portugal pela Guerra & Paz Editores.
Publicado em 1937, este livro retrata a história de Mihály, um homem de negócios de Budapeste, mas cuja responsabilidade, esperada pela idade que não assume, é coisa com a qual se confronta diariamente num conflito a que só os desafortunados de coração conseguem perceber.
 
Mihály não se assume enquanto homem que deve, tal como os outros, prosperar, crescer e ser cada vez maior. Parece que tal incumbência não lhe está nem no sangue, e muito menos, nas ações que se mantêm, sempre, na sombra de uma adolescência inacabada.

Ele larga tudo, a vida de outrora, a mulher com quem casou e viaja em lua-de-mel, rumando sem destino por uma Itália repleta de promessas antigas.
 
Há uma frase de Marcel Proust que retrata, na perfeição, essa inquietude de Mihály, cansativa, pesada e que atormenta:
 
"A maioria dos homens gasta a melhor
parte da vida a tornar a outra miserável."
 
Não consigo definir melhor a vida deste homem, que sempre se sentiu no lugar errado à hora errada, com intenções e desejos escondidos por uma cobardia congénita.
A adolescência é muito demarcada na história de Szerb, como alavanca daquilo a que alguém se pode vir a tornar, como um esquisso daquilo que será.
Para Mihály, com base numa adolescência repleta de magia, fantasmas palpáveis, amizades inquestionáveis e um amor eterno, intocável, decidiu estagnar em si mesmo, numa tentativa infantil de permanecer no único lugar que o validava.
 
Esta é uma história capaz de lhe arrancar alguns risos, mas é sobretudo uma história sobre o passado, sobre a adolescência e o poder daquela em transformar cada passo dado. Uma necessidade bem demarcada em pertencer, tão somente pertencer para que, um dia mais tarde, a sua passagem pela vida possa tecer-se de algum significado.
 
O seu significado maior tinha nome de Éva e tal como na história do paraíso perdido, algo se prendeu na garganta de um homem que amou mal, cresceu mal, viveu mal.
 
Leia este livro sem qualquer arnês. Não precisa de saber muito mais de uma história cuja amizade, amor e adolescência se juntam para, cruelmente, formar a base de perdição de um homem que, fruto de um passado idealizado, decide viver apenas para dentro.
 
Mihály só precisava de esperança.
A adolescência é feita de armários à medida de quem foge em sonhos sem nome.
Mais cedo, ou mais tarde, porém, este homem terá de crescer.
 
 
Eu já li e descobri. E você, vai ler?
 
 
 
Bem haja, Guerra & Paz, pela oferta.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A ler Antal Szerb


 
"(...) Amo-te porque me pertences,
amava-a porque não me pertencia,
o amor que sinto por ti dá-me confiança, segurança e força,
o amor que sentia por ela humilhava e aniquilava-me..."
 
In "Viajante à Luz da Lua"
 
 
A roer-me para não fazer comentários sarcásticos.
Acho que acabei de o fazer.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Palavras mal colocadas #7


"Olha, hoje não sei se poderei ir ter contigo..."
"Whatever!"
 
É que já nem consigo dissertar mais sobre o quanto esta expressão (?!) me enerva e me acrescenta uma ruga aqui, e ali.

domingo, 30 de abril de 2017

Sobre escrever com o coração


 
Em "Tudo sobre livros" Virginia Woolf desafia-nos a refletir sobre a relevância do amor em tudo aquilo a que nos dedicamos e propomos.
O que será mais importante: escrever sob as bases teóricas da literatura, na ponta da língua, ou escrever com o coração na garganta?
A autora elogia as camadas mais jovens do mundo da literatura ressaltando, no entanto, um aspeto que se assemelha a uma espécie de impressão em massa. Nada há que os distinga nas obras que, afincadamente, escrevem. Todos eles, segundo defende, baseiam a sua arte de escrever na sombra da educação.
Que quer isto dizer, concretamente?
Que se moldaram às leis de um ensino padrão, fieis ao professor que ensina, modela, orienta e corrige. Fiéis na crença, ilusória e como tal muito cega, de que essa orientação os levará ao fim de ambicionada jornada de escritor.
 
Para Virginia, faltará sempre algo muito mais relevante porque com base nesta perspetiva, lança a questão:
"Mas, perguntamos nós, virando as páginas honestas, admiráveis e inteiramente sensatas e nada sentimentais, onde está o amor?"
Falta amor.
Uma história para ser real, tem de ser escrita com amor, tem de ser visceral, tem de ser autêntica, genuína, pura, pessoal. E tudo isso, e muito mais, resume-se a um pouco de amor. Mas que seja próprio de quem escreve. Só dele. É dessa forma que a sua história se poderá repartir, perpetuando-se por cada um dos leitores que, também genuinamente, se lhe dedicarem.
 
