quarta-feira, 28 de junho de 2017

As Oito Montanhas (Paolo Cognetti)

A amizade mais bonita de todas é aquela que pouco ou nada pede. Que existe, assim, simplesmente. A história de Paolo Cognetti, mais do que amizade, fala-nos das fragilidades do ser humano nessa capacidade de amar, dar e ceder.
 
«As Oito Montanhas» retrata a história de amizade de Pietro, menino da cidade, e de Bruno, o menino que sempre viveu nas montanhas. A amizade entre os dois é concebida nas linhas frágeis da infância e que se adensará pelas linhas, agora do tempo, cada vez mais consistentes e seguras de si.
 
Nenhum deles poderia jurar a pés juntos que uma amizade delimitada pelo tempo, perpetuaria pela vida fora. E é aí que me forço a repetir o quanto as amizades mais bonitas são aquelas que pouco ou nada pedem. Estão lá, firmes como um guarda-chuva. Versátil em qualquer estação do ano.
 
Enquanto Pietro, desde jovem, viverá o peso de não ter partilhado o sonho do seu pai, escalando montanhas e amontando aventuras; Bruno viverá cercado dos medos da cidade, das pessoas com quem não lida mas, sobretudo, nesse anseio de quem só encontra paz na solidão de si mesmo.
 
Chegará o momento em que Pietro, fruto da discórdia latente com um pai que parece gravitar e condicionar a vida de uma família inteira, se afasta da montanha e de todas as memórias que aquela lhe ofereceu. Aprenderá, numa jornada solitária, o medo intrínseco de amar. Pietro será um eterno solitário, vagueando pela vida, procurando respostas, precisamente, no lado oposto das questões.
 
Será a morte do pai a trazê-lo de volta à montanha, à vida e a Bruno.
Numa simbiose perfeita que só o tempo sabe tecer, os dois rapazes continuarão, agora, a crescer na solidão da montanha, na construção de uma casa, como sonhou o seu pai, e na compreensão de um tempo que passou, mas (ainda) possível de resgatar.
 
O aclamado livro de Paolo Cognetti vem afirmar a necessidade de voltar aos lugares da infância que nos asseguram uma esperança incólume. Mais que não seja, pelas memórias antes construídas.
 
Um livro maravilhoso, narrado numa espécie de semi-obscuridade em que nem sempre é necessário explicar, tim tim por tim tim, as demandas de um coração desordeiro.

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