domingo, 16 de agosto de 2015

Amor & C.ª (Julian Barnes)


Voltar a Julian Barnes é algo que faço, sempre, com expectativas muito elevadas uma vez que é um autor que rapidamente assumiu um lugar cimeiro nos meus autores conceituados.
Mais uma vez, não me desiludiu. Porém, devo dizer, que pela primeira vez, pensei dar-vos uma opinião bem contrária aquela que estou prestes a tecer.
 
Este «Amor e Cª», e talvez o título seja previsível, centra-se num triângulo amoroso e, confesso, que só por aí me criou algumas reservas, no início. A minha ideia do livro era totalmente diferente.
A escrita, dirigida ao leitor, apesar de por vezes cómica, não me estava a agradar por sentir as personagens um tanto idiotas e ocas, no entanto, dando uma oportunidade e avançando na leitura, somos surpreendidos pela mensagem real que Julian Barnes pretende com este Amor. E com a Companhia.
 
Que o amor pode, rapidamente, se transformar numa perigosa armadilha, não é novidade para ninguém. Pelo menos, não deveria ser. E também que, mesmo não sendo novidade para ninguém, todos acabam por lá cair.
Porque querem. Porque, no fundo, é o desejo de todos. Cair. Cair louca e profundamente numa armadilha, quase mortal, e derradeiramente atirarem-se. Atirarem-se, ainda mais, a um precipício que, paradoxalmente, os salvará das agruras dessa vida tão cinzenta, tão vazia, tão oh!, ingrata, injusta, monótona, sem esse amor, sem essa companhia, sem esse abraço, sem essas palavras quentes que aquecem a alma e deixam o corpo numa ronha de manhã de Sábado.
 
Tudo muda. O sentido da vida muda. Tudo se transforma, até os sentidos ganham uma nova dimensão. Chega a ser ridiculamente comovedor, para quem vê de fora.
E quem vê de fora, parece auspiciar o mesmo. Uma nova dimensão. Uma companhia. Uma oportunidade de redenção.
 
"Apaixonei-me por ele naquele momento, apaixonei-me por ele porque. É uma espécie de necessidade social (...)" [p.74]

Stuart. Oliver. Gillian.
Eis as três personagens que dão vida a uma história que poderia, perfeitamente, ilustrar a vida de qualquer um. Feliz ou infelizmente.  
Felizmente porque seria sinal de amor.
Infelizmente porque seria sinal de companhia.
 
E é precisamente este o ponto que gostaria de realçar quanto a esta minha leitura.
O amor é dos sentimentos mais desejados, não há dúvida. Amar e ser amado, na mesma medida, ou mais, não interessa. Mas ser amado. Amar. Encontrar a pessoa, seguir uma nova jornada, encaminhados por essa companhia, certa, destinada.
 
Mas e se, na verdade, existir outra companhia?
 
 
E se, na verdade, aquilo que se considerou o início de uma jornada tão acertada foi, afinal, a previsão de uma companhia alheia, um futuro prestes a desenhar-se... para outra pessoa?
Não faço questão de adiantar-vos nada da história, pois poderão achar demasiadamente previsível, e poderão igualmente sair (positivamente) surpreendidos com esta, eu diria, lição de Julian Barnes.
 
As perspetivas colocadas em cima da mesa, sobre os relacionamentos, sobre os amores e desamores e, sobretudo, os receios e as dificuldades das decisões, depois de tomadas, são exemplarmente edificadas exigindo reflexões profundas, bem depois de fecharmos o livro.
 
"A previsibilidade. Cortejar, Conquistar, Cansar, Acabar-Tudo. O mesmo enredozinho sinistro. Sinistro, mas nem por isso menos propenso a criar habituação. Após cada falhanço, a procura de mais outro falhanço. Façam mas é um mundo novo!" [p.146]

Nada é assunto novo, neste livro. No entanto, a forma como as questões são retiradas e postas a lume, para reflexão, surpreendem e amadurecem ainda mais um tema para sempre verde.
Verde porque jamais haverá alguém capaz de entender as leis do coração.
Feliz ou infelizmente.
Felizmente porque há muita coisa que justifica o enaltecer desse amor.
Infelizmente porque há muita coisa que justifica a maratona de quem não quer saber, sai a correr, e não volta.
Nunca mais.


Recomendo!
Boas leituras

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