 
Virginia, bem haja mais uma vez.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Canção doce (Leïla Slimani)











O dicionário diz-nos que solidão traduz o estado do que está só. Isolamento. Um ermo. Um lugar despovoado.
Leïla Slimani tem solidão impresso em cada canto da sua «Canção Doce» e Louise, a ama perfeita aos olhos de todos, personifica esse lugar despovoado das pessoas mal amadas.
«Canção Doce» é a história de um casal, dois filhos pequenos e a sua ama, Louise. A junção de todos eles revelará ao leitor a urgência dos dias atuais, o tudo querer, a pressa das horas, as ambições desmedidas e as prioridades distorcidas. O resultado sairá, claro está, enviesado nas leis do que seria suposto. Eu chamo-lhe a teoria do elástico: vá puxando, até ao dia.
Myriam e Paul são um casal aparentemente feliz, que após o nascimento dos filhos, viverá a conhecida fase de adaptação e reorganização que tal implica. Os horários não serão os mesmos, os encontros com os amigos serão adiados muitas vezes, o descanso passará para um segundo ou terceiro plano e, depois, as aspirações profissionais parecem elas, também, sofrer um rumo diferente.
Myriam, mãe preocupada, decide então dedicar-se de corpo e alma à arte de ser mãe. Esticou o seu elástico até não poder mais, com prioridades circunscritas à maternidade quase patológica de que apenas ela seria a pessoa indicada para assegurar o bem-estar da menina. E do menino, nascido pouco tempo depois.
Um dia, porém, no reflexo de Paul, cada vez mais de encontro às suas próprias aspirações profissionais e ao delineamento do seu próprio caminho, Myriam quis o mesmo. Exigiu o mesmo. Afinal, tinha tanto direito quanto Paul a exercer as suas excelentes competências de advogada, outrora a melhor e mais dedicada aluna de Direito.
Não pretendo crucificar o leitor com as mazelas que o nascimento de um filho traz, inevitavelmente, à vida de um casal mas é, precisamente, nesse seio disfuncional de prioridades e anseios que Myriam e Paul decidem ter chegado a hora de contratar uma pessoa para cuidar das suas crianças enquanto estes pudessem, na mesma medida, dedicar-se às suas carreiras profissionais.
Louise surge nas suas vidas como a verdadeira fada do lar. E como diria Fernando Pessoa, se primeiro se estranha, acreditem, que depois de uns dias com Louise, o ambiente tranquilo, arrumado e sereno entranhou-se facilmente em todos eles.
O problema das pessoas aparentemente perfeitas é andarem de mão dada com uma espécie de invisibilidade. Não há espaço ao erro, a delicadeza de cada gesto é tanta que, por isso mesmo, nem se nota. E espera-se, por isso mesmo, apenas mais e mais perfeição.
Gradualmente, numa espécie de vórtice aterrador, Myriam e Paul assumem Louise como parte integrante dos seus dias, da perfeição da casa e inclusivamente, da disciplina exemplar transmitida aos filhos. Quanto mais Louise fazia, por um amor incondicional que lhe cresceu pelos meninos e pela família, mais o casal assumiu a implacabilidade da frágil mulher. A perfeição tem destas coisas.
O que ninguém sabe, porém, é que a perfeição veste-a Louise como um desses escapes a olhos desatentos, de quem tanto procura um lugar que a dignifique pelo que é, não pelo que faz, e muito menos por um passado a que não se apega. Que não deseja. Que não sente seu.

Um livro brilhante sobre o descaramento do egoísmo, os afetos distorcidos, os estatutos engavetados,  a solidão e a necessidade de amor. No fim, essa necessidade, quase sempre, caminha no sentido oposto daquela que seria uma verdadeira canção doce.

Recomendo com todas as mãos. Recomendo a todos os bons leitores. Recomendo a toda a gente!
 
 
Seja feliz, aqui

 
O meu enorme obrigada à Penguin Random House, pela oferta.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Senhor Camilo



"Que animal é este?
Um camilo?
Não será camelo?
Ah! É capaz de ser...!"
 
Uma pérola de 6 anos a revelar o poder de uma única letra.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nada (Carmen Laforet)



















«Nada» é o romance que revolucionou a literatura e agitou a sociedade espanhola do pós-guerra.

