terça-feira, 31 de março de 2015

Ler?!! Não tenho tempo para... isso!

 
 
Para o pessoal que perde tempo a dizer que não o tem.

sábado, 28 de março de 2015

Em Busca do Carneiro Selvagem (Haruki Murakami)

Esta é a história de um homem desmotivado que decide, pela força que o destino teceu, partir em busca de um carneiro especial. Sem surpresas, uma história destas só poderia sair de um livro de Haruki Murakami.
De início ao fim somos impelidos pela curiosidade brava, e humana, de "onde raio está o carneiro?" e na verdade, muitas outras questões, mais subliminares, são levantadas por este escritor tão peculiar.
Por vezes, a ansiedade de encontrar o carneiro torna-se tão fulcral que ficam pelo caminho outras questões - quem sabe ? - mais prioritárias.
Acredito que a mensagem mais importante, para mim, se resume à frase invocada cheia de certeza pelo enigmático amigo Rato: "A chave do mistério está na fraqueza...".
O carneiro precisa dessa fraqueza para crescer ,e do outro lado, são as falsas promessas de uma fortaleza de novo espírito que fazem esquecer as verdadeiras prioridades: um pai que não reconhece o amor de um filho e o nosso personagem, que não percebeu mais do que a beleza e encanto das orelhas daquela mulher.
Deste livro de Murakami escorre a mensagem viva da falsa promessa, sobrenatural, de que precisamos sempre de muito mais, para nos dignificarmos, tão simplesmente, a viver e a ser. Com a alma no sítio certo.
 
O livro mais repleto de fantasia a conter, ao mais alto nível, a realidade dos nossos dias.
De génio.
 
 
Recomendo.
 
Boas leituras.
 
www.wook.pt: Ambientado numa atmosfera japonesa, mas com um pé no noir americano, Murakami tece uma história detectivesca onde a realidade é palpável, dura e fria, e seria a verdade de qualquer um, não fosse um leve pormenor: é uma realidade absolutamente fantástica. Um publicitário divorciado, que tem um caso com uma rapariga de orelhas fascinantes, vê-se envolvido, graças a uma fotografia publicitária, numa trama inesperada: alguém quer que ele encontre um carneiro! Mas não é um carneiro qualquer. É um animal que pode mudar o rumo da história. Um carneiro sobrenatural…
Murakami dá a esta estranha história um tom que só um oriental pode imprimir a uma crença, fazendo-a figurar como um facto da realidade. Coloca, de uma forma genial, a fantasia na aridez do mundo real.

quinta-feira, 26 de março de 2015

A Angústia da Denise e do Saramago

«A Racionalidade Irracional»

Retirado em: www.citador.pt
 
Eu digo muitas vezes que o instinto serve melhor os animais do que a razão a nossa espécie. E o instinto serve melhor os animais porque é conservador, defende a vida. Se um animal come outro, come-o porque tem de comer, porque tem de viver; mas quando assistimos a cenas de lutas terríveis entre animais, o leão que persegue a gazela e que a morde e que a mata e que a devora, parece que o nosso coração sensível dirá «que coisa tão cruel». Não: quem se comporta com crueldade é o homem, não é o animal, aquilo não é crueldade; o animal não tortura, é o homem que tortura. Então o que eu critico é o comportamento do ser humano, um ser dotado de razão, razão disciplinadora, organizadora, mantenedora da vida, que deveria sê-lo e que não o é; o que eu critico é a facilidade com que o ser humano se corrompe, com que se torna maligno.

Aquela ideia que temos da esperança nas crianças, nos meninos e nas meninas pequenas, a ideia de que são seres aparentemente maravilhosos, de olhares puros, relativamente a essa ideia eu digo: pois sim, é tudo muito bonito, são de facto muito simpáticos, são adoráveis, mas deixemos que cresçam para sabermos quem realmente são. E quando crescem, sabemos que infelizmente muitas dessas inocentes crianças vão modificar-se. E por culpa de quê? É a sociedade a única responsável? Há questões de ordem hereditária? O que é que se passa dentro da cabeça das pessoas para serem uma coisa e passarem a ser outra?
Uma sociedade que instituiu, como valores a perseguir, esses que nós sabemos, o lucro, o êxito, o triunfo sobre o outro e todas estas coisas, essa sociedade coloca as pessoas numa situação em que acabam por pensar (se é que o dizem e não se limitam a agir) que todos os meios são bons para se alcançar aquilo que se quer.
Falámos muito ao longo destes últimos anos (e felizmente continuamos a falar) dos direitos humanos; simplesmente deixámos de falar de uma coisa muito simples, que são os deveres humanos, que são sempre deveres em relação aos outros, sobretudo. E é essa indiferença em relação ao outro, essa espécie de desprezo do outro, que eu me pergunto se tem algum sentido numa situação ou no quadro de existência de uma espécie que se diz racional. Isso, de facto, não posso entender, é uma das minhas grandes angústias.
 
