quinta-feira, 25 de maio de 2017

O deslumbre de Cecilia Fluss (João Tordo)

 
Fecha-se, assim, com chave de ouro, uma das melhores trilogias que já tive oportunidade de ler.
 
João Tordo figura, sem reservas, como um dos autores portugueses a reclamar todas as atenções e deslumbres de leitores exigentes.
 
Esta história conduz-nos e confronta-nos com um conjunto de personagens perdidas em si mesmas. Se nos livros anteriores a indiferença, a sensação de perda e culpa eram temas gritantes, em «O deslumbre de Cecília Fluss» tudo se mantém mas na sombra, eu diria figurada, da demência.
 
"O que eu quero dizer com isto é que, para os cães, o passado não existe, pelo menos da maneira que existe para nós - uma história carregada de medo, de angústia, de ressentimento, de dor, entidade viva que transportamos connosco." p.121
 
Esta é a história de Matias Fluss, adolescente carregado com as preocupações típicas dessa idade. Há o sexo que espera urgente, amizades que se consolidem, um tio enlouquecido que admira, a família que parece toldar-lhe os movimentos. Surgem as fábulas budistas, inspiradas pelo professor, numa tentativa simultânea de ausência e procura de si mesmo.
 
A história de João Tordo é belíssima. Neste último livro fecha um ciclo sobre pessoas enterradas numa caixa de Pandora, revelada antes do tempo. Quem nunca se sentiu perdido, desfocado ou diminuído no reflexo de alguém? Quem nunca?
 
É Cecília quem nela carrega a visão turva, e sempre condicionada, de Matias. A relação destes irmãos ditará o futuro de cada um deles, pautado, sempre, pela dor de uma ausência ridiculamente imposta por um destino, quase sempre, traiçoeiro.
 
Porque não esquecer, então?
Porque não, afetuosamente, guardar para si toda uma história até que a demência vença por si mesma?
 
"Temos tanto medo porque achamos que há muito a perder, mas não é assim tanto, as coisas que achamos que nos trazem a felicidade também nos trazem o contrário da felicidade, que é a terrível angústia de nos faltarem." p.177
 
No peso da saudade, da dúvida, de avanços, de retrocessos e de identificações, Matias perdeu-se e fechou-se em si mesmo no vazio que Cecília lhe vendeu, ao decidir desaparecer.
Mais tarde, essa perda gradual surgiria no fio incerto, mas claro, que só o tio Elias lhe poderia garantir.
 
"Toda a gente precisa de um lugar onde transformar a sua dor."
 
Esse lugar seria a ausência palpável do que foi, do que não foi e do que a memória, um dia, decidir de vez apagar. Como as térmitas, subtis, a escarafunchar a madeira.
Mais do que uma história de amor, perda e saudade, a trilogia de João Tordo interroga sobre a força de um coração assolapado, as diretrizes e as jornadas a que nos impele, diariamente, por respostas que acalmem. Se as vamos encontrar, aparentemente, só o tempo e o que fizermos dele, dirá. 
"(...) quando o final, inelutavelmente, chegar, tudo mergulhe numa abençoada vertigem e um sorriso trocista assome aos nossos lábios e possamos saber, finalmente, que se esgotaram as existências, que tudo é sagrado, o que foi feito foi feito, nada a pôr, nada a tirar, e será então que poderemos, finalmente, acolher a imundície humana e a insuportável beleza deste mundo como acolhemos o cálice de uma flor que sabemos morta de antemão, mas que sangra, porque está viva, porque está morta, porque está viva." p.333
 
Ao som de: "Daughter"
 
Obrigada Penguin Random House
 

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Quais são os outros dois livros desta trilogia?

Denise disse...

Olá Carlos,

O primeiro livro é «O Luto de Elias Gro». O segundo é «O Paraíso segundo Lars D.».
Recomendo!

Boas leituras