quinta-feira, 23 de junho de 2016

Zoran Zivkovic | Diário de Notícias

 

 
Zoran Zivkovic é um dos poucos escritores sérvios com obra traduzida em Portugal. Esteve em Lisboa com "O Livro"
 
 
O escritor sérvio Zoran Zivkovic é uma presença "estranha" na Feira do Livro de Lisboa porque faz questão de conversar principalmente sobre livros numa iniciativa em que é dada à gastronomia - e à produção editorial relacionada com a culinária - um papel que rivaliza com a importância da literatura de modo a seduzir as famílias para irem até ao Parque Eduardo VII.
Aliás, o livro que veio ontem lançar, a sua sexta tradução em Portugal, chama-se mesmo O Livro. Que começa assim: "Não é fácil ser um livro." Desenvolvendo-se a partir desse parágrafo inicial por 168 páginas num registo que parece o do ensaio mas entronca com o do romance.
É a terceira vez que visita o nosso país, a primeira foi em 2005, onde o seu livro mais famoso, A Biblioteca, já vai na terceira edição. Obra que recentemente foi traduzida no restrito círculo de livros estrangeiros que a Arábia Saudita permite e que também faz parte da publicação da sua obra completa no, também difícil, mercado dos Estados Unidos.
Zivkovic é o escritor sérvio mais traduzido fora do seu país, um dos poucos que, à exceção do Nobel sérvio Ivo Andric, está à disposição dos leitores portugueses. Não evita comentar o afastamento entre a Sérvia e Portugal: "Estamos geograficamente muito separados e a Sérvia sofre com as fronteiras invisíveis que substituem as barreiras naturais existentes." Nada que impeça a presença nacional junto dos leitores sérvios: "A literatura portuguesa é muito popular na Sérvia. Saramago tem a obra toda traduzida e Pessoa também, mas é Afonso Cruz o destaque na literatura portuguesa contemporânea, com A Boneca de Kokoschka. É uma megaestrela lá."
A regularidade das deslocações a Portugal fá-lo confessar: "Cada vez que aqui venho, Lisboa está mais nova e eu mais velho." O seu discurso nada tem de negativo, antes expressa sempre uma opinião positiva e é de poucas lamentações. Mesmo que o protagonista em O Livro seja de um lamento constante.
Do que trata O Livro? É um livro em que o livro é o protagonista e ao mesmo tempo o único tema. Zivkovic põe-se na pele de um livro e contesta os maus-tratos dos leitores. Como escrever notas nas margens, dobrar o canto das páginas, sublinhar palavras e, o pior crime, não lhe dar a importância que merece: "Só há duas espécies inteligentes neste planeta, uma é a humanidade e a outra os livros. Este é um livro triste sobre a história dos livros desde que são impressos, contada de forma próxima da comédia."
Só que nem tudo é comédia em O Livro, em que o final [o livro foi publicado em 2003] faz uma previsão catastrófica para o livro tradicional face ao livro digital. Ainda pensa assim? "Acho que o livro digital não vai destruir o de papel, apesar de continuar a pairar uma ameaça muito perigosa sobre o livro. A maioria dos leitores não vão querer o novo suporte, até pela dificuldade em os ler. Nem conheço assim tanta gente mais nova que, tendo começado como fãs do livro digital, não tenham mudado para o papel. Os livros vão continuar a existir deste modo", diz. Não evita o remoque: "Há algo erótico quando se pega num livro à noite para ler e não é essa a sensação quando se leva a máquina para a cama."
Entre as confissões de O Livro está uma que pode ser polémica, a de defender o roubo de livros. Zoran Zivkovic esclarece: "Roubar um livro é mau para os editores, mas como eu não sou editor acho que se uma pessoa roubar um livro é um pecado muito maior não ler o livro do que o roubar. E eu sei que para um editor roubar um livro é como assaltar um banco!"
Na defesa que fez do livro, Zivkovic ressalta o facto de pertencerem a uma raça inteligente. E os escritores também o são? "Acho que os livros são muito mais inteligentes do que a humanidade. São a verdadeira essência do que há de melhor em nós e o reflexo perfeito da sabedoria."
Já que se fala do escritor, questiona-se como é o seu processo de escrita. Transcende-se enquanto escreve? "Com certeza, é isso que me acontece. Dou o melhor nos livros que escrevo." Ou seja, acredita na inspiração? "A mais complexa questão sobre literatura é como um livro aparece", alerta. Entre as hipóteses, aponta para o método habitual nos Estados Unidos: "Acham que se deve fazer antes de tudo um plano completo para o livro. Essa é uma forma estranha de conceber um livro, pois escrevo a partir do meu subconsciente. É aí que a história se vai formando através da massa crítica, surgindo no papel de um modo que desconheço." Pede-se que explique melhor: "Tenho só a perceção da primeira frase, a partir daí o livro vai-se desenvolvendo. Escrevo devagar, o que me faz ser ao mesmo tempo escritor e leitor. Tudo isto acontece desde o meu primeiro livro sem uma planificação antecipada, a única coisa que devo fazer é obrigar-me a sentar e a escrever porque a minha arte sai do subconsciente. Sinto-me um datilógrafo."
Antes de terminar, pede-se para explicar qual é o seu registo literário: "Na internet dizem que sou escritor de ficção científica. É falso, o meu estilo é definido em sérvio como fantástico - nos EUA, fantasia. É como o Hamlet, que é uma obra onde o fantástico está presente. Pode-se contrapor que é um drama político, mas quando aparece o fantasma do pai de Hamlet o que é isso? O fantástico existe, mas ainda não existe um nome que caracterize o registo em que escrevo."
 
 
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