José Saramago, in 'Diálogos com José Saramago'

quarta-feira, 25 de março de 2015

Glittering eyes

 
 

domingo, 22 de março de 2015

Onze Tipos de Solidão (Richard Yates)

 
«Onze Tipos de Solidão» é a minha derradeira certeza de que ler Richard Yates corresponde a um prazer para lá do esperado.
Onze pequenos contos que projetam a solidão por tipologias. Solidões divididas por formas de sentir, por situações, por momentos, por pessoas.
Solidões arrumadas em gavetas. Solidões que encaixam na perfeição com o músculo cardíaco de quem a sente, ritmada pelos passos, também tão certos, de quem todos os dias sai de casa na certeza da incerteza do que será.
A escrita de Richard Yates é belíssima.
Não passará de uma tentativa mostrar-vos a densidade que cada personagem invoca, e desespera em si mesma, em cada conto.
Se pensarmos na solidão como a casa escura e vazia numa Sexta-feira à noite, tiremos daí as nossas ideias, pois a solidão é tão mais do que isso e, oferecida sem vergonha, aparece onde menos se espera.
As personagens deste magnífico livro comprovam que a solidão é um tecido. Um tecido que se corta à medida. Que se molda. Que se adapta ao vazio de cada um.
Um tecido 100% elastano.
 
Magnífico!
 
Boas leituras.

quarta-feira, 18 de março de 2015

A Verdadeira Filosofia de Vida

Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, sentir as pessoas com ternura, esta é a verdadeira filosofia. 

 1 - Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões.
2 - Sê tolerante, porque não tens certeza de nada.
3 - Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas sim os actos.
4 - Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5 - Não mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério.
6 - Não queiras reformar nada, porque não sabes a que leis as coisas obedecem.
7 - Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles.


Fernando Pessoa, 'Anotações de Fernando Pessoa (sem data)'
  
 
Retirado em: www.citador.pt

sábado, 14 de março de 2015

Sonhos. Sonhos. Sonhos

 
 

quinta-feira, 12 de março de 2015

O paradoxo do silêncio...

Retirado Pinterest
 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Paradise

 

 
[Para ti]
 


terça-feira, 10 de março de 2015

O Baile (Irène Némirovsky)


A juventude é a embriaguez sem vinho.
Goethe
 
 
A adolescência é assim. Quem é que esquece essa fase do desenvolvimento humano em que as hormonas decidem ir à discoteca todos os dias?
O pequeno livro de Irène Némirovsky é o registo breve dessa agonia do corpo e da alma que reclama mais do quer, e não pode ter. De uma adolescente, com o corpo a formar, e a alma tão completa em si mesma, que ama desesperadamente alguém que ainda não chegou. Uma pequena a ganhar pernas de mulher, a ansiar caminhar por si mesma, a crescer com valores dignos só de si, tão mais completos do que esses pais, agora novos ricos, tenros nessa vida desejada.
Inspirado na relação difícil com a mãe da autora, este livro sublinha a dificuldade de Antoinette ser compreendida pela própria mãe, de fazer prevalecer os seus pequenos desejos, transparentes como a sua idade.
A adolescência pode ser um grito sem som. O desfecho que Irène Némirovsky criou para esta pequena história não poderia ser prova maior disso mesmo, cujos valores e sentimentos ressoam em cada canto de uma sala vazia, onde horas antes um suposto Baile prometeria sonhos de papel.
Um desfecho que, curiosamente, muito me lembrou o meu estimado John Steinbeck, onde a moralidade sempre se destaca, onde os valores e reais necessidades acabam por se evidenciar mais do que as meras aparências.
 
Gostei muito.
Boas leituras.
 
