sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Desfile de Primavera (Richard Yates)

Richard Yates nasceu em 1926, em Yonkers, Nova Iorque. Após o serviço militar nas Forças Armadas americanas durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como publicitário e chegou a escrever os discursos do senador Robert Kennedy. Os seus contos, muito premiados, começaram a aparecer em 1953, e o seu primeiro romance, Revolutionary Road, foi nomeado para o National Book Award em 1962. Yates é também autor de obras como Perto da Felicidade (Cold Spring Harbor) e Jovens Corações em Lágrimas, ambos publicados em 2009 pela Quetzal.
Richard Yates foi casado duas vezes e foi pai de três filhas.
Morreu em 1992.
 
"O efeito é simultaneamente doce e cruel, devastador e brutal."
(The Boston Book Review)
 
Um livro extraordinário. Do princípio ao fim cativou-me pela escrita, pelo enredo e pela rapidez com que tudo gira, desenvolve e cresce numa história destinada à tristeza.
Este é um livro sobre duas irmãs e o efeito do tempo, da vida, em cada uma delas.
 
"Nenhuma das irmãs Grimes estava destinada a ser feliz, e olhando para o passado sempre houve a sensação de que os problemas começaram com o divórcio dos seus pais." (p.11)

Assim começa a história das irmãs. Une-as um passado igual, pesado e triste, mas entre ambas as diferenças de personalidade assumem presença desde muito cedo. Carimbando-as. Identificando-as. Dando-lhes uma espécie de lugar, pequeno, nas suas vidas igualmente pequenas. Com um pai distante à força do destino. E com a mãe que as muda constantemente de cidade. Mãe, não. Desde cedo, as pequenas foram acostumadas a chamar a mãe de Pookie, a pedido desta, pelo que esse som materno foi igualmente perdido.
Sarah, "a menina do papá", dependente, segue rapidamente o caminho do casamento e de uma família numerosa, com três filhos a cargo, numa enorme casa, longe de tudo, respeitando com devoção o matrimónio e as agruras que este traz. Fazendo parte ou não. Sendo correto ou não. Há que respeitar os desígnios de Deus e Sarah sabe, no seu íntimo, que Tony não a empurra pelas escadas abaixo por mal. É o jeito dele. E ao jeito dela, vai vivendo os dias no encosto quente de uma bebida que conforta e, também, que aquece a alma. Amortece o fígado. Amortece o seu próprio fim.
Emily desde nova que não compreende. Tão simplesmente assim. Não compreende a vida, mas sobretudo, não se compreende a si mesma. Pergunto eu, a mim mesma, se haverá calvário maior na vida de uma pessoa que não seja esse, o de não sabermos quem somos ao longo de toda uma vida, de aventuras e desventuras, procuras desenfreadas, e sem nunca encontrar a resposta a que possa responder, por fim e convictamente: "Compreendo".
 
"E quando deixaria ela de dizer «compreendo» sobre coisas que, na realidade, não compreendia de forma alguma?" (p.78)
 
Nunca. Não deixaria nunca de se questionar. Emily era a irmã independente. A que não se encontrava no reflexo de ninguém e que por isso, se procurava no reflexo de todos ao mesmo tempo. Na agonia constante de quem procura compreender o que a ausência de uma emoção certa traz. Ao corpo. À alma. À vida, que se torna numa máquina monótona, certa, ritmada, mas não por isso cheia.
Numa espiral de procuras por aconchego nos braços de muitos homens, Emily foi envelhecendo e esse malogrado tempo trouxe questões redobradas.
 
O livro segue, sobretudo, a vida vazia de Emily e a necessidade de se encontrar, em vão. A ligação a Sarah é ténue e assustada, pois voltar às raízes significa encarar receios antigos. Mas acaba por voltar.
Acaba por regressar ao único lugar que, apesar de ausente em respostas, pode ser enfim ideal para descansar do peso de si mesma.
 
" - Sim. Estou cansada - concordou ela. - E queres saber uma coisa engraçada? Tenho quase cinquenta anos e nunca compreendi nada em toda a minha vida." (p.245)
 
 
Com personagens de uma densidade psicológica inigualável, este livro de Richard Yates reforça a complexidade das relações familiares, mas sobretudo, da relação consigo mesmo e essa busca incessante de si ajustado a uma vida que, aparentemente, nunca chega a existir.
 
 
Magnífico.
Boas leituras.

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