domingo, 3 de abril de 2016

O Amante de Lady Chatterley (D.H.Lawrence)

















D.H. Lawrence, com «O Amante de Lady Chatterley», "por se tratar de um romance que a incompreensão, a «decência» e os «bons costumes» votaram ao ostracismo durante décadas", fez deste um livro memorável. Temo, no entanto, que o seu contexto e toda a polémica em seu torno, não permitam apreciar o que de melhor ele tem: uma abordagem totalmente nova do amor, sem falsas modéstias. Acrescentando ao seu inquestionável valor, o livro de D.H. Lawrence é muito mais do que uma história de amor gráfica e carnal entre Lady Chatterley e Mellors, cujo enredo enfatiza o contexto de 1926 no Reino Unido, a iminência da greve por parte dos mineiros, as peculiaridades de trabalho desta classe, bem como - e de maior realce pelo autor - as nítidas diferenças a que os estatutos sociais têm, obrigatoriamente, de cumprir.
 
Esta é a história de Constance Chatterley, mais conhecida por Connie, e a paixão avassaladora que conhecerá pelo guarda de caça do seu então marido Clifford Chatterley.
 
Aquilo que poderia ser uma história previsível e até enfadonha pelos traços gerais que a caracterizam, deixa de o ser pela forma sublime como o autor coloca em cima da mesa temas, sem toalha que os sustente, tão impertinentes quanto essenciais à felicidade do mais comum mortal.
D.H. Lawrence escreve com coragem, sem limites e vai direto ao ponto que mais dói, persistindo numa reflexão constante sobre a paradoxal simplicidade da vida, das relações, do amor que não se cansa.
 
"E assim é com a maioria das coisas do dia-a-dia... como ganhamos a vida, se amamos ou não a nossa mulher, se temos ou não «casos». Todos estes assuntos dizem somente respeito à própria pessoa e, tal como as idas à casa de banho, não interesse para mais ninguém." (p.48)
 
 
Assaz nas críticas sociais que lança, o autor apresenta-nos um livro verdadeiramente bonito sobre uma relação amorosa. Que o sexo é determinante na obra que tanta polémica originou, pois sim, é verdade que o seja, mas a questão essencial - na minha opinião - é a forma como o autor ordenou os temas para que tudo faça um sentido tão natural com tudo o que (tão bem) diz.
A sua verdadeira crítica reside, precisamente, neste ponto: ridicularizam-se aqueles que não sabem viver e por aqueles que não sabem viver, são aqueles que não se permitem a tal na sua plenitude, longe dos temores, cujo corpo se assume aqui como a porta principal de acesso a uma felicidade conhecida por poucos.
É Mellors quem define este ponto na obra de D.H. Lawrence. Ele representa a natureza, a bravura, a boca solta que diz o que sente e como o sente, a expressão máxima da simplicidade enquanto expoente máximo da vida.
 

"O seu atormentado cérebro de mulher moderna não tinha ainda descanso. Seria real? E ela sabia, se se entregasse ao homem, seria real. Mas se permanecesse fechada em si mesma nada seria. Estava velha, velha de milhões de anos, era o que sentia. E, finalmente, já não conseguia suportar o fardo de si mesma. Precisava de se render ao assalto. De se render ao assalto." (p.146)
 
 
Numa relação proibida e inesperada, Connie aprende a ser mulher, aprende a entregar-se e com essa entrega a ceder estatutos que nada lhe dizem.
 
Recheada de outras personagens importantes, como Clifford a caraterizar o estatuto social máximo, a intolerância às classes baixas e a Sra. Bolton, empregada que viria a dominar os afetos de Clifford, numa ironia improvável, D.H. Lawrence concebe um romance magnificamente bem construído, com uma das mais belas mensagens entre um homem e uma mulher que juntos se auto descobrem, aniquilando qualquer possibilidade nova, agora tão infundada no encontro certo dos dois:
 

"Portanto, agora adoro a castidade, porque é a paz que sobrevém à f..." Agora adoro ser casto. Adoro-a como as campainhas brancas adoram a neve. Adoro esta castidade, que é a pausa da nossa f..., está entre nós como a flor de um fogo muito branco e cindido. E quando chegar a verdadeira Primavera, quando chegar o momento do reencontro, podemos f... a pequena chama brilhante e amarela, brilhante. Mas não agora, ainda não! Agora é o tempo de ser casto, é tão bom ser casto, um rio de água fria na minha alma. Adoro a castidade agora que ela flui entre nós." (p.363)
 
O fim do livro não poderia ser melhor, cheio de esperança.
Amanhã logo se verá.
 
 
 
"A vida é magnífica enquanto nos consome."
D. H. Lawrence
 
 
Um bem haja à Editora Guerra&Paz pela oferta.

2 comentários:

Sofia Pinela disse...

As nossas opiniões são tão diferentes que chega a ser assustador!

Mas ok, tenho que concordar contigo na análise que fazes ao livro. Ainda assim senti falta de qualquer coisa... Se por um lado a relação entre Connie e Mellors quebra barreiras, por outro achei que podia ser mais trabalhada. Não sou fã de romances fofinhos, mas acho uma coisa mais desse género (sem os típicos clichés e tal) teriam beneficiado a história. Sente-se sempre um certo distanciamento silencioso entre os dois. E pelo que li no Goodreads, acho que é em parte isso que origina as classificações mais baixas. Isso e o facto de não ser um livro erótico sem cenas à 50 Sombras ahahaha


Este vai ficar para re-leitura. Quem sabe se amadurecendo mais um pouco, a leitura se torna mais agradável.

Beijinhos e boas leituras!

Denise disse...

Olá Sofia,

São partilhas do género que permitem a emancipação do livro, da leitura e do próprio pensamento. Se todos gostassem apenas de amarelo, a vida seria muito cinzenta :)
Considera sim, a releitura. Daqui a uns anos a perceção será outra e ganharás, com toda a certeza, novos fios condutores que hoje o livro não te permitiu.

Beijinhos e boas leituras!