segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Flor Oculta (Pearl S. Buck)

Acredito que a maioria acredita que o amor é pré-fabricado, como tudo o que está à nossa volta.
Por vezes, dou comigo a pensar o que raio se anda a passar na mente de toda a gente. Depois, adormeço, acordo e descubro que não é a mente: são buracos no coração dessa gente toda.
O amor parece uma caixa, daquelas decoradas pela técnica do guardanapo e cada uma tem de condizer com a outra, numa simetria que não deixa os olhos se distraírem um só segundo. Nem fechar, para respirar o céu, que é azul, ou sentir as gotas da chuva, que caem descontroladamente pelo rosto, e beijam, beijam, beijam tão desavergonhadamente!
Simetrias. Cores iguais. Pontos comuns. Ingredientes essenciais para esse bolo, um amor comestível, ao pequeno-almoço apressado.
E o coração? Como é feita essa pré-selecção? O coração não se vê, dou comigo a pensar como fazer uma selecção dessas...
Vou amar-te porque és branco como eu, os teus olhos são azuis como os meus, e és baixo como eu. O coração, tem buracos e é frio? Não faz mal. O teu rosto é parecido e os nossos corpos podem somar-se todas as noites, nessa simetria tão perfeita aos olhos doentes!

Palhaços.

A maioria das pessoas não precisa de esperar pelo Carnaval. A pele é feita de fatos de palhaço. Escolhem cores e sorrisos condizentes e o coração, esse, arrumado em papel de seda, e numa gaveta.

Amor. Amor. São fragmentos de dias. Perguntem-me o que é o amor e começo logo por gritar. Grito ao tentar dizer que nada tem de visível, está tudo num casulo que só entende quem está dentro desses fragmentos de dias.
Fragmentos! O amor é feito de fragmentos. São as gotas da chuva, violentas, é o sentido do seu humor por cima do nosso corpo.

É uma sala onde só o coração entra.

Ao som de: Imogen Heap "Hide and Seek"






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