Incendiário (Chris Cleave)

sábado, 19 de outubro de 2013


Já há algum tempo que não me deparava com um livro que gostasse realmente. «Incendiário», a primeira obra de Chris Cleave, autor do conhecido livro «A Pequena Abelha», conseguiu cativar-me com uma boa história, focada no terrorismo.
O livro começa em forma de carta dirigida a Osama bin Laden e quem a escreve é uma jovem mulher, destruturada, magoada, culpada pela força indescritível que um massacre pode ter na vida de alguém.
Depois de perder o marido e o filho de 4 anos num atentado, no preciso momento em que trai o marido no sofá de sua casa, esta mulher vê a sua vida irremediavelmente quebrada para sempre. A partir deste momento, entra numa espiral de mágoa e comprimidos que tentam atenuar uma dor impossível de passar, misturada com a força  de quem perde alguém e anseia encontrar uma forma de restabelecer alguma paz a quem foi.
Em cartas sentidas, e por vezes, quase irrisórias, dirigidas ao «Caro Osama», vai tentando atenuar a sua dor numa jornada brindada por personagens igualmente perturbadas em que, ironicamente, acaba por se tornar porto de abrigo.
A mensagem, no meu ponto de vista, prende-se sobretudo à dor de uma mãe e à força de fazer alguma coisa que deixe bem claro um amor inqualificável, de tão grande que é. Confesso que senti o desfecho um pouco forçado, no entanto, acredito que o autor foi feliz no fio condutor de todo o livro e na ideia que pretendia transmitir: a dor de uma mãe, culpada, e a vingança como a única saída possível.
Tudo isto em paralelo a um cenário social que pulsa acelerado nos dias que correm. A jovem mulher acaba por representar o rastilho fruto das consequência da maldade dos outros.
 
"Anda Osama o meu filho precisa de um pai e já são horas de também tu cresceres. Disse-te tudo o que há a dizer sobre a tristeza das bombas portanto agora tens de desistir delas. Sei que és um homem inteligente Osama muito mais do que eu e sei que tens muitas coisas para fazer mas devias ser capaz de as fazer com amor é exactamente aí que quero chegar. O amor não é capitulação Osama o amor é fúria e coragem e ruído pode-se ouvi-lo no barulho que o meu filho está agora mesmo a fazer enquanto brinca. GRRRR! GRRRR! diz ele só queria que o ouvisses Osama este barulho é o som mais feroz e ruidoso na Terra há-de ecoar até ao fum do tempo é mais ensurdecedor do que as bombas. Ouve este barulho Osama são horas de parares de bombardear o mundo. Vem ter comigo Osama. Vem ter comigo e juntos voltaremos a unir o mundo COM UM RUÍDO E UMA FÚRIA INCRÍVEIS."
 
 
O livro não tem vírgulas. Uma só, como se pode ver nesse excerto. Acaba por criar, por vezes, alguma confusão ao leitor. Penso que a ideia parte mesmo do autor, cuja protagonista refere inicialmente não saber escrever e não se dar bem com as vírgulas...
 
Por último, a adaptação ao cinema foi uma verdadeira desilusão uma vez que foge tremendamente à história do livro. Alguém viu?
 
 
Um bom livro, que recomendo! :)
 
www.wook.pt: Entre as vítimas de um atentado terrorista ocorrido durante um jogo de futebol em Londres, estão o marido e o filho da mulher que, destroçada, escreve agora uma carta a Osama bin Laden. Num tom simultaneamente emotivo, lúcido, magoado e chocantemente humorístico, ela tenta convencer Osama a abandonar a sua campanha de terror, revelando a infinita tristeza e o coração despedaçado de quem, no fundo, é apenas mais uma das suas vítimas. Mas o atentado é apenas o começo. Enquanto medidas de segurança transformam Londres num território virtualmente ocupado, a narradora também se encontra sob cerco. De início, ela recupera forças ajudando no esforço antiterrorista. Mas quando se envolve com um casal de classe alta, dá por si a ser gradualmente arrastada para uma teia psicológica de culpa, ambição e cinismo, que corrói a sua fé na sociedade que defende. E quando uma nova ameaça de bomba atira a cidade para mais uma vaga de pânico, ela vê-se forçada a actos de profundo desespero …Mas reside aí, talvez, a sua única hipótese de sobrevivência.
 

1 comentário:

André Nuno disse...

Olá. :)
Também já li este livro e a opinião geral é positiva. Gostei da história e, sobretudo, da primeira metade do livro. Na segunda foi apenas bom e não óptimo. A não utilização de vírgulas foi, para mim, uma opção que percebi mas, no mínimo, questionável. Vi-me forçado a parar e voltar atrás para poder separar as orações por diversas vezes e isso atrapalhou a leitura. Não sei se o trabalho que me deu justifica a decisão do autor em fazer valer a sua ideia. É evidente que o livro é dele e, como autor, tem direito a escrevê-lo da forma que muito bem entender mas na qualidade de leitor sinto-me com direito a opinar sobre o que sinto.
Relativamente à tradução achei por demais irritante que a tradutora confundisse constantemente "demais" com, "de mais", um erro aliás bastante comum mas que me tira do sério. :)

Boas leituras.

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