domingo, 8 de fevereiro de 2015

Meninas (Maria Teresa Horta)


Este livro é uma tristeza.
Com isto quero dizer que um livro pode ser feito de tal tristeza e, ainda assim, agarrar-nos e querermos ficar com ele, lá dentro, porque encontramos a verdade de que, por vezes (ou vezes demais), a vida é feita. No meio de tanta tristeza, conseguimos agarrar-nos a esperanças fúteis e à beleza das palavras. E essa beleza vem articulada com a sensibilidade de frases que unem e dão forma à tal tristeza. Uma simbiose impensada, mas possível. Não é a vida uma dessas coisas mais impossíveis e possíveis, simultaneamente?
Os contos de Maria Teresa Horta são, assim, construídos pela tristeza de Meninas. Meninas que viveram contos de (des)encantar, para descobrirem vidas para lá das raízes ainda fracas da idade que carregam nos ombros. Para lá das memórias, essas, já pesadas.
Meninas que viram o mundo de pernas para o ar, penduradas numa janela. E ainda assim, descortinaram o cabelo ondulado e loiro de quem um dia lhes abriu a porta da vida.
Meninas que entreabriram portas escondidas para descobrirem realidades até então desconhecidas, grandes demais para meninas pequenas, indefesas, atiradas a um vómito que nasce na alma, não no estômago.
Meninas que escondem cartas. Que lêem e voltam a ler pedidos de uma desculpa há muito perdida no tempo. Mas que surge como a salvação e justificação de um abandono tão precoce. Que fere. Que deixa marca. Uma marca infinita.
Meninas que perderam.
Meninas que se irão reinventar pela força de uma ausência.
Pelo abraço redentor do silêncio, ensurdecedor, de um livro.
 
 
"Como se adivinhasse o meu futuro sem ela para me abrigar no seu abraço imenso. Mas a morte levara-a consigo, e eu ficara sozinha a enfrentar as histórias de desencantar, com bruxas más absurdamente reais." (p.109)
 
 
Este livro é uma tristeza.
E uma obrigatoriedade.
O sofrimento, o vazio e essa tristeza são a verdadeira e mais sublime forma de aprendizagem. De aprender a viver com as mãos cheias de nada, e tudo, ao mesmo tempo.
 
"- Serias capaz de matar por amor? - Não lhe respondeu, subitamente pálida e ausente, o olhar refugiando-se longe com uma ponta de desespero.
Eu seria capaz." (p.145)
 
 
O primeiro livro de contos a superar toda e qualquer expectativa.
Boas leituras!
 
 
 
Maria Teresa Horta 
Escritora e jornalista nascida em Lisboa em 1937. Frequentou a Faculdade de Letras da capital, tendo pertencido ao grupo de Poesia 61 e colaborado em diversos jornais e revistas. Foi dirigente do ABC Cine-Clube e militante activa nos movimentos de emancipação feminina. Estreou-se com o livro de poesia Espelho Inicial (1960). Dedicou-se igualmente à ficção, tendo publicado, entre outros títulos, Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970). Em 1972 foi uma das autoras das polémicas Novas Cartas Portuguesas (com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno), obra que suscitou um processo judicial pela sua natureza transgressora em relação à tradição patriarcal dominante.
 
 

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