sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A Sibila (Agustina Bessa-Luís)







O que mais me surpreendeu na leitura de «Sibila» foi o amor escondido que esta mulher carregou ao longo de toda a sua vida. Uma mulher cheia de amor mas, em paralelo, com uma vontade muito mais arreigada de o esconder em si mesma. Como uma vergonha, uma fraqueza.
 
Que livro, meus senhores. Que livro que hoje vos trago.
 
Esta é a história de Quina, desde menina até ao fim dos seus dias, sob o pano de fundo da sua aldeia e das suas gentes. Começamos desde logo por conhecer a relação ausente com a sua mãe e que viria a pautar, indubitavelmente, a sua vida, bem como a relação mais próxima ao seu pai, Francisco Teixeira, homem leviano e de muitos amores.

Perdida nos afazeres da casa, Quina sempre viu na irmã Estina o protótipo da beleza, no entanto, havia nela uma segurança que em nada estava perdida. Encontrou em si uma força especial, um recobro constante, para si e para os outros, nascendo  dessa força estreita nas palavras, e do saber dar-lhe uso, o nome de Sibila: a arte do predizer, do adivinhar, do esmiuçar aquilo que na alma dos outros parecia ninguém ver, a não ser ela.

Parecia ter nascido uma lenda nessa arte que só Sibila sabia manejar. Ler corações da forma mais singela possível. Que o dissesse a Condessa de Monteros, querendo-a só para si. Julgara ela por amizade, ou quiçá, algum amor.

Mas era apenas interesse. No fim, sabia-o bem. Sempre soube, ao longo da sua vida, que do nada que tinha transformando-o em riqueza, que poucos a amaram como desejou. Ou nenhuns. Da ligação com a Condessa, do mais impensável, surgira Custódio na sua vida, fugindo-lhe do controlo tão assumido, essa vontade de mostrar afeto, preocupação e suspiros de mãe aparente. Para o leitor mais emotivo, é impossível não se melindrar com certas passagens deste livro, particularmente, na relação de Custódio (Emílio de baptismo) com Quina. O amor que lhe tem, cegando uma mulher outrora tão determinada, foca o quanto o coração impera face às razões ulteriormente tão acima de qualquer coisa.

No fundo, e não sendo a minha intenção dissertar sobre um livro que exige a leitura e um impacto muito direto, e pessoal, a Sibila revela não só um contexto, mas uma rede de personagens e vivências que poderiam, muito bem, continuar a alastrar-se aos dias de hoje: eu falo do amor deslocado, da inveja que impera em prol dos laços de sangue e no fim, uma mulher que apesar de um trajeto desenhado a mão de ferro, nunca encontrou a mão de um Adão que a segurasse, com um total e verdadeiro afeto, na hora da despedida.



Um dos livros mais magníficos que tive o privilégio de ler.
Recomendo. Recomendo e recomendo, mais uma vez.


4 comentários:

Beatriz disse...

Ahhhhhhhh, posso respirar :DDD
Li o que escreveste muito na diagonal. Como sabes ainda não li o livro.
Mas se recomendas assim tão veementemente, fico menos receosa. Por que razão tememos certos livros?

Terminei a leitura de Zorba O grego (em inglês por falta de edição portuguesa), um livro absolutamente deslumbrante. Zorba, apesar de não imaginar uma vida sem mulheres acha-as seres "inferiores", seres que necessitam de mais atenção, que não são como os homens. Mas o livro não se resume a Zorba e às mulheres, diria que é um livro infinito. E Zorba existiu na realidade. Amor, ódio, paixão, Deus, Diabo, passagem do tempo, velhice, recordações e hedonismo.
Este livro é vida.
Como sabes, a cada 50 anos o comité Nobel torna público os nomeados do prémio. Kazantzakis não ganhou porque decidiram atribuir o Nobel a Camus, que mais tarde viria dizer que O Grego o merecia muito mais.
Um livro que nos faz pensar se de facto estamos a Viver.
Denise, é apaixonante.
Escrevo demasiado e dou a impressão de querer doutrinar, mas a ideia não é de todo essa.
Bom fim-de-semana

Denise disse...

Beatriz! :)

Como eu adoro as tuas visitas, de verdade!
Só tenho a agradecer as tuas partilhas. Longe de mim ver dessa forma que apresentas. Só agradeço, uma vez mais. E fiquei absolutamente ENCANTADA com o livro que falas. Tenho de ir já pesquisar!

Quanto à Sibila, podes ler o texto completo porque penso que não dou ali nenhum spoiler grave. Só digo: é um livro incontornável e aposto que vais gostar muito.
Há livros assim, que nos assustam. «O Crime e Castigo» tem vindo a ter esse poder sobre mim também... :|

Beijinho!

Carlos Faria disse...

A Sibila é de facto um livro magnífico, penso que o problema dela não foi não ter encontrado um Adão que a segurasse, mas sim o facto de ter abafado a capacidade de mostrar amor através do disfarce da cabeça fria com mão de ferro... e quando se rende é demasiado tarde e por alguém indigno de receber esse amor.

Denise disse...

Sim Carlos.
Vejo na passagem de Adão, na vida da Sibila, como a oportunidade perdida de deixar cair essa fachada de mulher austera. Quando na verdade, a sensibilidade imperava no coração dela. Um livro soberbo!

Boas leituras!