quinta-feira, 9 de março de 2017

Quando ela era boa (Philip Roth)




Philip Roth, com esta história, mostra-nos o ponto máximo em que a moralidade de uma mulher a pode levar a um declínio sem fim. Parece um paradoxo, isto, o de fazermos tudo certo na vida, de atravessarmos sempre na passadeira, de sermos educados, firmes, corretos, delinear as trajetórias pelas leis de uma sociedade que cresceu a impor limites, para no fim, morrermos por dentro à custa de um coração atormentado pelo que tem de calar. Ou não.
 
«Quando ela era boa» retrata a história de uma família americana, num seio humilde, primeiramente narrada pelo avô Willard, que nos contará todos os esforços para erguer e formar a família que sempre desejou, longe de controlos e agressividades à imagem de um pai que sempre rejeitou. Da sua filha adorada, Myra, nascerá Lucy Nelson, personagem principal do enredo.
 
Quando o pai de Lucy não consegue sustentar a família e quando, em conjunto, decidem que o melhor será o avô Willard os receber em casa (só durante uns meses, Berta!), os problemas familiares começarão a rachar como fissuras em paredes. Os problemas emocionais e a infantilidade de um homem que não quer, aparentemente, crescer, empurram-no sempre para as tabernas mais próximas, encharcando-se de álcool e empanturrando os punhos na cara de Myra.
 
Um dia, Lucy, exausta pela passividade e bondade de um avô que sonha com um mundo que não existe, chama a polícia. Enfim, os problemas serão sanados, para sempre.
Mas a tal moralidade exímia nesta menina, depois mulher arguta e determinada, só lhe mostrará que, afinal, tudo o que faz numa tentativa de remediar o que de certo nada tem, só se virará, como um Diabo, a arder na sua própria direção.
 
Que lhe valha um Deus desconhecido. Começa, então, a refugiar-se na religião e numa crença divina de que, um dia porém, alguém perceberá as suas ações e que na verdade, ela é boa. Os outros não.
 
A leitura deste livro, por momentos, pode tornar-se desesperante: pela linha temporal, ao percebermos o desenvolvimento desta menina até se tornar mulher e no flagelo que lhe assiste, sempre, na culpa motivada de um passado que teima em não se apagar.
 
A correr contra tudo e todos, a Lucy mantém, ainda assim, essa esperança vã assistida por qualquer um de nós: quer ser amada, quer ser apreciada, quer ser cuidada e protegida. Que raiva sentiu, quando Roy lhe disse que poderia rasgar o retrato que um dia lhe tirou. «Não está assim grande coisa!»
Bastou. Bastou uma fúria para dali nascer um aparente amor. Terá sido mesmo amor ou necessidade de se fazer amar?
 
Este livro merece ser lido sem grande arnês. Não lhe vou contar o que se seguirá, mas sim, Lucy, na sua tentativa de fazer aquilo que considera correto, tentará também fazer de Roy o homem em que ela acredita estar destinado. É a partir daqui que todos os fantasmas da menina que foi voltarão a emergir, provando que o livro de Roth, mais do que as fragilidades pessoais que invoca, é um retrato fiel e soberbo sobre o quanto a família se poderá transformar num vórtice determinante das nossas ações. Boas ou más, claro está.
 
Gostei muito.

5 comentários:

Beatriz disse...

:)
Roth não me convence.
Parece que escreve sempre o mesmo livro.
Dos 3 que já li, os temas são sempre os mesmos. Judeus, impotência sexual, narcisismo, etc.
O que me enfastia não são os temas em si, gosto muito de Bellow e de Malamud, enfastia-me que não escreva assim tão bem, na minha opinião. Para que conste: eu não conseguiria fazer melhor :)

Todos temos gostos diferentes e isso é bom.

Beijinhos, Denise

Beatriz disse...

Denise, ele há coincidências!
Uma amiga telefonou-me pouco depois de comentar este post.
Está a terminar o livro de Roth e a gostar.
Disse-me que o início é muito arrastado mas que depois até vai bem.
Talvez lho peça um dia para ler :)

Um outro Roth que me esqueci de mencionar, e de que gosto muito, é Joseph Roth.
Beijinho.

Denise disse...

Olá Beatriz!

Foi a minha estreia com Roth e fiquei muito agradada.
De facto, talvez lhe possas dar mais uma oportunidade porque não foca esses assuntos que mencionas. A Lucy é uma personagem que, a meu ver, merece ser conhecida :)
A abordagem familiar é igualmente bem conseguida e permite reflexões muito interessantes. Se tentares, depois diz como foi a experiência!

Beijinho!

Anónimo disse...

Este livro é dos primeiros de Philip Roth. Os homens gostam muito dele.
Concordo com o comentário anterior, os temas são sempre os mesmos. A misogenia está sempre lá também. Nos USA ele é muito reverenciado, pelas posições políticas. Ganhou tudo lá mas na Europa não amonta a nada.
Tanto que fez birra por não ter o Nobel.
O último que li, requisitado da biblioteca, foi A mancha Humana. Nada de especial, e passados dois anos não me lembro de muito. É assim tão memorável! Os americanos têm um grande marketing e tudo que venha de lá aqui é soberbo.

https://www.theguardian.com/commentisfree/2011/may/22/philip-roth-carmen-callil-booker
Que bom que gostou, somos diferentes.
Deixe-me perguntar, já deixou de ler autores portugueses? No ano passado lia, mas este ano, passando por aqui às vezes não me apercebi de nada.

Denise disse...

Anónimo,

Foi a minha estreia com Philip Roth e pessoalmente gostei muito. Não me interessam as birras de autores ou egos frágeis. Eu gosto das obras e é nelas que me foco.
É isso mesmo que bem diz, somos todos diferentes e isso é muito bom.
Quanto à sua questão, provavelmente estará a referir-se ao meu projeto pessoal do ano passado, dos clássicos portugueses, «Ler(-te) em Português» que findou em Dezembro. No entanto, continuarei obviamente a ler autores portugueses, não tenciono parar.

Obrigada pela visita