Com a intenção de estudar e mudar de vida, Andrea parte rumo a Barcelona, hospedando-se na Rua de Aribau, na casa da sua avó e tios.
Esta será a sua história. E a história dos outros. Que contempla, apreensiva, desprendida de si mesma, ausente e presente simultaneamente numa dor que desconhece. Mas que lhe procura a origem nos passos, deambulantes, que dá pela cidade.

Carmen Laforet vai encher-lhe a alma. A sua escrita soa a uma espécie de desconsolo. Um desconsolo quente, que tudo diz numa leveza tal, que comove e promete fidelidade até ao fim da história.
“(…) apesar de todos aqueles seres trazerem consigo um peso, uma obsessão real dentro de si,  à qual poucas vezes aludiam diretamente.”

O ambiente na casa era pautado pela fome, pela secura dos gestos e amargura de afetos, que não se dizem, em todos eles. Desde a avó, pequena, frágil e em constante pranto, ao tio Juan e Gloria, Angustias e o enigmático Róman.

No fim da Guerra Civil Espanhola, aquele contexto azedo e autoritário está espelhado fielmente em cada personagem. Também a fragilidade e o cansaço. A fome de Andrea, dentro e fora.

Mais do que uma história sobre uma jovem que decide estudar em Barcelona, largando tudo para tal, Carmen Laforet, desenhou dentro daquele contexto histórico, personagens personificadas de um período ideológico autoritário como foi o Franquismo. Falo de Juan mas, particularmente, de Román.

As personagens viverão os seus temores, e na sombra, Andrea crescerá sem qualquer alicerce que não seja correr por si mesma, aprender por si mesma:


“Parecia-me que de nada vale correr, se vamos sempre pelo mesmo caminho, fechado, da nossa personalidade. Alguns seres nascem para viver, outros para trabalhar, outros para ver a vida. Eu tinha um pequeno e mau papel de espectadora. Para mim, era impossível sair dele. Impossível libertar-me. Uma tremenda angústia foi, nesse momento, a única coisa real para mim.”
 
Uma história onde o desejo de vingança impera, mas também o amor dará os ares saudáveis da sua graça. Uma história de superação, de resiliência e de crescimento.
Andrea, personagem inesquecível, mostra-nos um mundo triste, solitário e muito sombrio, mas ainda assim, com brechas a dias novos, carregados de promessas.
“Desci as escadas lentamente. Sentia uma viva emoção. Recordava a terrível esperança, o anseio de vida com que as subira pela primeira vez. Agora partia, sem ter conhecido nada daquilo que, confusamente, esperava: a vida na sua plenitude, a alegria, o interesse profundo, o amor. Da casa da Rua de Aribau, não levava nada comigo. Pelo menos, assim o julgava eu, então. (…) Barcelona inteira ficava para trás.”  

 
Boas leituras.

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro
























A minha proposta para este Dia Mundial do Livro passa por um dos meus livros da vida:
«Gente Independente» de Halldór Laxness.
Curiosamente, este senhor faria hoje 115 anos.

sábado, 22 de abril de 2017

O Regresso de João Tordo



















Uma das melhores notícias do mundo editorial: João Tordo está de volta. 
Pela mão da «Companhia das Letras» (Penguin Random House) teremos, agora, a ambicionada oportunidade de conhecer o fim de uma história, asseguro-lhe, inesquecível.

Faça um favor a si mesmo e reserve já o seu, aqui

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Palavras mal colocadas #6

 
 




Esta é mesmo um pequeno ódio de estimação. Desde a fonética, ao contexto usado, a tudo. Tudo me irrita na colocação, habitual, da dita.

"Olá! Como estás?"
"Estou no relax..."

(que bar é esse filho?)


Não me perguntem porquê, mas esta resposta irrita-me solenemente.
Como diria a querida Beatriz, todos nós carregamos as nossas cruzes ;)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Respeitem o Mickey!







O Mickey é um rato.
Não é nada!
Claro que é, não sejas chato.
(Já em berros)
Não é. Olha o meu dedo a dizer que não!
Então o que é?
(Os berros continuam)
O Mickey é uma pessoa!!!
 
