segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Estante de Serviço #6

 
Autoestima baixa
_______
 
Rebecca
Daphne du Maurier
 
 
"(...) Por vezes, é claro, não há ninguém a quem culpar a não ser a si próprio. Se se sujeitar a uma crítica constante, minando a sua crença em si mesmo e a suas próprias opiniões, reconhecerá um espírito idêntico no narrador de Rebecca, de Daphne du Maurier - que, a propósito, permanece incógnito, sublinhando a falta de fé que ela tem no próprio direito de existir. A partir do minuto em que ela assume o seu papel como segunda Mrs De Winter, senhora de Manderley - a bela propriedade rural de que é proprietário Maxim, o seu marido, mais velho e mais sofisticado - torna-se desajeitada ao máximo, deixando constantemente cair as luvas, batendo nos copos e tropeçando nos cães, corando e pedindo desculpas e roendo as unhas ao mesmo tempo que anda em bicos de pés por todo o lado. Vestida e penteada de forma inadequada e tendo consciência disso, não faz ideia de como dirigir uma grande casa com criados e não faz nada para conseguir aprender, entregando ingenuamente a sua autoridade à governanta, Mrs Danvers - um espetro de mulher rancorosa - que «adorava» a primeira Mrs De Winter e que fica radiante por encorajar a autossabotagem da jovem. «De segunda categoria», «estranha», «insatisfatória» - estas são todas formas como ela, direta ou indiretamente, se descreve a si mesma. Não é de surpreender que, quando Mrs Danvers lhe sugere que se atire da janela do quarto, ela esteja quase de acordo em fazê-lo.
A heroína de Rebecca é uma órfã - então, mais uma vez, podíamos culpar os seus parentes falecidos pela falta de autoestima. Mas vê-la rebaixar-se, comparar-se desfavoravelmente com a elegante, inteligente bela Rebecca, a primeira mulher do marido, torna-se difícil de engolir passado um bocado, pela forma tão clara como ela torna as coisas piores para si mesma. Qualquer pessoa com a mesma tendência para se amesquinhar com autocrítica corará de identificação culpada ao ler este romance, e jurará acabar com um comportamento tão destrutivo de uma vez por todas.
 
 
 
 
Um livro absolutamente cativante, que nos prende para sempre, Rebecca é uma história de enganos em que pela autoestima tão frágil da personagem, o mais relevante e determinante lhe passa ao lado. E tudo isso, por essa tão gritante falta de fé em si mesma.
Belíssimo! 
 


4 comentários:

Beatriz disse...

Denise :)
Quando chegares à parte de "Reviver o passado em Brideshead" e, caso ainda não o tenhas lido, espero que faças por lê-lo.
Não imagino quão complicado é acreditar piamente em algo e escrever sobre o contrário de forma tão incisiva.
(E que tal Berlim? Gostei imenso, uma escrita simples - não simplista - mas profunda.)
Beijinhos.

Denise disse...

Olá Beatriz :)

Recomendas esse livro em específico por alguma semelhança com "Rebecca"?
Já me falaram imensamente bem desse livro. Quanto a "Rebecca" é mesmo imperdível, gostei tanto :)
Quando a "Reviver o passado em Brideshead" já está aqui nas minhas anotações ;)

Lucia Berlin está a cativar-me!
Cada conto, uma surpresa.

Beijinhos!

Beatriz disse...

Olá :)
O livro que recomendo não está de forma alguma ligado a "Rebecca". Já li vários livros de Du Maurier, mas nunca li "Rebecca". Desculpa não me ter explicado, escrever no telemóvel dá nestas meias explicações.
Este fim-de-semana tive um jantar em caso de amigos. Amigos esses que têm "Remédios Literários". Folheei o livro por alto e deparei-me com a obra que te recomendo. Sendo eu uma grande apreciadora de Waugh, quando vi que mencionavas os remédios, lembrei-me de to sugerir. É mesmo muito bom.
Aproveito também para pedir desculpas à Sra Berlin por lhe haver trocado a última letra do sobrenome ;)
Beijinhos!

Denise disse...

(Risos) Beatriz :)
Adoro Du Maurier. Quando a descobri, há uns bons anos, idolatrava a senhora (um pouco à semelhança de Plath) e aquelas notícias de possível plágio (nunca confirmadas) em torno de "Rebecca" adensaram muito a minha curiosidade. Recomendo-te muito. Gostava de conhecer a tua opinião :)
Quanto a Waugh nunca li nada, mas isso mudará em breve. Tens toda a razão, Beatriz, a Relógio d'Água... é qualquer coisa também!

P.S. A "Sra Berlim" não se importa ;)