quinta-feira, 30 de março de 2017

Palavras mal colocadas #4




É preciso dizer mais alguma coisa?
Eu acho que não.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Corações embriagados

Se ainda não viu Mrs Doubtfire, faça-o agora! Por aqui, contam-se pelo menos 100 visualizações.

A juventude é a embriaguez sem vinho.
 Goethe
 
 
DIA MUNDIAL DA JUVENTUDE
29 de Março 

Dramas Masculinos

O Principezinho de loja em loja.
O drama masculino das compras começa muito cedo...

terça-feira, 28 de março de 2017

Projecto ADAMASTOR: Novidades


Uma novidade que não pode perder.
O Projecto Adamastor, nesta sua mais recente iniciativa, proporciona aos leitores um conjunto muito interessante de contos e novelas dentro do género gótico.
Não deixe de conhecer a lista de contos e futuro download (porque vai querer!), clicando aqui.
 
Eu já tenho o meu, e você?
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

O Universo nos teus Olhos (J. Niven)













O segundo livro de Jennifer Niven, autora conhecida pela obra «Fala-me de um dia perfeito», aborda uma temática muito comum na camada adolescente: o bullying e o sentimento constante de não se ser aceite entre os pares.
 
Integrado no género YA (Young Adult), «O Universo nos Teus Olhos» é a história de Libby, uma jovem outrora obesa, situação essa potenciada pela morte súbita da mãe, e de Jack, o miúdo popular da escola mas que, em segredo, lida com a prosopagnosia, uma doença neurológica que lhe impede o reconhecimento dos rostos. Esta doença acarreta uma série de limitações sociais: a cada dia, todas as pessoas que aparentemente conhece, deixa de as reconhecer visualmente, adotando um sistema específico, como o reconhecimento da sua voz, algumas particularidades dos seus gestos ou roupas para se integrar, minimamente, no seu contexto escolar e familiar.
 
Libby, apoiada no conforto do seu quarto, na leitura de Shirley Jackson (bom gosto!) ou na companhia de Supernatural (bom gosto!), percebe que tão não será suficiente para si pois dentro daquelas quatro paredes a vida parece encolher, decidindo que é hora de dar passos em frente. Jack, do outro lado da rua, vive igualmente os profundos questionamentos que a adolescência determina, ampliando os seus desejos e, sobretudo, firmando as suas convicções, em nada congruentes com um grupo de amigos que não só não reconhece visualmente como, também, não lhe reconhece as atitudes.
 
Fruto dessas fragilidades emocionais, convicções e um acidente caricato, a vidas dos dois adolescentes acabará por se cruzar.
Juntos vão perceber que independentemente das limitações, sejam elas de que ordem, é possível traçar objetivos e, diariamente, trabalhar neles. Digam lá o que disserem.
 
O mais recente livro de Jennifer Niven, com uma forte componente autobiográfica, expõe os dramas da adolescência e o sofrimento inerente que tantos adolescentes vivem em contexto escolar. Aborda, igualmente, a importância da resiliência e, sobretudo, a esperança para superar as adversidades porque, no final, há sempre alguém que nos consegue ver tal como somos.
 
 
 
 
Esta leitura contou com o apoio da Penguin Random House Grupo Editorial.
 
  

sábado, 25 de março de 2017

Porquê?

 
"Diz-me: porquê que
eu tenho de ter um irmão tão chatinho?"
[O meu silêncio a rebentar de riso]
 
 
O Principezinho de 7 anos nas suas profundas (e sentidas!) divagações.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Estante de Serviço #8

 
 