 
Discussões acesas entre os dois Principezinhos.


sábado, 15 de abril de 2017

Contos de Assis #1














O «Alienista» é um dos contos, ou o conto, mais conhecido de Machado de Assis. Muitos acabaram por o enquadrar na novela, no entanto, conto ou novela, a verdade é que estamos perante uma história que o irá cativar não só pela comédia que lhe assiste mas, também, pela crítica social, pelo egoísmo e pela mancha humana impregnada e assumida em primeira mão pela personagem do Dr. Simão Bacamarte.

É a história do Dr. Bacamarte, médico dedicado, que ao focar-se na Psiquiatria, abrirá um manicómio para o efeito, conhecido então pela «Casa Verde».
Começará então uma espécie de internamento em série pois, prepare-se leitor, em cada detalhe, em cada frase ou trejeito dos moradores, inclusivamente da própria esposa, o Dr. Bacamarte, fará um diagnóstico diferenciado no quadro das doenças mentais.
 
Toda a população passará alguns dias na «Casa Verde», uns mais, outros menos. Nenhum, ou quase nenhum, perceberá o motivo do internamento. Aparentemente, apenas o Doutor saberá. Ou não.
 
A azáfama que se viverá naquele lugar, as fúrias que se acenderão em torno daquela Casa, em torno daquele médico e em torno das aparentes doenças mentais terminarão, afinal da maneira menos pensada inicialmente.
 
Cansado de, afinal, errar diagnósticos, decide que a loucura reside do seu próprio lado, internando-se a ele próprio na Casa Verde, vivendo os seus últimos dias entregue àquela que fora, sempre, a sua grande causa.
 
 
O conto de Machado de Assis, em certas passagens, relembrou-me «A Montanha Mágica» de Thomas Mann, pelo receio dos moradores, pelo tempo que ali parecia não passar, bem como aquela passividade que ninguém parecia, aparentemente, controlar. Paralelamente, o conto de Pirandello, «As Sete Casas», num confronto direto com a morte, surgiu-me também ao longo da leitura de Assis. Juntam-se assim dois temas que considero essenciais na história do Dr. Simão: o tempo enquanto matéria prima para fazer dele o ouro que brilhará diretamente do seu umbigo, enquanto médico conceituado, que tudo sabe e nada permite questionar. E a morte: depois de uma jornada meritória de pesquisas, de diagnósticos, de loucuras distorcidas, o que seja, houve todo um percurso que se colou, inegavelmente na memória dos moradores e por isso mesmo, a morte na Casa Verde será um mero acessório a uma vida que foi, e teimará em ser, para sempre, vaidosa e tão dona de si.
 
Muito bom!
Boas leituras.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Psicologia(s) #9

 
Dica: continue a tentar.
Falhou? Continue.
Sempre.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Há Relógio no correio!


Chegou ontem no correio, esta pequena beleza.
Um livro que, aposto tudo, garante não apenas uma, mas muitas viagens.


 
Obviamente, o Mirtilo no seu melhor.
 
 
 
Bem Haja Relógio D'Água por esta fantástica oferta.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Palavras mal colocadas #5



 
Ou sou eu que sou muito romântica ou não percebo os "amo-te" ditos, aparentemente, sem pensar.
Haja corações grandes, mas vá, não exageremos.
Digo eu, que não sei nada.

domingo, 9 de abril de 2017

1933 foi um mau ano (John Fante)

Faça um favor a si mesmo e compre, aqui








Bukowski sempre disse o quanto Fante o havia influenciado. Disse inclusivamente que era o seu Deus, relembrando as visitas às bibliotecas e livrarias onde o desagrado sempre imperava até ao dia em que, finalmente, se cruzara com Fante e ali estacara, embrenhado na leitura daquele que viria a ser uma espécie de mentor.
 
Vai apetecer-lhe dizer uns quantos palavrões no passar de cada página, pela genialidade da escrita estupidamente simples, e que dessa simplicidade faz coisas tão brutais que apenas lhe restará a resignação à humilde condição de leitor voraz.

Vai conhecer o italiano Dominic Molise, um jovem de 18 anos, a terminar o liceu, e a desejar pôr em marcha o sonho de um dia se tornar uma estrela de baseball, com o seu Braço abençoado, mas confrontado diariamente com a realidade amarga da sua família, naquele que é o silêncio de uma mãe traída e um pai apenas dedicado ao trabalho duro das obras, e pouco rentável.

No contexto da Grande Crise Económica dos anos 30, a obra de John Fante, personificada neste Dominic Molise, vem mostrar o confronto entre sonhos que se tentam conquistar e o mundo, agreste como só ele sabe ser, a defraudar-nos cada um dos momentos pelos quais tanto ambicionamos.