 
Irène Némirovsky nasceu a 11 de Fevereiro de 1903, em Kiev, Ucrânia, numa família de banqueiros judeus.
A sua infância decorreu num tempo de violência e pogroms anti-semitas.
O seu pai, Leon, não praticava a religião judaica, o que permitia à família frequentar a sociedade russa culta e europeizada. Irène teve mesmo uma preceptora francesa que lhe ensinou História e lhe leu Os Miseráveis quando contava apenas sete anos.
Em 1912, as perturbações políticas e as manifestações anti-semitas levaram o pai de Irène a enviá-la, e à mãe, Fanny, para França. Em Paris, Fanny levou uma intensa vida social, deixando a filha entregue à sua preceptora.
Em 1914, a família fixou-se em São Petersburgo.
A Revolução de Outubro de 1917 leva a que o pai de Irène seja perseguido. A família Némirovsky oculta-se num pequeno apartamento moscovita, em cuja biblioteca Irène lê Huysmans, Maupassant, Wilde e Platão. Em Fevereiro de 1919, mãe e filha refugiam-se na Finlândia, disfarçadas de camponesas, com jóias e dinheiro ocultos nas vestes. É já na Finlândia que Irène começa a escrever.
Depois de uma passagem por Estocolmo, a família instala-se em Paris, onde o pai de Irène refaz a sua fortuna a partir de uma sucursal do seu banco russo.
Ao regressar a Paris, Irène tem dezasseis anos.
Licencia-se em Letras e publica, sob pseudónimo, em revistas. Goza de bastante liberdade como resultado do abandono maternal e das longas ausências do pai.
Frequenta os meios intelectuais dos exilados russos, onde encontra Michel Epstein, um banqueiros com quem se casará em 1925.
As tensas relações de Irène com a sua mãe, Fanny, vão fornecer-lhe tema para algumas das suas obras. Fanny despreza a filha, que considera uma rival.
Obcecada pelo envelhecimento, apresenta-a como irmã mais nova no baile que o pai organiza em honra dos seus 18 anos. Pelas mesmas razões, pede-lhe para abortar quando Irène lhe anuncia a gravidez, pois recusa-se a ser avó.
David Golder, publicado em 1929, é o primeiro romance de Irène Némirovsky e foi saudado pela crítica como uma obra-prima. O Baile, publicado em 1930, teve igual aceitação. E durante os anos 30 Irène publica nove romances e uma antologia de contos.
Irène vai tornar-se popular nos meios intelectuais parisienses, onde através do seu editor, Grasset, encontra Cocteau, Monrand e Montherlant. Mas os seus dias felizes vão terminar com a subida de Hitler ao poder na Alemanha em 1933.
Inicialmente, Irène não tem a noção do perigo que corre, apesar de o seu pai lhe ter recomendado, em 1926, que partisse para os EUA. Considera-se uma escritora francesa, mãe de duas crianças francesas e afastada das suas raízes judaicas.
Por outro lado, nem ela nem o marido haviam solicitado a nacionalidade francesa, e quando tentam fazê-lo em 1938 é já demasiado tarde.
Em 1940, as tropas alemãs ocupam Paris e o governo colaboracionista de Vichy aplica com zelo as leis alemãs antijudaicas. Michel Epstein é impedido de exercer a profissão de banqueiro e Irène proibida de publicar e receber direitos autorais. Apesar do apoio do seu editor, Albin Michel, a situação degrada-se. A 13 de Julho de 1942, Irène é presa pela polícia francesa, internada em Pithiviers e depois deportada para Auschwitz, onde morre a 17 de Agosto (o marido será igualmente morto em Novembro de 1942). As duas filhas são salvas in extremis e internadas num convento.
 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Certezas ao fim do dia.

 
 
Bom, não é?
Um "Hmm.Hmm", de quem consente.
 

sábado, 7 de março de 2015

O Arranca Corações (Boris Vian)

