O Diário perdido de Don Juan (Douglas C. Abrams)

domingo, 11 de janeiro de 2015


Quem me sabe explicar o amor? Do que é feito? Tem ingredientes específicos? Há uma junção perfeita, uma situação, alguma coisa que o paralise no tempo e o torne, assim, pau para toda a colher? Na medida certa de cada um. Na medida de cada desejo. Na medida de cada "nós" que vai formando, na malícia premeditada com que os apanha desprevenidos? Sim? Não? Talvez?
Então, quem me explica o amor?
É feito de momentos, disseram-me um dia. Momentos como um almoço desprendido. Um jantar de vestido azul. Trocas de segredos, aqui e ali. Ou um riso parvo acolá.
Também me disseram que, afinal, não é nada disso. Que deveria ter comido alguma coisa estragada, num prato trocado, pois nada daquilo fazia sentido. Teria eu visto o amor de esguelha num dia de muito sol? Como quando o olhamos muito atentamente, fechamos os olhos e só há bolinhas brilhantes num fundo preto? Hmmm, provável. Muito provável porque acabaram por me contar que o amor também dá alucinações. Aqui e acolá.
Depois fiquei muito confusa a tentar encontrar respostas onde não as poderia encontrar. Foi quando conheci Don Juan. Num cavalo preto, a fugir da fogueira, dessa Inquisição, e dos seus pecados que pareciam não ter fim.
O Don Juan de coração grande. Que amava todas e mais algumas. No seu coração habitava o altruísmo de amar cada mulher, para não se sentir triste ou a mais. Na sua cabeça, o amor residia numa sala de porta aberta, onde a lógica se misturava com esse coração grande, de quem ama numa matemática bondosa, sempre a somar pontos desejados de ambos os lados. Uma máquina perfeita, sem hipótese de erro.
Portanto, assim aprendi que o amor seria uma espécie de fórmula em que se somavam desejos, subtraíam-se necessidades e multiplicavam-se histórias engraçadas para Don Juan contar a amigos que, secretamente, desejariam - como ele - subir janelas a altas horas da noite, roubar o sossego das donzelas e arrebatar corações outrora sossegados.
Lembram-se dos almoços e jantares desprendidos?
Lembram-se do olhar cheio de bolinhas brilhantes num fundo escuro, de tanto firmar o sol, distraídos com pensamentos de um só nome? Insisti com essa ideia de amor, ingénua.
E eis que Don Juan surpreende tudo e todos.
O amor é, afinal, aquilo que eu sempre soube.
 
E o coração do Don Juan encolheu como uma ameixa.
 
 
 
Um livro lido já há um bom tempo mas que merece destaque pela bravura dos tempos, pelo toque histórico que encerra e, sobretudo, pelo amor que invoca.
 
 
 
 
 
"É mais fácil perceber como voa um avião
É mais fácil antever a chegada de um tufão
Do que achar num manual instruções para deslindar os novelos
da paixão"
 
(Mão Morta | Novelos da Paixão)
 
 
 

2 comentários:

Isaura Pereira disse...

Olá Denise,

Ainda não li nada de Mário Zambujal. Já ouvi falar tão bem dele que decidi que este ano teria que ler algo dele!
Este livro não conhecia. Parece bom!

Beijinhos e boas leituras!

Denise disse...

Olá Isaura,

Sim, Mário Zambujal é obrigatório. Depois de ler «Dama de Espadas» quero conhecer tudo do autor :)

Beijinhos e boas leituras!

CopyRight © | Theme Designed By Hello Manhattan