sábado, 6 de maio de 2017

Viajante à Luz da Lua (Antal Szerb)


















«Viajante à Luz da Lua» de Antal Szerb é um dos grandes clássicos da literatura húngara, recentemente publicado em Portugal pela Guerra & Paz Editores.
Publicado em 1937, este livro retrata a história de Mihály, um homem de negócios de Budapeste, mas cuja responsabilidade, esperada pela idade que não assume, é coisa com a qual se confronta diariamente num conflito a que só os desafortunados de coração conseguem perceber.
 
Mihály não se assume enquanto homem que deve, tal como os outros, prosperar, crescer e ser cada vez maior. Parece que tal incumbência não lhe está nem no sangue, e muito menos, nas ações que se mantêm, sempre, na sombra de uma adolescência inacabada.

Ele larga tudo, a vida de outrora, a mulher com quem casou e viaja em lua-de-mel, rumando sem destino por uma Itália repleta de promessas antigas.
 
Há uma frase de Marcel Proust que retrata, na perfeição, essa inquietude de Mihály, cansativa, pesada e que atormenta:
 
"A maioria dos homens gasta a melhor
parte da vida a tornar a outra miserável."
 
Não consigo definir melhor a vida deste homem, que sempre se sentiu no lugar errado à hora errada, com intenções e desejos escondidos por uma cobardia congénita.
A adolescência é muito demarcada na história de Szerb, como alavanca daquilo a que alguém se pode vir a tornar, como um esquisso daquilo que será.
Para Mihály, com base numa adolescência repleta de magia, fantasmas palpáveis, amizades inquestionáveis e um amor eterno, intocável, decidiu estagnar em si mesmo, numa tentativa infantil de permanecer no único lugar que o validava.
 
Esta é uma história capaz de lhe arrancar alguns risos, mas é sobretudo uma história sobre o passado, sobre a adolescência e o poder daquela em transformar cada passo dado. Uma necessidade bem demarcada em pertencer, tão somente pertencer para que, um dia mais tarde, a sua passagem pela vida possa tecer-se de algum significado.
 
O seu significado maior tinha nome de Éva e tal como na história do paraíso perdido, algo se prendeu na garganta de um homem que amou mal, cresceu mal, viveu mal.
 
Leia este livro sem qualquer arnês. Não precisa de saber muito mais de uma história cuja amizade, amor e adolescência se juntam para, cruelmente, formar a base de perdição de um homem que, fruto de um passado idealizado, decide viver apenas para dentro.
 
Mihály só precisava de esperança.
A adolescência é feita de armários à medida de quem foge em sonhos sem nome.
Mais cedo, ou mais tarde, porém, este homem terá de crescer.
 
 
Eu já li e descobri. E você, vai ler?
 
 
 
Bem haja, Guerra & Paz, pela oferta.

7 comentários:

O Olhar da Marina disse...

Não conhecia , mas fiquei curiosa :)
Beijinhos ♡ O Olhar da Marina

Carlos Faria disse...

Nunca tinha ouvido falar do autor, pela resenha pareceu-me interessante, mas mesmo podendo arrancar alguns risos parece-me que possivelmente será um livro triste ou deprimente.

Denise disse...

Olá Marina,

Obrigada pela visita.
Vale a pena seguir a curiosidade. Estamos perante um bom livro.
Beijinhos

Olá Carlos,
Maioritariamente um livro introspetivo mas a personagem, repleta de anseios e receios, por vezes, permite momentos mais cómicos. Aborda igualmente a temática do suicídio, muito presente naquele contexto histórico.
Recomendo!

Su disse...

Olá, Denise,

Acabei de ler o livro hoje e tenho de concordar contigo sobre a forma de "viver para dentro" de Mihály. Tal e qual...
Gostei muito do estilo de escrita e de ser levada a reflectir sobre o desejo e a Morte - ou melhor, "o acto de morrer", que Tamás e Mihály tanto encenaram :P

bejinhos e que venham boas leituras

Denise disse...

Olá Su :)

Que bom ver-te por aqui!
É, não é? Este livro consegue ser feito de grande carga emocional, de grande complexidade pelas personagens e, ainda assim, ter trechos verdadeiramente hilariantes (o pesadelo dele na festa dos italianos, por exemplo!) :)
Vou continuar a recomendar. Um grande clássico.

Beijinho

Su disse...

Ohh, essa parte! Para já adorei a coincidência de ser o baptismo no dia em que ele toma "aquela" decisão, e toda a paranóia dele... É uma personagem a recordar :D

beijinhos e boas leituras :D

Denise disse...

Su :)
Muito bom!