Crítico, ser
__________
 
Pobby e Dingan
Ben Rice
 
 
É tentador, especialmente na juventude, ter opiniões instantâneas e fortes sobre os outros. Julgar, criticar, rotular - estas coisas, para uma mente imatura, podem parecer sinónimos de força e confiança. Mas ter opiniões firmes nunca deve ser confundido com ser crítico - que é a tendência para julgar uma coisa um pessoa baseado apenas numa qualidade ou atributo. Uma pessoa crítica insistirá, por exemplo, que todos os criminosos são pessoas terríveis, que todos os niquentos com a comida são maus na cama (parti-me a rir com isto!), e que todos os adolescentes são ingénuos e críticos.
(...) o que pode levá-lo a abafar o seu fogo crítico, é o pequeno livro de estreia de Ben Rice, Pobby e Dingan. Kellyanne, a irmãzinha mais nova do narrador Ashmol, tem dois amigos imaginários, Pobby e Dingan. Como seria de esperar de qualquer respeitável irmão mais velho - em especial alguém que cresceu na dura comunidade mineira de opalas de Lightning Ridge, na Austrália - , Ashmol não tem tempo para coisas tão infantis. E você teria, depois de anos a dizerem-lhe para pôr dois lugares à mesa para Pobby e Dingan e de lhe dizerem que não podia ir à piscina porque, com Pobby e Dingan no banco de trás, já não há espaço suficiente para si no carro utilitário?
Lá para o fim do romance, sim. Porque quando Kellyanne anuncia que Pobby e Dingan morreram, e fica tão doente com o desgosto que acaba por ir para o hospital, Ashmol faz uma coisa maravilhosa: anda por todo o lado na cidade a pôr anúncios a oferecer uma recompensa a alguém que possa encontrar os amigos da irmã («Descrição: imaginários. Sossegados»). E a partir desse momento você também irá querer ficar do lado daqueles que entram na fantasia da menina e não daqueles que desdenham.
Permaneça aberto. Há bom, mau, loucura e tristeza em toda a gente e não tem de condenar ou de acreditar em todos os elementos para ser generoso com o pacote inteiro. Isto também se aplica a si mesmo. Se, quando luta com um nova aprendizagem, tende a descrever-se a si mesmo como um inútil em tudo (ver: autoestima, baixa), comece por praticar uma atitude não crítica para consigo mesmo.


Este é um dos livros que ficará comigo para sempre. Foi lido num momento muito especial da minha vida e, lindo como é, instalou-se com as bagagens de uma vida.
Recomendo com a maior intensidade que possa ser possível. Tenho a presunção de lhe dizer que não, não se vai arrepender. Nem um bocadinho.

Boas leituras.

 
Em:
 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Palavras mal colocadas #3


Só pessoas altamente imbecis é que colocam uma palavra destas em frases como:
 
"Aquele homem é um cancro!"
"Mas que cancro!"
 [sobre um vestido, eu já ouvi]



Neste caso, só mesmo à estalada.
Desculpem lá.

terça-feira, 21 de março de 2017

Oh. Só um bocadinho...



"Eu já te disse que não tenho namorada!"
"Claro."
"Já te disse que não!"
"Aposto que os teus olhos se transformam em coração quando ela passa..."
"Oh. Só um bocadinho..."

 
Os homens apaixonados são uma beleza. Mesmo quando só têm 8 anos.

domingo, 19 de março de 2017

Receitas de Amor para Mulheres Tristes (H. Abad Faciolince)










Encantar mulheres tristes com receitas de amor é o propósito do autor.
Se conseguirá, ou não, dependerá sabe Deus do quê.
Não serei eu capaz de lhe dizer, caro leitor, o que fará uma mulher sair desse turbilhão de tristeza que lhe inunda o peito. Consigo dizer-lhe, isso sim, que Héctor Abd Faciolince criou um carinhoso livro de receitas que, pelo menos, acalentará o seu coração de mulher e ajudará ao homem mais astuto a perceber-lhe os sinais da falta de amor que lhe acusa por gestos subtis e palavras que não diz.
Ele diz, e eu subscrevo feliz da vida, como os homens são cobardes a amar.
 
Ele vai ensinar-lhe uma série de coisas que, muito provavelmente, estará farta de saber. Mas, cá para mim, entre saber e fazer-se valer dessas crenças, percorre-se uma significativa distância.
 
Não vamos mais longe com Faciolince, mas vamos mais protegidas, mais mimadas.
Protegidas nesse confronto de amar mal, de quem receia, de quem não se entrega, que espera o que não vem, que deseja o que não sabe, que quer e não quer, que desconhece e estagna na dor mensal que alguém lhe destinou.
 
Este belíssimo livro é a dedicatória mais pura às mulheres que podem até nem saber para onde vão, mas saberão, com toda a certeza, como fazer quando lá chegarem.
 
"Não escondas as tuas misérias: podes ter segurança com aquele que gosta dos teus defeitos, porque aos teus encantos e qualidades qualquer um se afeiçoa."
 