Há muito tempo que este livro me perseguia. Isso mesmo. Perseguia-me como um tolo. Em cada promoção, aliciante, lá estava ele na primeira página a gritar "compra-me, pá!"...
Brincadeiras à parte, estou a dizer a verdade.
Boris Vian constava da minha lista há mais de 3 anos, para ler com urgência, dizia eu, de mim para mim. Foi agora, e ainda bem. Pois tenciono, rapidamente, voltar a mais e mais obras deste homem. Isto está a acontecer com muita frequência e penso, das duas três, ou ando muito apaixonada, com um coração muito oferecido, ou de facto ando com uma sorte literária sem precedentes (risos).
Tenho a certeza que quem já leu Boris Vian compartilha da opinião que estamos perante uma obra diferente, um enredo único criado pelo próprio autor, que inventa não só novos cenários como também, novas palavras.
Não preciso ser direta, mas obviamente «O Arranca Corações» arranca de mim os mais rasgados elogios.
Uma obra cinzenta e simultaneamente esperançosa, apesar de não parecer. Um enredo negro e que simultaneamente consegue irradiar uma esperança escondida a sete chaves. Uma história aparentemente solteira mas que se casa entre todos as personagens de uma aldeia caótica, sem valores, princípios, com corações deslocados. Que anseiam e esperam amor, talvez sem saberem verdadeiramente onde, ou como, o procurar. Sem conhecerem o tempo verbal pelo qual o devem invocar.
Um psiquiatra que de tanto ouvir, acaba vazio em si mesmo.Crianças que voam. Uma mãe sem amor, ama demais. Um marido que não suporta mais o lugar que lhe foi concedido.
De um modo verdadeiramente magistral, Boris Vian cria uma obra onde a fragilidade humana é evidenciada com um derradeiro humor entrelaçado com uma sensibilidade ímpar.

 
"O que vale é que temos sempre falta de qualquer coisa. Nesse caso, que seja, ao menos, qualquer coisa de importante." (p.89)
 
 
Magnífico.
 
Boas leituras.

 
Ao som de: "Ink" (Coldplay)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ink

 
 

 
All I know
All I know
Is that I'm lost
Whenever you go
All I know
Is that I love you so
So much that it hurts
 


terça-feira, 3 de março de 2015

Ah pois é

 

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Meu Nome É Alice (Lisa Genova)

Ter Alzheimer é morrer e permanecer na Terra, sem estar. Não se vai para o céu porque a alma continua encravada no corpo e não se consegue estar realmente na Terra, porque o cérebro, esse sim, morreu, partiu e não deixou o bilhete com as direções.

O que me impulsionou mais a comprar este livro nem foi o mediatismo em torno do filme e os óscares. Foi o tema, que muito me diz, e o facto de ser escrito por alguém formado na área da Psicologia, dando-me a certeza de ler algo sustentável, o que aconteceu.
Alice é uma personagem admirável. É através dela que o leitor consegue penetrar nesta doença que engole a pessoa dentro de si mesma, levando as memórias, embrulhando e misturando as recentes e as de longo prazo numa vertigem assustadora, inevitável.
Alice é uma mulher com cerca de cinquenta anos, Professora de Psicologia, muito considerada na Universidade onde leciona, realizada profissionalmente, com um marido que ama e com três filhos dos quais muito se orgulha. Tudo para, portanto, se sentir plena e feliz na vida que construiu. Orgulhosa, confiante, levando uma vida muito agitada, de stress, entre viagens e palestras, aulas para preparar, Alice sente-se preenchida na ideia de mais projetos para realizar. Sempre mais.
Até ao dia em que numa das aulas de Linguística, ironia da vida, uma palavra teima em não despertar no seu cérebro.
Seria o início do fim.

"Ela sempre fora tratada com grande respeito. Se a sua capacidade mental fosse gradualmente substituída por doença mental, o que substituiria esse grande respeito? Piedade? Condescendência? Embaraço?" (p.95)

Gostei muito deste livro de Lisa Genova. A profunda pesquisa sustenta não só a doença em si mesma, mas os seus efeitos na vida de uma pessoa, gradualmente, de dia para dia. Uma doença cruel que mata a pessoa antes de se morrer. A vida acaba antes do verdadeiro anúncio da morte, pelo apagar lento das memórias, essas, que asseguram a certeza de que se viveu.
Apesar da carga emocional intensa que advém de uma tema como este, o livro representa igualmente um hino bem aclamado de importância e reverência à vida. Ao desejo de ficarmos agarrados à corrente um pouco mais, minutos que sejam, mas um pouco mais.

"Lá porque tinha Alzheimer, isso não significava que não merecia estar aqui sentada nesta sala, entre eles. Lá porque tinha Alzheimer, isso não significava que já não merecia ser ouvida." (p.203)

Como bem disse Alice, se alguém perde um braço, todos tentam reabilitar aquela pessoa. Deste livro, ressalta a mensagem de uma maior dignidade à pessoa com doença mental e acima de tudo, uma mudança global na forma de se encarar quem dela sofre.

Muito bom.

Boas leituras!