Com momentos de escrita absolutamente espetaculares e personagens hilariantes (jamais esquecerei a avó Bettina), desafio o leitor a pegar neste livro imediatamente: mais do que uma história sobre um jovem que deseja alcançar os seus grandes sonhos, esta é também uma história de sobrevivência, de laços familiares e capacidade de superação num mundo virado do avesso.


O meu enorme obrigada à Penguin Random House pela simpatia e consideração para com os seus leitores.
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

A tua segunda vida começa quando percebes que não terás outra (Raphaëlle Giordano)


O primeiro livro de Raphaëlle Giordano, publicado em Portugal pela Penguin Random House (Suma de Letras), conta-nos a história de Camille, com 37 anos, aparentemente com tudo para ser feliz mas nada que a faça sentir-se dessa forma.
Na verdade, a vida de Camille parece ter estagnado desde o seu casamento, o nascimento do seu filho, a adaptação aparente (ou resignação) a um trabalho povoado na maioria por colegas que não respeitam o papel de mulher e mãe que, também, é capaz de trabalhar, entre outros aspetos que em muito foram ganhando terreno à passividade da sua vida.
Num dos muitos dias iguais entre si, Camille tem um acidente de carro que a impede de regressar a casa quando suposto. Conhecerá Claude, o rotinólogo.
Da incredulidade ao espanto, e da desconfiança à necessidade de tentar, o leitor acompanhará a doce Camille numa aventura enternecedora na reconquista de uma vida que ambiciona, erradicando de si a grave rotinite de que padece. 
Um pouco a relembrar os ditames da felicidade dinamarquesa, a autora, coaching de profissão, fez-se valer dos seus conhecimentos técnicos para, entre ficção, frisar aspetos que, apesar de basilares na vida de cada um, nem sempre são prioritários.
É que o tempo é severo e na pressa de se chegar, acabamos por perder as sinaléticas que, eventualmente, nos estariam destinadas.
Camille optou por ignorar esses apelos da pressa e decidiu parar, pensar, questionar e mudar.
Parece ridiculamente simples para si, caro leitor cético, que neste momento se bajula e se congratula por esse conhecimento que tem sobre a sua fantástica forma de viver. Parabéns. Continue.
E você, desse lado, perdido pela pressa dos dias, não ligue a quem já tentou e se perdeu, nem tão pouco aos bajuladores: tente por si, as vezes que forem necessárias. Só por aí, valerá a pena.
 
Uma nota muito interessante quanto a este livro: a autora tem o cuidado de, nas páginas finais, explicar em detalhe as técnicas de modificação comportamental e técnicas motivacionais que o Claude promove junto de Camille. Ao ler, o leitor terá também, a feliz oportunidade de refletir sobre si mesmo e por aí, acredite, o lucro compensará sempre os minutos dispensados.
 
Boas leituras.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Já que insistes...

(...)
A tua atividade preferida é estudar?
Sim... é.
A sério? Eu quando era pequena adorava brincar!
Eu prefiro estudar...
Ah está bem, ... eu adorava brincar com os meus amigos, à apanhada, às escondidas...
(Silêncio)
Sabes, não digas a ninguém, mas eu às vezes achava a escola aborrecida...
(Silêncio)
Hum...pois. Eu também acho a escola um bocadinho aborrecida.
Gosto tanto de brincar!
 
 
Quando as crianças nos tentam conquistar ignorando o coração.
Uma pérola de 7 anos de idade.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Time

