A Experiência (Ferreira de Castro)

quinta-feira, 28 de julho de 2016



Foi com base no meu desafio literário deste ano, «Ler(-te) em Português», que surgiu a feliz oportunidade de me cruzar com Ferreira de Castro. Há muito que o autor se me afigurava na vontade, mas a persistência de a levar adiante, essa, ficava pelos dias mornos, de quem não se decide.

Em contrapartida, mão decidida tinha Ferreira de Castro para dar e vender. «A Experiência» é um livro que tem de ser obrigatório nas estantes de todos nós, não apenas por se tratar de uma bonita história, mas pelo marco que impera em termos sociais. O enredo acaba por ser um feliz casamento com o título, bem intrincado, numa experiência de gentes mais e menos afortunadas, divididas pelas sentenças que um Deus, ora bem ou mal disposto, decide propor e semear pelas aldeias.
 
Esta é a história de Januário e Clarinda, ainda pequenos, residentes num Asilo, instituição essa criada por Sampaio Mendo que com ele carregava as ânsias de um novo método de ensino, igualitário e capaz de promover e potenciar a liberdade de pensamento. Já se sabe, porém, e como o próprio o viria a dizer, crianças de asilo levam com elas rótulo de tristeza e assim foi com aqueles dois.
 
O Asilo, entretanto transformado em prisão, viria a acolher novamente, anos volvidos,  Januário, agora ladrão e perdido num mundo que não se entende. Clarinda, vítima de um amor certeiro e, como tal, traiçoeiro desde que nasceu, a empurrou para o seu lado mais negro.
 
Mas quis o destino, tal como o fado, que o reencontro se desse trazendo com ele as memórias de infância e o pequeno amor que ainda tudo tinha para se continuar a dar. E deu. Mas não pense o leitor que a história de Ferreira de Castro se cinge ao amor destes dois. Nada que se lhe pareça. Percursor do neo-realismo, o autor enfatiza a predominância da sociedade como resistência máxima à felicidade dos que não nasceram em berço de ouro. As barreiras autoimpostas por hierarquias aparentemente invisíveis, e tão normais, abafam os sonhos mais gritantes do comum mortal, do asilado, porque se lhe dão teto e comida, é já esmola de sobra.
 
Envolto no julgamento de Januário, o autor polariza diversos pontos pertinentes entre as mais diversas personagens, mediando o foco de importância entre o ser individual confrontado com o ser social, cujo peso deste último é, irrevogavelmente, o maior e o que deve prevalecer sob qualquer circunstância, numa aclamada subversão do espírito.

Acredito que se depreende, desta crítica, o entusiasmo que se me ficou entranhado com a leitura. Ferreira de Castro, além do peso literário que assume no nosso país, e além fronteiras, demarca-se igualmente por uma história de vida ímpar, de enormes dissabores e experiências que, naturalmente, contribuíram para a sua soberba genialidade.


Escusam de perguntar.
É óbvio que recomendo.
 

 
 Venha agora o desafio de Agosto. Sim, já há autor escolhido.
Aguardem!
Boas leituras

5 comentários:

Beatriz disse...

Bom dia, Denise :)

A vida decidiu por elas, crianças desvalidas. Não houve opção de escolha.
Creio que a visão humanista que este escritor tinha do mundo se encontra bem patente nos seus livros.
Gostei muito e ainda bem que o mesmo aconteceu contigo.

Boas leituras!

Denise disse...

Olá Beatriz :)

Precisamente.
Gostei imenso, sim. E pretendo voltar às obras de Ferreira de Castro, sem dúvida.
Um marco.

Boas leituras!

Carlos Faria disse...

Só li A Selva de Ferreira de Castro e gostei muito, já ouvi excertos de outras obras divulgadas na Antena 2 e também gostei. Não sei bem porque não é tão popular quanto penso que merece.

Isaura Pereira disse...

Olá!
Não conhecia este livro. Fiquei muito curiosa.
Vou querer ler.
Beijinhos e boas leituras

Denise disse...

Olá Carlos,

Quero muito ler «A Selva», um dos livros mais conhecidos e emblemáticos do autor. Infelizmente não tem o reconhecimento que merece, não poderia estar mais de acordo.

Olá Isaura!
Pesquisa sobre este autor que merece toda a nossa atenção :)
Espero que gostes.
Beijinhos e boas leituras

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