sábado, 4 de abril de 2015

Corre, Coelho (John Updike)


Se têm nervos frágeis, aconselho a não tocarem nesta tetralogia de Updike. Se assim for, vão acabar por se enervar e haverá, num momento ou outro, uma vontade terceira de atirar o livro por uma ribanceira abaixo.
Por outro lado, quem se meter nela, não conseguirá sair sem descobrir como acabará a vida do Coelho.
Há muito tempo que ansiava ter estes quatro livros em casa.  Não estou arrependida, estou absurdamente rendida.
Já li livros, entre eles a recente leitura de Richard Yates, com personagens de uma enorme densidade e complexidade, mas o Coelho consegue, em si mesmo, reunir um conjunto tão obscuro da alma humana que é impossível não nos chocarmos e, simultaneamente, nos identificarmos com determinadas passagens. Sejamos honestos, somos todos um pouco fracos, e desistir é o primeiro som do grito da nossa aflição. Do grito sufocado que muitas vezes não pode subir pela garganta acima, tais são os afazeres de dias arquitetados ao pormenor. Já são muitas as escadas que se subiram. Desistir, e voltar ao ponto de partida, implica uma mudança de regras onde a personagem principal não seria a única implicada. E isto é tão simplesmente o significado do verbo viver.
 
Este é o primeiro volume da história de Harry Angstrom, mais conhecido por Coelho. Em tempos de escola, o popular jogador de basquetebol, agora vendedor de MagiPeel Kitchen Peeler, sente que o tempo resolveu não o continuar a brindar, dando-lhe pela frente tempos de dúvida e de constantes provações.
Casado com Janice, alcoólica, pai do pequeno Nelson, Coelho será novamente pai em breve, mas quer desistir. E foge. Assim. Num dia como outro qualquer.
 
Foge no carro, pela noite dentro. E nos dias que se seguem, surge uma nova vida conjunta com Ruth, e um novo amor cresce também. O coração de Coelho parece ser grande. Demais. Mas virado para dentro.
Um coração com olhos grandes e uma boca maior ainda, que suga de fora para dentro, passeando altivo pelas ruas certas de quem nada sabe.
 
"- Vou dizer-te uma coisa - diz-lhe Coelho. - Quando abandonei a Janice, descobri uma coisa interessante (...). - Se tiveres coragem para seres tu mesmo - diz ele -, outros pagarão tudo por ti." (p.149)
 
 
O Coelho corre na procura incessante de questões, sempre certo e envolto num egoísmo que lhe garante uma tonta legitimidade. Mas não corre sozinho.
Para trás, ficam as ruas paralelas com as vidas que foi deixando para trás, de quem correu para ele, por ele, com ele.
 
Que fará agora?
Continuará a correr, sem olhar para trás?
 
 
Boas leituras.
 
 
www.wook.pt: O trabalho mais conhecido de John Updike é a série Rabbit: Rabbit Run (Corre, Coelho), Rabbit Redux, Rabbit is Rich (Prémio Pulitzer), Rabbit at Rest (Prémio Pulitzer) e Rabbit Remebered. Corre, Coelho foi escrito em 1960 e é até hoje um dos livros mais emblemáticos e lidos de John Updike.
Harry "Coelho" Angstrom tem 26 anos e é uma antiga estrela do basquetebol. Casado com a sua namorada do liceu (alcoólica e grávida do segundo filho), vive nos subúrbios da Pennsylvania e é vendedor de acessórios de cozinha. "Coelho" começa a sentir que a sua vida não faz sentido e que só tem duas hipóteses: tentar fazer com que a sua vida seja melhor ou fugir. Decide fugir e abandona a família. Quando parte em direcção a Virgínia encontra o seu antigo treinador que o apresenta a Ruth, uma prostituta em part-time, e nessa mesma noite começam a viver juntos. "Coelho" só não sabe o que o futuro lhe reserva…
 

4 comentários:

Carlos Faria disse...

Já vi o nome deste escritor nas livrarias, mas nunca li nada dele, pelos vistos, torna-se num livro empolgante que desenvolve ansiedade.

Denise disse...

Muito, muito! :)
Estou a ler o segundo volume e a gostar bastante. O Coelho é uma personagem ímpar e merece largamente ser conhecida.

Boas leituras.

Unknown disse...

Onde consigo achar esse livro?

Denise disse...

Unknown,

Comprei há algum tempo atrás numa promoção da FNAC Online.
Espero ter ajudado.

Boas leituras