terça-feira, 4 de abril de 2017

Virginia Woolf e o Anjo do Lar













Dos vários ensaios de Virgínia Woolf, este "Profissões para Mulheres" é especialmente bonito e motivador.
Nele encontraremos as impressões da autora quanto à posição da mulher no mundo laboral e é realmente bonito de se ver, correndo o risco de me repetir, como a autora se coloca no seu papel, como aligeira a fama que lhe é sua por direito e de como foi traçando o seu caminho enquanto escritora.
Do nada, pegando na caneta e desatando a escrever, decidiu um dia enviar os seus artigos pelo correio. Estariam os dados lançados e o resultado daquele que viria a ser o seu primeiro salário.
Se todos, eventualmente, esperariam o investimento em compras de mercearia e outros que tais, Virgínia preferiu comprar um gato. Mais tarde, precisaria de um carro. E assim foi.
Ao longo do ensaio, mais do que a sua jornada até se estabelecer como escritora, Virginia partilha aquele que foi, porventura, o maior dos seus monstros, alargado provavelmente a muitas outras mulheres, não necessariamente escritoras (a beleza dessa partilha de pensamento reside, precisamente, aí): o anjo do lar.
O anjo do lar é aquele que na mulher lhe diz e lhe prova a sensatez dos seus atos que se querem, sempre, sensíveis e serenos. Mostrar ao homem que a mulher não tem ideias próprias, limitando-se a escrever só e apenas o factual. Uma soma de um mais um de um dois previsível, vá. Talvez lhe permitam, porque faz sentido e não induz pensamentos profundos, para lá das paredes do seu quarto.
Daqui muitas reflexões surgirão. Uma das premissas de um ensaio, creio, assenta nisso mesmo e este pequeno ensaio tem ombros largos para abarcar questões sem um fim à vista.
Será que volvidos tantos anos, a mulher está finalmente livre dos estereótipos incutidos pela diferenciação de género? Estará, de facto, um livro isento do seu real valor apenas e só pela história que invoca? E quem o escreveu, homem ou mulher, ditará tendências, preferências?
Virginia defende que o caminho já foi desbravado. A mulher, aparentemente, conquistou já um quarto só seu.
Faltará, certamente, um recheio requintado e firmado por mão de mulher. Sensível mas, nem por isso, menos capaz.
 
Obrigada, Virginia. Pelo bem que me fazes.

sábado, 1 de abril de 2017

Os Adeuses (Juan Carlos Onetti)











Li este livro em Dezembro do ano passado. Até então nunca escrevera sobre ele e acredito que a razão seja, precisamente, pela nebulosidade que ele encerra em si mesmo.
A história de um desportista no culminar da sua carreira, um sanatório, pessoas, comentários e duas mulheres. Misture tudo e ponha à prova a sua capacidade de discernimento, de compreensão mas, acima de tudo, essa capacidade de isenção perante o que se vê como prova e dado adquirido. Se viste aquilo, é porque é assim. Tenho a certeza. Será mesmo?
Na verdade, pode ser tudo menos aquilo.
Esta novela, envolvendo essa personagem peculiar, um vaivém de correspondência que incendeia a curiosidade alheia, prova de uma forma absolutamente genial, a vulnerabilidade de que todos somos feitos. Há uma necessidade visceral de acreditar em tudo aquilo que é real para nós: a nossa realidade torna-se legítima, logo, é assumida para todos como tal.
Parece simples demais, mas o livro de Onetti acaba por nos dar um ponto de reflexão muito interessante: é que na vida nada é estanque, nem absoluto. E o mais importante de tudo, num livro tão pequeno, é essa capacidade de abarcar em nós o sentimento profundo de que, muitas vezes, a vida não nos vai trazer as respostas pelas quais tanto ansiamos.
 
Desafio-o a ler e a conhecer um pouco mais de uma história que vale cada minuto do seu tempo.
Boas leituras! 

quinta-feira, 30 de março de 2017

Palavras mal colocadas #4




É preciso dizer mais alguma coisa?
Eu acho que não.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Corações embriagados

Se ainda não viu Mrs Doubtfire, faça-o agora! Por aqui, contam-se pelo menos 100 visualizações.

A juventude é a embriaguez sem vinho.
 Goethe
 
 
DIA MUNDIAL DA JUVENTUDE
29 de Março 

Dramas Masculinos

O Principezinho de loja em loja.
O drama masculino das compras começa muito cedo...

terça-feira, 28 de março de 2017

Projecto ADAMASTOR: Novidades


Uma novidade que não pode perder.
O Projecto Adamastor, nesta sua mais recente iniciativa, proporciona aos leitores um conjunto muito interessante de contos e novelas dentro do género gótico.
Não deixe de conhecer a lista de contos e futuro download (porque vai querer!), clicando aqui.
 
Eu já tenho o meu, e você?
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

O Universo nos teus Olhos (J. Niven)













O segundo livro de Jennifer Niven, autora conhecida pela obra «Fala-me de um dia perfeito», aborda uma temática muito comum na camada adolescente: o bullying e o sentimento constante de não se ser aceite entre os pares.
 
Integrado no género YA (Young Adult), «O Universo nos Teus Olhos» é a história de Libby, uma jovem outrora obesa, situação essa potenciada pela morte súbita da mãe, e de Jack, o miúdo popular da escola mas que, em segredo, lida com a prosopagnosia, uma doença neurológica que lhe impede o reconhecimento dos rostos. Esta doença acarreta uma série de limitações sociais: a cada dia, todas as pessoas que aparentemente conhece, deixa de as reconhecer visualmente, adotando um sistema específico, como o reconhecimento da sua voz, algumas particularidades dos seus gestos ou roupas para se integrar, minimamente, no seu contexto escolar e familiar.
 
