Submissão (Michel Houellebecq)

domingo, 21 de fevereiro de 2016


















Quando comprei este livro os rumores sobre ele eram muitos. Segundo se comentou na altura, este foi o melhor livro de 2015. Talvez persuadida pelo entusiasmo e burburinho criado em torno dele, submeti-me a este pequeno capricho.
Valeu cada cêntimo. Valeu cada minuto que lhe dediquei.
Não vou esquecer, tão cedo, Michel Houellebecq.
 
Houllebecq consegue ser frio, sarcástico, cómico e emotivo, tudo isto de uma assentada só, através de poucas personagens e, sobretudo, através de François, professor universitário, estudante e seguidor da obra do escritor francês Huysmans (igualmente crítico de arte e muito associado ao naturalista, e fantástico, Émile Zola).
É através da sua melancolia, saudade inexplicada, ausência de ambições e de amor, que o autor projeta o busílis da sua obra, que mais do que um livro sobre o Islão, é uma sublime crítica ao declínio do Ocidente.
 
É um livro que através de uma pessoa, e de umas poucas mais, traz a lume temas como o amor, a política e a religião, sendo as duas últimas cravadas na história como determinantes para um futuro que se avizinha tortuoso, disfuncional e, cada vez mais, distante daquilo que conhecemos.
 
Independentemente da marca do futuro que o autor pinta, este livro é sobre o presente. É uma nítida chamada de atenção para a inércia, a monotonia, os braços cruzados e bocas que calam.
É através do comando de um país (França) pela mão de um presidente muçulmano que Houllebecq demarca assuntos que requerem a atenção do mais desatento. Num virar de página, as maiores conquistas são perdidas, como a igualdade dos géneros e o acesso à educação.
 
Dá que pensar.
«Submissão», palavra que em árabe significa Islão, é um livro que contém em si não apenas um país, mas o retrato das muitas pessoas (de um pequeno mundo, diria?) que adormecem perante as leis improváveis de um povo.
Submissos a um Deus porque sim. Apenas porque sim, e nada mais.
 
"(...) O Islão é afinal a única religião que proíbe toda e qualquer tradução para uso litúrgico; porque o Corão é inteiramente composto por rimas, ritmos, refrãos, assonâncias. Assenta nesta ideia, a ideia básica da poesia, de uma união da sonoridade e do sentido, que permite dizer o mundo."

6 comentários:

Carlos Faria disse...

Ainda não o comprei, tenho estado hesitante, mas na verdade todas as pessoas que melhor conheço em termos de apreciarem literatura e que o leram dizem que vale a pena. A Denise foi mais uma no mesmo sentido.

Denise disse...

Olá Carlos!

Da minha parte, recomendo o investimento! :)
Gostei imenso.

Recomendo muito, muito!

Beatriz disse...

Para mim é um pensador. Já o leio há vários anos.
Há quem se queixe da sua visão negra mas o que me parece ao ler os seus livros é que ele nos mostra o mundo/as pessoas/as relações da forma que são (em grande maioria), com tudo o que isso tem de feio. Mas também vejo que há pena em que as coisas sejam assim.

E este último livro contém muita verdade.

Denise disse...

Precisamente, Beatriz.
É a primeira obra que leio do autor, mas vou ler outras com toda a certeza.
Gostei de tudo, desde a escrita ao modo como expressa os seus queixumes tão certeiros. Muito bom.

Boas leituras! :)

Patrícia disse...

Tenho muita curiosidade. Mas é um livro de extremos, acho que há tanta gente que detesta como que adora. Cada vez fico mais curiosa.
Boas leituras
Pat

Denise disse...

Sim, Patrícia.
Tenho também constatado esses extremos nas opiniões. Eu cá fiquei maravilhada com a escrita limpa e seca do autor. Direta ao ponto onde mais dói.
No que a mim me diz respeito, só te posso recomendar. E muito! :)

Boas leituras!

CopyRight © | Theme Designed By Hello Manhattan