Miúdos a fumar

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019


Desde miúda que sou defensora de práticas saudáveis, seja através da alimentação, seja através do exercício físico. A máxima de que quem cuida do corpo, cuida da alma também.
Não deixo de me chocar, e o termo é mesmo esse, quando vejo - como nesta manhã - miúdos e miúdas de cigarro na mão, caminhando descontraidamente e com um ar de superioridade que me estranha. Eu visualizo (literalmente!) aqueles pequenos pulmões a mirrar como ameixas secas, pretos, nublados, a enfraquecer. [Horror]. Aqui entre nós, é esse tal ar de superioridade que ativa em mim a irritação desnecessária que só passaria com umas boas palmadas naqueles rabos.
Vão lavar os dentes. E já agora, não se esqueçam de tomar o pequeno-almoço!
 
 

E com isto chego à conclusão que estou a envelhecer depressa. Rabugenta.
[Risos]
 
 
 
Seja feliz, seja saudável, cuide de si!

Introdução ao vegetarianismo

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


"Não era tanto o facto de comer carne que desagradava a Eun-sook; o que lhe dava realmente a volta ao estômago era ter de ver a carne a assar na chapa. Quando o sangue e os sucos vinham à superfície, tinha de desviar os olhos. O mesmo sucedia quando um peixe estava a ser grelhado ainda com a cabeça. Aquele momento em que se formava uma espécie de humidade à volta das órbitas paradas que começavam a derreter-se na frigideira, quando um fluido aguado com laivos de espuma cinzenta pingava da boca escancarada, aquele momento em que ela tinha sempre a sensação de que o peixe morto estava a tentar dizer alguma coisa. Aí, tinha invariavelmente de desviar os olhos."

 
Han Kang em "Atos Humanos"
(com um pequeno aroma da «Vegetariana»)
 
 
Depois desta leitura, creio que é momento de deixar de comer carne.
 
Seja feliz,
 

Os Bebés da Água (Charles Kingsley)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019


Charles Kingsley foi um romancista inglês nascido em Dartmoor no ano de 1819. Do que li sobre o autor, e sobre este livro em particular, a escrita de Kinsley destaca a sua capacidade descritiva. A sua obra reflete igualmente o interesse do autor pelas questões sociais, este aspeto, largamente sublinhado neste «Os Bebés da Água», um conto de fadas sobre Tom, um menino limpa-chaminés.
 
Nesta peculiar história conheceremos então o jovem Tom, sem mãe (falecida) e sem pai (ausente), que obedece às ordens do severo Grimes. Tom é espancado diariamente, trabalha de sol a sol, não conhece a cor da sua pele, esta, sempre escondida pelo negrume das limpezas que todas as chaminés lhe exigem.
 
É um menino triste, solitário e inocente. Obedece porque sabe ser o certo na tentativa de apanhar menos estalos e pontapés do sempre mal humorado, e ambicioso, Grimes.
 
Um dia, após serem chamados a fazer a limpeza na grande casa do Sr. John, homem de elevado estatuto social naquelas redondezas, a vida de Tom prevê uma mudança radical. Ao entrar na enorme mansão, percorrendo as chaminés e fazendo todo o trabalho sujo que Grimes evita, Tom acaba por se perder, indo cair ao quarto de uma jovem menina, Ellie. O menino ficou estupefacto: pela primeira vez na sua vida percebeu que a cor da sua pele não era aquela. A branquidão e a limpeza de Ellie suscitaram em Tom uma raiva inconsciente, apenas visível pelas suas faces agora coradas. Ao mesmo tempo encantado e triste pela beleza da menina, Tom deixou-se ficar quieto no grande tapete, contudo, o estrondo da sua queda acordou Ellie que, também ela estupefacta, gritou assustada.
 
Os gritos ecoaram pela casa e numa cadeia progressiva tomada pelo medo dos presentes, consideraram Tom um ladrão. Correu sem parar, saindo da casa, e galgando ruas e florestas. Ninguém o conseguiu apanhar e o jovem rapaz, tomado de um enorme cansaço depois de descer todo aquele inacreditável monte, encontrou uma professora com os seus alunos. Após o choque inicial, a bondosa senhora deu-lhe de comer e um lugar onde pudesse repousar.
 
Eis o momento em que tudo muda. O cansaço de Tom fê-lo adormecer e ao acordar tornara-se num bebé da água. Claro leitor, nem ouse desacreditar deste convicto narrador. Os bebés da água existem, as fadas igualmente, tudo aquilo que não se vê tem uma vida por descobrir:
 
"Fica sabendo que as coisas mais maravilhosas e fortes que há no mundo são precisamente as que ninguém consegue ver. Há vida em ti; e é a vida que há em ti que te faz crescer, bulir e pensar, embora a não possas ver. Há vapor numa máquina a vapor; é isso que a põe em movimento, embora não o possamos ver. Devem portanto existir fadas neste mundo; e é bem possível que sejam elas quem faz o mundo girar, segundo reza a velha melodia: C'est l'amour, l'amour, l'amour qui fait le monde à la ronde."
 
Assim começa uma aventura que não deixará ninguém indiferente. Tom percebe que algo mudou, a sua pele agora é limpa, alimenta-se das mais especiais iguarias, é livre, pode vir a ser feliz. Não acredite, porém, que ser um bebé da água é ter uma vida plena só porque sim. Enganem-se todos aqueles que acreditam que a vida flui sem antes se preparar o coração. E será essa a aventura destinada a Tom: por entre mundos estranhos, criaturas assustadoras, cenários abstratos, será conduzido por fadas - também elas a desempenhar papéis muito definidos - a descobrir o melhor de si mesmo e que esse melhor, esse coração finalmente arrumado em caixa de veludo, carece de alguns sacrifícios. Alguns, muito difíceis.
 
Charles Kingsley, através de uma parábola, faz-nos chegar uma sublime crítica social e moral em que a complexidade humana é assunto de ordem do dia sem, no entanto, destacar a esperança como palavra final.
 
 
Gostei imenso desta aventura. Se é destemido, se acredita no poder dos corações arrumados, dos sonhos, da crença em geral, esta aventura também é para ti. Vá vivê-la!




Ilustrações de W. Heath Robinson
(lindíssimas!)




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Seja feliz,
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