quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Exorcista (William Peter Blatty)


Se eventualmente vos passar pela cabeça que este livro é previsível, pelo título, tirem desde já essa ideia da cabeça. Este livro é absolutamente qualquer coisa de genial pela forma como é narrado, pela onda de mistério e pela dúvida que se semeia atrás da orelha, de início ao fim.
 
"Que a Vossa poderosa mão expulse este demónio cruel de Regan Teresa MacNeil (...)"

Previsível poderia então parecer por se centrar, apenas e só, num exorcismo. Mas o autor quis ir mais além do que isto. E eis que foi e muito bem.
Tudo começa no seio de uma família destruturada. Uma mãe recentemente divorciada, atriz reconhecida e mãe da pequena Regan, que devido à sua vida atribulada não lhe dedica o tempo que desejaria.
De um momento para o outro, a casa começa a dar sinais de uma vida estranha e inesperada: há sons que não se entendem, móveis que aparentemente mudam de lugar autonomamente, bem como a cama de Regan que se agita antes da pequena adormecer, provocando-lhe um medo intenso que a atira para os braços da mãe todas as noites.
 
Se inicialmente todas as situações aparentemente anormais são vistas e vividas com ceticismo cauteloso, gradualmente, as perceções de todos os envolvidos naquela casa começam a aguçar-se, na mesma medida de um medo que cresce e de um respeito calado pelo oculto.
 
É que Regan já não é Regan. A doce e querida menina deixou a doçura na gaveta e é agora a revelação máxima de rebeldia que não se lhe conhecia. Sharon, a sua tutora, desconhece-lhe os hábitos, bem como os empregados da casa, Willie e Karl, que mudos, olham e não compreendem.
 
É numa das festas organizadas pela mãe que esta decide, quando Regan desce as escadas ofendendo, sem razão aparente, todos os convidados, que está na hora de fazer alguma coisa. É chegado o momento de uma procura desenfreada de médicos que têm, à força toda, de justificar comportamentos bizarros de uma criança de 12 anos, com a boca repleta de obscenidades e o corpo cheio de gestos de uma idade que não condiz...
 
Este livro de William Peter Blatty, escrito em 1971, é soberbo precisamente pelo modo como está narrado, sem cair no ridículo que se poderia esperar de um livro de horror. Vai aos mais pequenos pormenores, deixando o leitor convicto num momento de que a Regan é uma simples menina solitária que deseja chamar a atenção de uma mãe pouco presente para, logo de seguida, se condoer e se zangar com o desgraçado do demónio que a possui.
 
A busca desenfreada de médicos e as respostas sempre inconclusivas abrem assim caminho aos padres que, por sua vez, abririam também um outro caminho: o do esperado exorcismo.
 
É este o ponto central de todo o livro. O verdadeiro significado da possessão, do exorcismo e mais do que tudo isso, o poder da auto-sugestão, tantas vezes invocado pelo autor.
O demónio está mesmo lá?
O que aconteceu, realmente, ao Padre Merrin e ao Padre Karras?
 
Deixo-vos assim. No mar de incerteza que este livro provoca. Até ao fim não vão descobrir se realmente houve possessão ou não.
Haveria, realmente, um demónio que se apoderou do pequeno corpo de Regan?
 
Têm de ler.
Acreditem quando vos digo que a dúvida compensa cada página de um clássico memorável e, sem qualquer dúvida, muito mais assustador que a versão cinematográfica.
Boas leituras!

2 comentários:

Su disse...

Olá,

Eu não sei se consigo ter coragem para o ler, por isso, antes de mais, parabéns pela tua coragem :D a questão da auto-sugestão deixa-me que pensar em relação a estes fenómenos. Dizem que muitas vezes só as pessoas que acreditam à séria em assombrações é que assistem a coisas "paranormais", por exemplo...
Apesar do aspecto arrepiante, parece ter sido uma leitura interessante.

beijinhos e boas leituras

Denise disse...

Obrigada Su,
Tens de perder o receio/medo e verás que tens pela frente uma experiência interessante ;)

Beijinhos e boas leituras!