Bem haja, Héctor Abad Fanciolince!

sábado, 18 de março de 2017

Psicologia(s) #8

 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Contos de Assis

 
«A Chinela Turca» é o primeiro conto, de vinte previamente selecionados, de Machado de Assis, num dos livros mais recentemente publicado pela Relógio d'Água Editores: «O Alienista e Outros Contos».
Dos inúmeros contos escritos pelo autor, a Editora selecionou aqueles que considera serem os melhores. No livro estão apresentados por ordem cronológica o que nos permite analisar, em maior rigor, a própria evolução de Assis enquanto contista.
 
Não posso deixar de destacar, desde logo, o primeiro conto «A Chinela Turca». O humor que já me haviam falado, bem como a ironia de Assis, estão presentes neste pequeno conto.

Aqui serão narradas as histórias do bacharel Duarte e do major Lopo Alves. O último deseja que Duarte leia o seu mais recente trabalho, uma obra na qual deposita mundos e fundos de esperança enquanto escritor. Contudo, Duarte, jovem e apaixonado sonha apenas com o fim de uma visita inesperada - e em nada desejada - para que possa, finalmente, rever aquela por quem o seu coração chama desesperadamente. Cecília.

As horas passam e o desespero do jovem só aumenta perante as inúmeras folhas para ler. A noite avança e, no seu cadeirão, senta-se desmoralizado pela certeza de já não poder sair naquela noite.

Dizem que o desespero, sobretudo quando empurrado por um amor galopante, abre frechas na imaginação numa esperança vã de se lhe fugir. Assim surgirá, do nada, uma chinela turca, muito especial e, aparentemente, roubada pelo Duarte.

Não lhe contarei o resto porque é a partir daqui que este pequeno conto de Assis merece ainda mais atenção e dedicação do leitor. Não se coíba a lê-lo pois, no mínimo, diversão garantida terá.

Para iniciante que sou nas obras de Machado de Assis, penso que não poderia ter começado de melhor maneira.
 
O meu enorme bem-haja à Relógio d'Água Editores por esta oferta.
Novos contos de Assis em breve.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Simples

terça-feira, 14 de março de 2017

A Rapariga de Antes (JP Delaney)











Hoje falo-vos do livro de JP Delaney, «A Rapariga de Antes», uma história que tem alcançado uma onda gigante de sucesso, muita curiosidade e, acima de tudo, muitos leitores que se lhe tornaram fiéis.

JP Delaney, numa obra que levou 10 anos a ser construída, narra a história de três personagens principais, unidas por um ponto determinante: a enorme fragilidade emocional.

Há uma casa minimalista que parece encantar e concorrer contra todos os sonhos que não a assumam como sua. A casa é diferente, espaçosa, arejada e repleta da mais alta tecnologia.

O responsável é Edward, arquiteto de renome e que na casa vê uma forma nova de viver, controlada, sem desperdícios de qualquer ordem. A casa está disponível para arrendamento e é dessa premissa que teremos, então, uma teia de acontecimentos vertiginosos, sem aparente fim à vida.

Emma, fragilizada após um assalto, deseja a casa.
Jane, depois de ter um nado morto, deseja a casa.

Ambas, em espaços temporais distintos, desejarão a casa. E ficarão com ela, mediante candidatura e cabal cumprimento das mais inusitadas regras: não há livros, desprendimento dos seus objetos pessoais, entre outras que por muito irreais que pudessem ser, para fazer parte daquela casa, seria um pequeno inconveniente a suportar.

E elas suportaram, de coração já previamente partido, julgando a dor de um prisma diferente, de quem já não é novato nessas andanças de adversidades constantes.

O amor por Edward, o pai do lugar sereno que encontram, acaba por revelar tudo o que o leitor quer saber. Acredite, vai querer saber.

Não se trata de uma história de amor disfuncional, mas podia ser.
Não se trata de mulheres vulneráveis, submissas a um aparente sociopata, mas podia ser.
E se eu lhe disser que não é nada disso e é tudo isso, ao mesmo tempo?
 
Ao longo da leitura, o leitor terá a oportunidade de questionar, não só, quem foi a rapariga de antes, mas igualmente parar para pensar na fragilidade humana, no desejo de ser amado e cobiçado e, até que ponto, a necessidade de marcar uma posição - seja lá ela qual for - assina uma espécie de legitimidade para as condutas mais infundadas.
 
