quarta-feira, 1 de março de 2017

A Arte da Vida (Zygmunt Bauman)













Oportunidade feliz é a de qualquer pessoa a que lhe venha cair este livro nas mãos.

Mais do que centrar-se no tema da procura da felicidade, este ensaio é um estalo de luva branca a muitas das condutas, aparentemente, ilusórias dessa tal procura.
 
Desde a clássica riqueza como condição básica à felicidade e à prontidão das necessidade mais requintadas, o autor aponta o dedo - e teorias! - sobre o que realmente importará na vida, numa sociedade a quem casou o conhecido termo de modernidade líquida.
 
Citando Laura Potter, hoje, parecemos viver num culto da pressa dos dias, esperar é uma afronta e um estar fora de moda. Olhar o relógio vezes sem conta, bufar de tédio, transmitindo essa importância de quem muito tem de fazer, prevalece numa sociedade que derrama importância de afazeres que, no fim de contas, penso eu, ninguém sabe explicar muito bem:
 
"Vivemos numa era em que "esperar" se transformou num palavrão. Gradualmente erradicámos (tanto quanto possível) a necessidade de esperar por qualquer coisa, e o adjectivo do momento é "instantâneo". Já não podemos dispensar uns meros doze minutos para cozinhar uma panela de arroz, de modo que foi criada uma versão de dois minutos para micro-ondas. Não podemos esperar que a pessoa certa apareça, de modo que acelerámos os encontros..." p.17

A tudo se exige, então, que para ser rentável, para valer a pena, tenha de ser rápido. Não pode dar trabalho, não pode requerer investimento e muito menos, o risco de sofrer.

 "Os relacionamentos "novos e aperfeiçoados", "de compromisso ligh", reduzem a sua duração prevista para que esta coincida com a duração da satisfação que produzem: o compromisso é válido até que a satisfação desapareça  ou desça abaixo de um padrão aceitável - e nem mais um instante." p.29
 
E a vontade de fazer pelo outro? O reflexo do outro e a vontade de se investir por nós e pelo outro? Parece uma mera abstração, apenas.
A leitura deste livro exalta, de uma forma muito clara, os diferentes pensamentos que vão entre a procura da felicidade pelo seu próprio umbigo e, por outro lado, numa perspetiva onde o investimento mútuo e a esperança (ainda) parecem ter lugar.
 
É de tamanha urgência refletir sobre estas temáticas mesmo que nos pareçam normais. Os tempos vão-se alterando, seguindo com eles a máxima de que tudo é normal e vai bem. Irá mesmo?
 
A leitura deste livro permite, na minha visão pessoal, exaltar uma máxima cada vez em maior desuso: a esperança na capacidade de investir e esperar.
 
As teorias tão distintas de Niestzche e Levinas, tão magnificamente confrontadas pelo autor, deixarão qualquer leitor (pelo menos é essa a minha esperança) aflito na pressa de chegar a algum lugar que melhor o defina enquanto empreiteiro na construção da sua própria felicidade: de si para si, enquanto único poderoso, alérgico à compaixão ou, por outro lado, no reflexo do ser para os outros?
 
Será tudo uma questão de conquistas pessoais ou, no final de contas, a felicidade andará, tão só e apenas à procura - também ela - de um amor capaz?
 
"O amor (...) abstém-se de prometer um caminho fácil para a felicidade e para o sentido. O "relacionamento puro" inspirado pelas práticas consumistas promete esse tipo de vida fácil, mas, pela mesma razão, torna a felicidade e o sentido reféns do destino.
(...) sem trabalho duro, a vida não ofereceria nada que a tornasse valiosa. Dois milénios depois, a sugestão não parece ter perdido a atualidade."p.176

Magnífico.

3 comentários:

Beatriz disse...

Olá, Denise :)
Tornou-se obrigatório estarmos sempre tremenda e impensavelmente ocupados.
Para tudo.

Eu gosto muito de ter os meus momentos de nada "fazer".
Beijinhos.

Carlos Faria disse...

Concordo que precisamos de obras que alimentem a esperança, nunca ouvi falar do escritor e fiquei na dúvida se é um ensaio ou uma obra de ficção.

Denise disse...

Beatriz! :)
Que bom ver-te por cá!
Sim... é verdade e é triste. Esses momentos de "nada para fazer" são essenciais para nos reorganizarmos, para termos alguma paz. Eu também gosto muito.
Beijinhos

Olá Carlos!
Muito bom mesmo. É um ensaio sim, já tive o cuidado de alterar no texto para clarificar isso mesmo :)
Espero que goste.
Beijinhos