sábado, 5 de julho de 2014

O Homem que perseguia o tempo (D. Setterfield)


Li sobre Diane Setterfield no blogue do Manuel (.Dos Meus Livros) sobre o seu livro "O Décimo Terceiro Conto", que ainda não tive oportunidade de ler.
Sobre «O Homem que perseguia o tempo», impelida pelas boas críticas que lera sobre a autora, não pensei duas vezes e comecei a leitura deste que é o seu segundo livro.
Estamos perante a história de um homem que, de facto, perseguiu o tempo, correu com ele numa velocidade que lhe valeu, nesse intermédio, a perda dos atletas. Os que muito correm, acabam por perder o tempo que fica entre os passos apressados na busca de algo urgente, que nessa pressa de chegar, acabam invariavelmente por esquecer, fatidicamente, o destino a que se propuseram. O objetivo. A causa. A questão.
É um livro sobre a vida. Sobre os dias. Sobre a morte. Sobre os momentos que nos marcam para sempre e a memória que teima em ser fraca, naquilo que realmente deveria prevalecer.
William Bellman parecia estar destinado ao sucesso de uma vida. Tudo se encaminhara assim. E ele, certo disso mesmo, carregou em si o peso de fazer brilhar o sol, se assim fosse necessário. Destinado a grandes feitos, como diriam os mais atentos aos seus investimentos certos de enormes lucros, trabalhou sem parar. Sucesso seria, assim, a palavra de ordem e que ditava os passos seguros, e indiferentes, de William.
Também indiferente e ausente foi a sua tradução dos dias, e das coisas.
William Bellman, um homem de negócios bem sucedido sente a sua vida mudar, para sempre, quando surge uma doença na sua localidade levando consigo a sua mulher e três dos filhos. Na noite em que, desesperado, enterra a sua mulher, um estranho homem promete-lhe uma mudança que abraça sem pensar duas vezes, adormecendo de seguida, quase como quem esquece... e espera o novo dia, diferente, revigorado e com novas interpretações. Porque para Bellman tudo terá sempre uma solução matemática, cujos números respondem e abafam aflições que não se dizem. Comem as tristezas numa gula de lucrar em mais e mais negócios.
E é precisamente aqui que todo o enredo deste livro emerge. A ânsia de esquecer o que os dias nos trazem, e traduzirmos os sinais desses mesmos dias da forma que nos aprouver. Infelizmente, na maioria das vezes, esses sinais são misturados com essa falta de memória, e não se vê o que realmente interessa, o que realmente deve ser interpretado das melhores promessas feitas.
Num paralelismo perfeito e numa metáfora sublime, Diane Setterfield revela-nos a vida de um homem fechado, esquecido de si, perseguido por um passado ausente, sem saber que para lá dele muitos dias passaram. Muitas lembranças ficaram presas nesse fio do tempo e que o grito da gralha-calva, que voa por cima da sua cabeça, é o riso vivo de quem não esquece e sabe o que ficou por viver, sem tempo de voltar atrás.
 
 


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