domingo, 16 de dezembro de 2012

Viagens no Scriptorium (Paul Auster)

Se pudesse escolher, muito provavelmente cederia. Cederia por ti. Cederia em me tornar nessa boneca fabricada numa loja onde explodem tantas quanto eu e, nas tuas mãos, sou a história feita por ti. Sim, se pudesse escolher, seria esse ser sem alma. Sim, seria. Pois não daria qualquer trabalho, não exigiria nada que não fosse receber esse teu amor ganancioso, levado pela raiva que um dia plantei na tua, outrora, alma genuína.
Tudo isto não passa de um jogo de trocas. De um "toma lá, dá cá". De uma série de perguntas e respostas, de caminhos, de partidas e chegadas a quem dá e a quem não dá. E a resposta, severa, sobretudo, a quem não deu e por isso, cedeu a perder a alma para sempre.
Aqui neste quarto, não sou mais do que a obra por ti criada, na consequência daquilo em que te tornei.
E neste jogo, nesta crueldade de dados, por muito alto que se atirem, ninguém sai vencedor.
 
 
Ao som de: ... um magnífico silêncio.

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