quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Ridículo da Morte

 

O ridículo da morte não é a morte. O ridículo da morte acontece quando se está no cemitério, no aconchego da saudade dos que foram, e um bando de corvos com uma rata histérica entre as pernas decide, junto da campa ainda fresca, tirar fotografias para a prosperidade. «Até a avó gostou da foto, Manuela. Tira outra!»
«Pronto, vamos lá embora, e tu pede por nós, vá». Pois no que a mim me diz respeito, se fosse ao morto acabado de chegar, pediria uma casca de banana em que todas elas caíssem, umas em cima das outras, corvos doentes, e sim, que caíssem em covas à antiga: de terra enlameada pela chuva e por ali pernoitassem no medo de quem, há pouco, iria pedir por elas.
O ridículo da morte é feito pelos vivos. A vergonha de quem não semeou o coração no lado certo.

DR

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