sábado, 10 de dezembro de 2011

Gaveta de Papéis (José Luís Peixoto)


QUARTO


Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
 da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.


Ao acaso abri o livro, e salta este poema. Ironia? Talvez. Continuo sem saber. Desgraçados são os que continuam a brincar com castelos de areia, que se julgam o Narciso à beira da água, e que nesse processo ... se esquecem da adolescência no bolso. Ou se infiltram nela, numa mistura doentia, estranha, assustadora...
Feliz adolescência, que dás o sabor dos rebuçados de mentol às amizades. O calor dos abraços a essas amizades jamais quebradas. O fogo dos amores para sempre guardados, mesmo com bombeiros para os apagar.

Desgraçados aqueles que se esquecem da simplicidade da vida. Dos pequenos, grandes, gestos.
Desgraçados aqueles que se esquecem.
Desgraçados. Simplesmente.


Fartei-me.
 



Ao som de: I Don't Want To Be (Gavin DeGraw)







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