Recomendo esta leitura, não pela originalidade do tema, que a tem, mas sobretudo pela dinâmica das personagens envolvidas que, com uma aparente fragilidade, nos condiciona as certezas de leitor fazendo-nos, só muito mais tarde, recuperar o sentido de todas as coisas que envolveram a rapariga de antes e o que, com ela, veio depois.


Chega às livrarias já no próximo mês.
Boas leituras!

domingo, 12 de março de 2017

Palavras mal colocadas #2


 
Aqui trata-se de uma palavra e da pontuação que se lhe junta.
Existem pessoas que depois de lhe dizerem, por exemplo, algo como "Hoje vou chegar um pouco atrasada" ou  "Não gosto muito disso...", dizem um "Desculpa?"
Ou melhor ainda:
"Sabias que  X enganou Y?"
Desculpa?!
 
Mas desculpa o quê, mesmo?

sexta-feira, 10 de março de 2017

Porque não dá


"Eu estou apaixonada por ele. E ele por mim.
"Então porquê que não namoram?"
"Porque não dá."
 
Os amores (bonitos e intensos!) na adolescência.
 

quinta-feira, 9 de março de 2017

Quando ela era boa (Philip Roth)




Philip Roth, com esta história, mostra-nos o ponto máximo em que a moralidade de uma mulher a pode levar a um declínio sem fim. Parece um paradoxo, isto, o de fazermos tudo certo na vida, de atravessarmos sempre na passadeira, de sermos educados, firmes, corretos, delinear as trajetórias pelas leis de uma sociedade que cresceu a impor limites, para no fim, morrermos por dentro à custa de um coração atormentado pelo que tem de calar. Ou não.
 
«Quando ela era boa» retrata a história de uma família americana, num seio humilde, primeiramente narrada pelo avô Willard, que nos contará todos os esforços para erguer e formar a família que sempre desejou, longe de controlos e agressividades à imagem de um pai que sempre rejeitou. Da sua filha adorada, Myra, nascerá Lucy Nelson, personagem principal do enredo.
 
Quando o pai de Lucy não consegue sustentar a família e quando, em conjunto, decidem que o melhor será o avô Willard os receber em casa (só durante uns meses, Berta!), os problemas familiares começarão a rachar como fissuras em paredes. Os problemas emocionais e a infantilidade de um homem que não quer, aparentemente, crescer, empurram-no sempre para as tabernas mais próximas, encharcando-se de álcool e empanturrando os punhos na cara de Myra.
 
Um dia, Lucy, exausta pela passividade e bondade de um avô que sonha com um mundo que não existe, chama a polícia. Enfim, os problemas serão sanados, para sempre.
Mas a tal moralidade exímia nesta menina, depois mulher arguta e determinada, só lhe mostrará que, afinal, tudo o que faz numa tentativa de remediar o que de certo nada tem, só se virará, como um Diabo, a arder na sua própria direção.
 
Que lhe valha um Deus desconhecido. Começa, então, a refugiar-se na religião e numa crença divina de que, um dia porém, alguém perceberá as suas ações e que na verdade, ela é boa. Os outros não.
 
A leitura deste livro, por momentos, pode tornar-se desesperante: pela linha temporal, ao percebermos o desenvolvimento desta menina até se tornar mulher e no flagelo que lhe assiste, sempre, na culpa motivada de um passado que teima em não se apagar.
 
A correr contra tudo e todos, a Lucy mantém, ainda assim, essa esperança vã assistida por qualquer um de nós: quer ser amada, quer ser apreciada, quer ser cuidada e protegida. Que raiva sentiu, quando Roy lhe disse que poderia rasgar o retrato que um dia lhe tirou. «Não está assim grande coisa!»
Bastou. Bastou uma fúria para dali nascer um aparente amor. Terá sido mesmo amor ou necessidade de se fazer amar?
 
Este livro merece ser lido sem grande arnês. Não lhe vou contar o que se seguirá, mas sim, Lucy, na sua tentativa de fazer aquilo que considera correto, tentará também fazer de Roy o homem em que ela acredita estar destinado. É a partir daqui que todos os fantasmas da menina que foi voltarão a emergir, provando que o livro de Roth, mais do que as fragilidades pessoais que invoca, é um retrato fiel e soberbo sobre o quanto a família se poderá transformar num vórtice determinante das nossas ações. Boas ou más, claro está.
 
