O Meu Nome É Alice (Lisa Genova)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Ter Alzheimer é morrer e permanecer na Terra, sem estar. Não se vai para o céu porque a alma continua encravada no corpo e não se consegue estar realmente na Terra, porque o cérebro, esse sim, morreu, partiu e não deixou o bilhete com as direções.

O que me impulsionou mais a comprar este livro nem foi o mediatismo em torno do filme e os óscares. Foi o tema, que muito me diz, e o facto de ser escrito por alguém formado na área da Psicologia, dando-me a certeza de ler algo sustentável, o que aconteceu.
Alice é uma personagem admirável. É através dela que o leitor consegue penetrar nesta doença que engole a pessoa dentro de si mesma, levando as memórias, embrulhando e misturando as recentes e as de longo prazo numa vertigem assustadora, inevitável.
Alice é uma mulher com cerca de cinquenta anos, Professora de Psicologia, muito considerada na Universidade onde leciona, realizada profissionalmente, com um marido que ama e com três filhos dos quais muito se orgulha. Tudo para, portanto, se sentir plena e feliz na vida que construiu. Orgulhosa, confiante, levando uma vida muito agitada, de stress, entre viagens e palestras, aulas para preparar, Alice sente-se preenchida na ideia de mais projetos para realizar. Sempre mais.
Até ao dia em que numa das aulas de Linguística, ironia da vida, uma palavra teima em não despertar no seu cérebro.
Seria o início do fim.

"Ela sempre fora tratada com grande respeito. Se a sua capacidade mental fosse gradualmente substituída por doença mental, o que substituiria esse grande respeito? Piedade? Condescendência? Embaraço?" (p.95)

Gostei muito deste livro de Lisa Genova. A profunda pesquisa sustenta não só a doença em si mesma, mas os seus efeitos na vida de uma pessoa, gradualmente, de dia para dia. Uma doença cruel que mata a pessoa antes de se morrer. A vida acaba antes do verdadeiro anúncio da morte, pelo apagar lento das memórias, essas, que asseguram a certeza de que se viveu.
Apesar da carga emocional intensa que advém de uma tema como este, o livro representa igualmente um hino bem aclamado de importância e reverência à vida. Ao desejo de ficarmos agarrados à corrente um pouco mais, minutos que sejam, mas um pouco mais.

"Lá porque tinha Alzheimer, isso não significava que não merecia estar aqui sentada nesta sala, entre eles. Lá porque tinha Alzheimer, isso não significava que já não merecia ser ouvida." (p.203)

Como bem disse Alice, se alguém perde um braço, todos tentam reabilitar aquela pessoa. Deste livro, ressalta a mensagem de uma maior dignidade à pessoa com doença mental e acima de tudo, uma mudança global na forma de se encarar quem dela sofre.

Muito bom.

Boas leituras!
 

4 comentários:

Kel disse...

Adorei a tua opinião (como sempre :p).
Não conhecia este livro, até ter visto o filme entre os nomeados para os Óscares.
Deve ser um livro muito pesado, mas merece ser livro. Fiquei mesmo com vontade de o ler, sobretudo porque tenho um familiar com Alzheimer...e não é nada fácil...
Beijinhos e boas leituras

Denise disse...

Kel :)

Obrigada!
Também conheci este livro em torno do mediatismo do filme e vale muito, muito a pena.
A autora constrói um romance, mas muito bem sustentado em torno de uma doença incapaz de deixar alguém indiferente.

Beijinhos e boas leituras!

Maria Manuel Magalhaes disse...

Olá Denise, só hoje é que publiquei a minha opinião :P
A gripe e a preguiça não ajudam nada :(

Adorei o livro, bem mais do que o filme, que não achei tão brilhante...

E adorei a tua opinião ;)

Beijinhos,
MM

Denise disse...

Olá MM! ;)

Obrigada!
Já fui espreitar ao teu cantinho.

Um bom livro sim. Ainda não vi o filme...

Beijinhos e boas leituras!

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