Libby, apoiada no conforto do seu quarto, na leitura de Shirley Jackson (bom gosto!) ou na companhia de Supernatural (bom gosto!), percebe que tão não será suficiente para si pois dentro daquelas quatro paredes a vida parece encolher, decidindo que é hora de dar passos em frente. Jack, do outro lado da rua, vive igualmente os profundos questionamentos que a adolescência determina, ampliando os seus desejos e, sobretudo, firmando as suas convicções, em nada congruentes com um grupo de amigos que não só não reconhece visualmente como, também, não lhe reconhece as atitudes.
 
Fruto dessas fragilidades emocionais, convicções e um acidente caricato, a vidas dos dois adolescentes acabará por se cruzar.
Juntos vão perceber que independentemente das limitações, sejam elas de que ordem, é possível traçar objetivos e, diariamente, trabalhar neles. Digam lá o que disserem.
 
O mais recente livro de Jennifer Niven, com uma forte componente autobiográfica, expõe os dramas da adolescência e o sofrimento inerente que tantos adolescentes vivem em contexto escolar. Aborda, igualmente, a importância da resiliência e, sobretudo, a esperança para superar as adversidades porque, no final, há sempre alguém que nos consegue ver tal como somos.
 
 
 
 
Esta leitura contou com o apoio da Penguin Random House Grupo Editorial.
 
  

sábado, 25 de março de 2017

Porquê?

 
"Diz-me: porquê que
eu tenho de ter um irmão tão chatinho?"
[O meu silêncio a rebentar de riso]
 
 
O Principezinho de 7 anos nas suas profundas (e sentidas!) divagações.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Estante de Serviço #8

 
 
Crítico, ser
__________
 
Pobby e Dingan
Ben Rice
 
 
É tentador, especialmente na juventude, ter opiniões instantâneas e fortes sobre os outros. Julgar, criticar, rotular - estas coisas, para uma mente imatura, podem parecer sinónimos de força e confiança. Mas ter opiniões firmes nunca deve ser confundido com ser crítico - que é a tendência para julgar uma coisa um pessoa baseado apenas numa qualidade ou atributo. Uma pessoa crítica insistirá, por exemplo, que todos os criminosos são pessoas terríveis, que todos os niquentos com a comida são maus na cama (parti-me a rir com isto!), e que todos os adolescentes são ingénuos e críticos.
(...) o que pode levá-lo a abafar o seu fogo crítico, é o pequeno livro de estreia de Ben Rice, Pobby e Dingan. Kellyanne, a irmãzinha mais nova do narrador Ashmol, tem dois amigos imaginários, Pobby e Dingan. Como seria de esperar de qualquer respeitável irmão mais velho - em especial alguém que cresceu na dura comunidade mineira de opalas de Lightning Ridge, na Austrália - , Ashmol não tem tempo para coisas tão infantis. E você teria, depois de anos a dizerem-lhe para pôr dois lugares à mesa para Pobby e Dingan e de lhe dizerem que não podia ir à piscina porque, com Pobby e Dingan no banco de trás, já não há espaço suficiente para si no carro utilitário?
Lá para o fim do romance, sim. Porque quando Kellyanne anuncia que Pobby e Dingan morreram, e fica tão doente com o desgosto que acaba por ir para o hospital, Ashmol faz uma coisa maravilhosa: anda por todo o lado na cidade a pôr anúncios a oferecer uma recompensa a alguém que possa encontrar os amigos da irmã («Descrição: imaginários. Sossegados»). E a partir desse momento você também irá querer ficar do lado daqueles que entram na fantasia da menina e não daqueles que desdenham.
Permaneça aberto. Há bom, mau, loucura e tristeza em toda a gente e não tem de condenar ou de acreditar em todos os elementos para ser generoso com o pacote inteiro. Isto também se aplica a si mesmo. Se, quando luta com um nova aprendizagem, tende a descrever-se a si mesmo como um inútil em tudo (ver: autoestima, baixa), comece por praticar uma atitude não crítica para consigo mesmo.


Este é um dos livros que ficará comigo para sempre. Foi lido num momento muito especial da minha vida e, lindo como é, instalou-se com as bagagens de uma vida.
Recomendo com a maior intensidade que possa ser possível. Tenho a presunção de lhe dizer que não, não se vai arrepender. Nem um bocadinho.