Gostei muito.

Intimidade

 
  Em homens duros a intimidade é questão de pudor
- e algo de precioso.
Nietzsche
 
(Se o Nietzche diz...)

terça-feira, 7 de março de 2017

Paris

 
 A memória é a consciência
inserida no tempo.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 3 de março de 2017

Palavras mal colocadas #1

Não. Não me fico pelo «delicioso» das palavras mal colocadas. Há mais por aqui, que me vão irritando.
Vejamos a próxima:

 
Frases de aplicação da dita:
 
"Linda que dói"
"Feia que dói!"
"Tão bom que dói!"



Isso mesmo.
Vou ali irritar-me e já volto.

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Arte da Vida (Zygmunt Bauman)













Oportunidade feliz é a de qualquer pessoa a que lhe venha cair este livro nas mãos.

Mais do que centrar-se no tema da procura da felicidade, este ensaio é um estalo de luva branca a muitas das condutas, aparentemente, ilusórias dessa tal procura.
 
Desde a clássica riqueza como condição básica à felicidade e à prontidão das necessidade mais requintadas, o autor aponta o dedo - e teorias! - sobre o que realmente importará na vida, numa sociedade a quem casou o conhecido termo de modernidade líquida.
 
Citando Laura Potter, hoje, parecemos viver num culto da pressa dos dias, esperar é uma afronta e um estar fora de moda. Olhar o relógio vezes sem conta, bufar de tédio, transmitindo essa importância de quem muito tem de fazer, prevalece numa sociedade que derrama importância de afazeres que, no fim de contas, penso eu, ninguém sabe explicar muito bem:
 
"Vivemos numa era em que "esperar" se transformou num palavrão. Gradualmente erradicámos (tanto quanto possível) a necessidade de esperar por qualquer coisa, e o adjectivo do momento é "instantâneo". Já não podemos dispensar uns meros doze minutos para cozinhar uma panela de arroz, de modo que foi criada uma versão de dois minutos para micro-ondas. Não podemos esperar que a pessoa certa apareça, de modo que acelerámos os encontros..." p.17

A tudo se exige, então, que para ser rentável, para valer a pena, tenha de ser rápido. Não pode dar trabalho, não pode requerer investimento e muito menos, o risco de sofrer.

 "Os relacionamentos "novos e aperfeiçoados", "de compromisso ligh", reduzem a sua duração prevista para que esta coincida com a duração da satisfação que produzem: o compromisso é válido até que a satisfação desapareça  ou desça abaixo de um padrão aceitável - e nem mais um instante." p.29
 
E a vontade de fazer pelo outro? O reflexo do outro e a vontade de se investir por nós e pelo outro? Parece uma mera abstração, apenas.
A leitura deste livro exalta, de uma forma muito clara, os diferentes pensamentos que vão entre a procura da felicidade pelo seu próprio umbigo e, por outro lado, numa perspetiva onde o investimento mútuo e a esperança (ainda) parecem ter lugar.
 
É de tamanha urgência refletir sobre estas temáticas mesmo que nos pareçam normais. Os tempos vão-se alterando, seguindo com eles a máxima de que tudo é normal e vai bem. Irá mesmo?
 
A leitura deste livro permite, na minha visão pessoal, exaltar uma máxima cada vez em maior desuso: a esperança na capacidade de investir e esperar.
 
As teorias tão distintas de Niestzche e Levinas, tão magnificamente confrontadas pelo autor, deixarão qualquer leitor (pelo menos é essa a minha esperança) aflito na pressa de chegar a algum lugar que melhor o defina enquanto empreiteiro na construção da sua própria felicidade: de si para si, enquanto único poderoso, alérgico à compaixão ou, por outro lado, no reflexo do ser para os outros?
 
Será tudo uma questão de conquistas pessoais ou, no final de contas, a felicidade andará, tão só e apenas à procura - também ela - de um amor capaz?
 
"O amor (...) abstém-se de prometer um caminho fácil para a felicidade e para o sentido. O "relacionamento puro" inspirado pelas práticas consumistas promete esse tipo de vida fácil, mas, pela mesma razão, torna a felicidade e o sentido reféns do destino.
(...) sem trabalho duro, a vida não ofereceria nada que a tornasse valiosa. Dois milénios depois, a sugestão não parece ter perdido a atualidade."p.176

Magnífico.