quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Revolutionary Road (Richard Yates)


Esta é a história de April e Frank, um casal sombrio e infeliz que longe está de saber o que é amar realmente. São 285 páginas de um longo e penoso caminho a incidir sobre as mágoas e apontar de dedos lastimosos de quem não sabe nada de si mesmo e se procura nas fraquezas um do outro. E que disso depende para sobreviver.
 
Richard Yates supera-se num livro que aflige com tamanha dependência emocional nestes dois personagens que, de certeza absoluta, serão difíceis de esquecer.
 
Se me perguntarem, concretamente, sobre o que retrata este livro, pondero um pouco e depois talvez me arrisque a dizer-vos que fala sobre as distorções do amor. Sobre a procura de si mesmo através do amor de alguém.
 
Ambas as personagens estão destroçadas e viradas do avesso. Com passados familiares disfuncionais, ambos vivem perdidos na esperança de se encontrarem num futuro que tarda em chegar. Tanto April como Frank vivem iludidos num mundo que não surge diante dos olhos, resignando-se à realidade que vai surgindo, e que com ela traz os filhos que nenhum dos dois desejou.
"Que raio de tipo de vida era este? Qual, por amor de Deus, é que era o objetivo de uma vida como esta?" (p.57)
Frank questiona-se e rebela-se contra um mundo que nunca compreendeu a sua genialidade. April resigna-se a um mundo dos subúrbios, de dona de casa, quando a vida lhe havia dado promessas cheias da atriz certa que sonhou ser.
 
Nesta ambivalência de inseguranças de um Eu que parece nunca se formar, nem tão pouco aceitar-se, dois outros casais vivem à margem de April e Frank. 
De fora, há uma imagem irrepreensível que tanto os Campbells como os Givings necessitam para incluir nos buracos negros das suas próprias vidas.
 
Estamos perante um livro de pesada tristeza e que angustia pela capacidade que muitas vezes temos em renunciar a tudo aquilo que nos pode, de facto, fazer feliz.
Será preguiça? Será moleza de espírito? Será fraqueza?
 
Alguma coisa é.
Esse vazio sem esperança que Frank invocara tantas vezes.
 
 
Por fim, sem mais estrada por onde se possa correr, o vazio parece, afinal, a única paragem possível.
 
 
Se eu já idolatrava Richard Yates, depois de ler «Revolutionary Road», o autor mantém-se (ou eleva-se!) como um dos meus autores de eleição.
Em 2008 vi o aclamado filme com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet mas estranhamente não me recordava de praticamente nada da história.
Deixo o trailer:
 
 

7 comentários:

Beatriz disse...

Gostei bastante do livro.
Bastante intenso e por vezes bastante doloroso. O Adeus a Berlim do mesmo escritor também é bom, apesar de muito diferente.
O filme nunca vi.
Boas leituras :)

Denise disse...

Olá Beatriz :)

Gosto imenso de Richard Yates!
Falta-me apenas ler um livro do autor editado em português: «Jovens Corações em Lágrimas». Depois terei de me aventurar na leitura em inglês. Tenho muita curiosidade pelo «A Good School» e tantos outros.
O que referes não conheço como sendo do autor... tenho de pesquisar!

Beijinhos e boas leituras!

Beatriz disse...

Ahhhh, que confusão... desculpa.
Apesar de ser um bom livro, é de um escritor diferente. Christopher Isherwood.
Desculpa mais uma vez

Denise disse...

Ahhh! :)
Então era o livro que estava a pensar. Nunca li, tenho de o considerar.
Não há problema, assim surgiu mais um livro que certamente valerá a pena!

Muitas leituras!

Célia disse...

Adorei o "Revolutionary Road", que na minha opinião se torna brilhante pela escrita de Richard Yates. Depois li "O Desfile da Primavera" e não gostei lá muito, para ser sincera. Tenho por ali o "Onze Tipos de Solidão" mas ainda não lhe peguei. Há algum dos que ainda não li que recomendes particularmente? :)

Denise disse...

Olá Célia! :)

Richard Yates foi uma das minhas recentes e felizes descobertas, gosto mesmo muito. Curiosamente, um dos seus romances que mais gosto é "O Desfile da Primavera", não sei se por ter sido o primeiro e por me ter rendido à escrita sem mácula de Yates.
Recomendo "Perto da Felicidade", um livro igualmente muito aclamado, pequeno mas com uma grande mensagem e com as cinzentas personagens que nos acostumou :)
Falta-me ler «Jovens Corações em Lágrimas», editado em português, e depois vou começar a desbravar os livros no original, sobretudo «A Good School», muito curiosa sobre esse em especial!

Adoro o teu blogue! Há muito que vou seguindo atentamente :)
Beijinhos e obrigada pela visita.

Célia disse...

Obrigada pela recomendação, os livros deste autor costumam estar a um preço muito apetecível na Feira do Livro e por isso acho que vou aproveitar.

Quanto ao meu blogue, obrigada. É sempre bom saber que gostam :)