domingo, 5 de outubro de 2014

Stoner (John Williams)

 

Este livro carrega em si mesmo uma história ainda antes de ser aberto.
 
Foi publicado em 1965 e caiu no esquecimento - tal como o seu autor, John Williams, também ele um obscuro professor universitário. Passados quase 50 anos, porém, o mesmo cego amor à literatura, que movia a personagem principal, levou a que a escritora francesa Anna Gavalda traduzisse o livro perdido. (...) escolheram Stoner como melhor livro do ano.
 
Uma realidade que só comprova que um livro vive para sempre e que, na vida, tudo tem o seu momento certo. Ao que parece, o momento de William Stoner era agora e ainda bem que o leitor teve a oportunidade de o conhecer dado que estamos, efetivamente, perante um livro de tamanha sensibilidade, cuja solidão da personagem principal se torna incapaz de não tocar o mais destemido.
 
«Stoner» é o nome do jovem que se torna professor assistente universitário depois de concluída a sua licenciatura em Letras da Universidade do Missouri.
Inicialmente, criado numa quinta com uns pais apagados como a própria terra que trabalhavam, estes, decidem encaminhar Stoner para a universidade, para a Escola Agrária, a fim de se tornar mais capaz, futuramente, de assumir os seus passos começados.
Stoner assim faz, inicialmente. Mas um dia, confrontado por um estranho professor, de caráter forte, sente-se impelido por uma força inexplicável ao estudo da literatura, que mal compreende e que puxa por si a cada página que folheia.
 
Levado pela corrente, desiste de tudo o que ali o trouxe, deslizando pelos estudos e conhecendo, agora, um conforto calmo e seguro que a literatura, aos poucos, lhe começava a garantir na solidão e quietude do seu pequeno quarto.
Iniciava-se assim uma nova descoberta para Stoner que, gradualmente, se tornava conhecedor exímio da sua nova área de tudo.
Paralelamente, os anos de licenciatura reclamavam o seu fim e com ele, o confronto doloroso de uma notícia que os pobres pais não esperavam encontrar.
 
Adeus quintas. Adeus vidas planeadas. E um olá a uma vida nova rodeada de livros, de uma literatura desejada e desconhecida até então. E depois, o amor. Veio de repente, sem avisar, e desesperado tentou encontrar, sem jeito, formas de o verbalizar e tornar real. Edith tornou-se sua esposa, mas torna-se rapidamente a mulher cinzenta que perpetua toda a vida de Stoner. Uma mulher refinada, de famílias ricas, com outros planos, vê em Stoner a razão de ser da sua vida miserável e o obstáculo certo de jamais conhecer o mundo como desejou, entre tantos outros sonhos concebidos a uma luz ténue.
O amor que Stoner lhe guardava não poderia, jamais, sobreviver sozinho. O desejo pelo seu corpo, unilateral, acabou por se extinguir após a gravidez de Edith e o nascimento de Grace. O novo amor de Stoner, que cuidou da filha nos primeiros anos da sua vida, enquanto Edith semeava novos ódios de estimação ao marido, entre doenças imaginárias e isolamentos obsessivos.
 
A vida de Stoner é assim marcada por situações de desamparo, quer na família como nas amizades, pautadas por poucos amigos, estes, assinalados em meras marcas de água. Sem relações profundas, onde se não fala realmente o que se quer falar.
Os anos vão passando e as questões urgentes começam a surgir em si mesmo. Até onde a vida o está a levar realmente. O que esperava ele, realmente?
 
O livro assenta, assim, na urgência que a literatura e o emprego assumem na vida deste homem peculiar e absurdamente solitário. É a ética que o define, a ponto de semear inimizades e apontar de dedos, que não o afligem nem tão pouco o fazem mudar opiniões, sempre firme e consciente da necessidade de se manter fiel à arte do ensino, do ser professor. Da literatura. Mas o tempo continua a passar e percebe-se uma mudança em Stoner, um abatimento inexplicável que o arrasta pelos corredores da Universidade. Algo mudou e essa mudança é igualmente justificada pela ausência da ética por si defendida, pelo seu amor ao ensino, e por políticas universitárias vingativas.
 
Nesse trajeto nebuloso, Stoner conhece Katherine. O amor que deveria definir a sua relação com Edith, é antes vivida nesse amor fresco, sem entraves, como o amor verdadeiro é. Sem entraves, porque acontece e flui, assim. E pronto.
Esta passagem é uma das mais belas do livro, de uma enorme sensibilidade, mostrando o que de melhor Stoner amealhou ao longo dos seus dias: «Tal como todos os amantes, falavam muito sobre si próprios, como se pudessem assim compreender o mundo que os tornava possíveis».
 
Acredito que é esta a essência do livro, sobretudo, esta: a procura da felicidade, do amor, e da nossa marca na vida. O que esperamos nós da vida? O que esperavas tu, Stoner?
No fim restou o mais importante. Restou o livro.
"Os dedos perderam as forças e o livro que eles seguravam deslizou devagar, e depois mais depressa, sobre o corpo imóvel, e caiu no silêncio do quarto." (p.256)
 
 
 
Mais do que recomendado. Boas leituras.
 
 
Ao som de: Sam Smith "Stay With Me"

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