domingo, 22 de junho de 2014

Quando éramos mentirosos (E. Lockhart)


Este livro veio comigo pela frase: "E se alguém lhe perguntar como acaba este livro... MINTA."
Os pormenores são as pequenas grandes coisas, em tudo. E como em tudo, é habitual esquecermo-nos dos pequenos detalhes, que fazem toda a diferença.
Este pequeno livro foi uma grande surpresa, pelo tema que encerra e pelas referências que a autora tenuemente vai pincelando, aqui e ali, um Tolstoi com a força da família disfuncional e uma Emily Bronte com o amor poderoso e animalesco, quase. Gostei. Surpreendente.
Vamos lá, então.
«Quando éramos mentirosos» é escrito por E. Lockhart, pseudónimo de Emily Jenkins e foi finalista do NATIONAL BOOK AWARD.
O livro narra a história da adolescente Candence, desesperadamente apaixonada, que não suporta idiotas, possui um cartão de biblioteca muito usado e vive numa casa grandiosa cheia de objetos caros a inúteis.
Tolstoi dizia "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira." E Candence parece saber isso muito bem.
Candence Sinclair. Herdeira de uma família extremamente rica, é a primeira neta a nascer e carrega em si a responsabilidade de dar continuidade a esse clã rico, exigente, solidificado que é a sua família, encabeçado pelo avô Harris. Uma família, essa, os Sinclair, iguais em fisionomia, loiros e belos, são igualmente e na mesma medida, isentos de emoções porque essas enfraquecem. Fragilizam e incorrem num sério risco de fazer má figura.
Nessa rigidez de emoções e estatutos bem definidos, os Sinclair passam Verões inesquecíveis na sua ilha privada. Fazem gelados, comem pão doce português e bebem vinho do Porto, porque o bom gosto prima por ali.
Em conjunto com os seus primos Johnny e Mirren, Candence vive momentos felizes nesses meses quentes. Inesquecíveis porque juntamente com os primos surge Gat, sobrinho de Ed, marido de Carrie, sua tia, e que após um olhar derradeiro, dá a certeza a Candence que o amor surgiu para ficar. E ficou mesmo, para sempre. Um amor de adolescência não se contesta, nunca.
Com a morte da avó, Tipper, há uma mudança nos ares da ilha. Apenas nos ares porque as aparências devem manter-se e as advertências da normalidade sobem de tom quando ameaçadas. E Candence vai sentindo a pressão de estar num mundo infeliz, numa família que se limita a não sentir, e a querer chorar pela avó e a não poder. A querer amar Gat e a ter a ameaça de um avó que nega a entrada de um estranho no especial clã que é esse o dos Sinclair.
Além dessa pressão, mais tarde, Candence os primos, vão perceber que há muito mais do que uma imagem familiar a preservar. Há a necessidade do poder e do dinheiro, há o materialismo a emergir como uma onda mais forte, poderosa e que arrasta tudo consigo.
Em dias mais sossegados, os sussurros da mãe e das tias, começam a chegar até si entre discussões ligeiras a fortes, ambicionando a herança do pai, que por sua vez, manipula as suas três filhas como se fossem pequenos dados num jogo de Monopoly.
Todas essas zangas familiares vão subindo de intensidade e os primos, mais conhecidos por Os Mentirosos, vão sentindo na pele a real emergência das consequências que tudo isso está a trazer à família. A paz, se é que alguma vez existiu, está ameaçada e os verões na ilha, também.
O amor de Gat. O seu Gat, pode desaparecer para sempre, entre guerras por toalhas douradas e estátuas de marfim e Candence, determinada, não pode permitir que desavenças inspiradas em meras coisas, possam destruir algo maior. O seu Gat. O seu Heathcliff.
E é assim, nessa mistura de amor, determinação e heroísmo adolescente que os mentirosos se tornam mentirosos, agindo numa noite ausente. E Candence demonstra essa força de espírito que a afastará de todos os outros e lhe cederá o justo lugar de quem a merece.
Por vezes, a beleza e a ingratidão da adolescência está na imprevisão das coisas e do pensamento. No que virá depois, sem pensar nas consequências.
É com base nessa imprevisão e sentimento de culpa, por alguns minutos deslocados, ou o que fosse, que Candence se vai fechar na sua própria mentira.
Até ao dia em que tudo virá ao de cima. Forçosamente.
 
 
"É bom saber que, era uma vez, havia Gat e eu." (p.301)
 
 
Um livro interessante. Um dos aspectos que gostava ainda de apontar diz respeito aos contos de fadas que a autora vai introduzindo ao longo da história.
Na minha visão, acredito que muitas das nossas crenças no mundo e na vida dependem desses contos, do príncipe e da princesa, do belo e do feio, entre tantas outras questões, condicionando as nossas visões e a nossa inteligência emocional.
Uma família que é destruída pela avareza na ideia de manter o seu reino encantado, parece-me, um forte condicionamento vindo de uma estranha história de encantar...
 
Boas leituras!
 
 
 
Ao som de: Evanescence "Good Enough"
 

6 comentários:

Leitora disse...

Olá
Gostem muito da tua opinião.
Boas leituras!

Denise disse...

Olá Leitora!

Obrigada :)
Um livro interessante, não é?
Foi uma boa surpresa.

Beijinhos e boas leituras

Kel disse...

Gostei da opinião!
Gostei, sobretudo, da frase que também que te cativou. É fantástico como apenas uma frase te leva a ler um livrou ou não.
Beijinhos e boas leituras

Denise disse...



É verdade Kel. Os pormenores das pequenas coisas.
Nos livros e em tudo na vida ;)

Muitas leituras!

Andorinhaz disse...

Olá Denise :)
Li este livro a semana passada, no entanto tenho uma opinião algo diferente da tua. Também a mim me cativou aquela frase, mas acabei por desvendar o que aconteceu demasiado cedo. Não te aconteceu?
Contudo achei a escrita ritmada e a história aborda uma temática interessante.
Fiz uma review completa no meu blog se quiseres passar por lá... http://andorinhaz.weebly.com/
Beijinhos fico à espera de mais publicações :)

Denise disse...

Olá Andorinhaz! :)

Na altura em que li o livro fui surpreendida, apesar de já prever algo do género. No post não quis dar spoilers, dai a opinião mais subentendida. Mas no salgo geral, gostei bastante destes Mentirosos e de toda aquela atmosfera de aparente mistério ;)

Beijinhos e vou passar pelo teu blog!