Boas leituras.

 
Em:
 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Palavras mal colocadas #3


Só pessoas altamente imbecis é que colocam uma palavra destas em frases como:
 
"Aquele homem é um cancro!"
"Mas que cancro!"
 [sobre um vestido, eu já ouvi]



Neste caso, só mesmo à estalada.
Desculpem lá.

terça-feira, 21 de março de 2017

Oh. Só um bocadinho...



"Eu já te disse que não tenho namorada!"
"Claro."
"Já te disse que não!"
"Aposto que os teus olhos se transformam em coração quando ela passa..."
"Oh. Só um bocadinho..."

 
Os homens apaixonados são uma beleza. Mesmo quando só têm 8 anos.

domingo, 19 de março de 2017

Receitas de Amor para Mulheres Tristes (H. Abad Faciolince)










Encantar mulheres tristes com receitas de amor é o propósito do autor.
Se conseguirá, ou não, dependerá sabe Deus do quê.
Não serei eu capaz de lhe dizer, caro leitor, o que fará uma mulher sair desse turbilhão de tristeza que lhe inunda o peito. Consigo dizer-lhe, isso sim, que Héctor Abd Faciolince criou um carinhoso livro de receitas que, pelo menos, acalentará o seu coração de mulher e ajudará ao homem mais astuto a perceber-lhe os sinais da falta de amor que lhe acusa por gestos subtis e palavras que não diz.
Ele diz, e eu subscrevo feliz da vida, como os homens são cobardes a amar.
 
Ele vai ensinar-lhe uma série de coisas que, muito provavelmente, estará farta de saber. Mas, cá para mim, entre saber e fazer-se valer dessas crenças, percorre-se uma significativa distância.
 
Não vamos mais longe com Faciolince, mas vamos mais protegidas, mais mimadas.
Protegidas nesse confronto de amar mal, de quem receia, de quem não se entrega, que espera o que não vem, que deseja o que não sabe, que quer e não quer, que desconhece e estagna na dor mensal que alguém lhe destinou.
 
Este belíssimo livro é a dedicatória mais pura às mulheres que podem até nem saber para onde vão, mas saberão, com toda a certeza, como fazer quando lá chegarem.
 
"Não escondas as tuas misérias: podes ter segurança com aquele que gosta dos teus defeitos, porque aos teus encantos e qualidades qualquer um se afeiçoa."
 
Bem haja, Héctor Abad Fanciolince!

sábado, 18 de março de 2017

Psicologia(s) #8

 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Contos de Assis

 
«A Chinela Turca» é o primeiro conto, de vinte previamente selecionados, de Machado de Assis, num dos livros mais recentemente publicado pela Relógio d'Água Editores: «O Alienista e Outros Contos».
Dos inúmeros contos escritos pelo autor, a Editora selecionou aqueles que considera serem os melhores. No livro estão apresentados por ordem cronológica o que nos permite analisar, em maior rigor, a própria evolução de Assis enquanto contista.
 
Não posso deixar de destacar, desde logo, o primeiro conto «A Chinela Turca». O humor que já me haviam falado, bem como a ironia de Assis, estão presentes neste pequeno conto.

Aqui serão narradas as histórias do bacharel Duarte e do major Lopo Alves. O último deseja que Duarte leia o seu mais recente trabalho, uma obra na qual deposita mundos e fundos de esperança enquanto escritor. Contudo, Duarte, jovem e apaixonado sonha apenas com o fim de uma visita inesperada - e em nada desejada - para que possa, finalmente, rever aquela por quem o seu coração chama desesperadamente. Cecília.

As horas passam e o desespero do jovem só aumenta perante as inúmeras folhas para ler. A noite avança e, no seu cadeirão, senta-se desmoralizado pela certeza de já não poder sair naquela noite.

Dizem que o desespero, sobretudo quando empurrado por um amor galopante, abre frechas na imaginação numa esperança vã de se lhe fugir. Assim surgirá, do nada, uma chinela turca, muito especial e, aparentemente, roubada pelo Duarte.

Não lhe contarei o resto porque é a partir daqui que este pequeno conto de Assis merece ainda mais atenção e dedicação do leitor. Não se coíba a lê-lo pois, no mínimo, diversão garantida terá.

Para iniciante que sou nas obras de Machado de Assis, penso que não poderia ter começado de melhor maneira.
 
O meu enorme bem-haja à Relógio d'Água Editores por esta oferta.
Novos contos de Assis em breve.