segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Som e a Fúria (William Faulkner)


Este livro provocou-me dois sentimentos contraditórios.
O primeiro foi o espanto em aguardar dois anos para me decidir a retirá-lo da estante. O segundo, a tristeza em, finalmente, o ter lido. Eu disse que eram sentimentos contraditórios.
Um clássico incontornável da literatura, este «O Som e a Fúria» é sobretudo invocado pela sua difícil leitura e por ser a menina dos olhos do seu autor, William Faulkner. Ele que referiu ter sido o livro que mais sofrimento lhe causou, tendo levado anos a ser escrito e acabado.
É um livro tão inesquecível que pelo facto de já o conhecer, tão triste fico ao saber-me deste lado e e prever os afortunados que por aí andam que ainda poderão vir a sentir a ansiedade, a dúvida, a incerteza enquanto leitor para, depois, numa derradeira viragem, tudo acabar numa serenidade que só uma obra magistral como esta pode dar.
 
Dividido em quatro partes, narradas por diferentes pessoas, o leitor entra de olhos vendados na vida de um casal e dos seus quatro filhos. Um enredo familiar negro, triste e pesado.  
 
Pela voz de Benjy, com um atraso no seu desenvolvimento, apenas se expressa pelo choro constante que aborrece. E enerva. Só Caddy, a irmã, o ama de verdade, e também só ela tem o dom de o acalmar.
Entramos assim numa espiral de dúvidas, em que não há qualquer respeito temporal no discurso de Benjy, navegando pelas memórias familiares, pelos acontecimentos que vão surgindo pela corrente dos seus próprios pensamentos. O leitor, então, terá de ir tateando e descobrindo por si mesmo, numa névoa ainda muito cerrada, os acontecimentos de uma tragédia que se adivinha...
 
Segue-se um discurso mais coerente, mais nem por isso mais claro, de Quentin. Precisamente na véspera do seu suicídio. Neurótico e depressivo, este jovem vive de dentro para fora, entregue a uma dor que só ele conhece. Parece agora ao leitor que a névoa se vai dissipando permitindo conhecer um pouco mais desta família obscura. O discurso mais fluente de Quentin ajuda a enquadrar mais e melhor os Compson num quadro cuja cor há muito foi extinta.
O amor a Caddy, por muitos incompreendido. "Sabes o que é ter uma irmã, sabes?" A desonra. O bom nome de uma família. O orgulho ferido. Fui eu, Pai. Não fui. Fui eu.
E as dúvidas permanecem.
 
É o irmão Jason quem assume a terceira parte do livro. Num discurso agora totalmente possível de compreensão, esta personagem irascível, racista e ambiciosa, descreve aquilo que falta para, finalmente, a visão das coisas clarear de uma vez só.
Jason assume uma família que não quis para si. Caddy, a irmã que ("uma vez puta, para sempre puta") manchou a imagem da família mortalmente, matando o pai de desgosto. Ela trouxe ao mundo a sobrinha que agora tem de criar, em boa parte ao respeito, que mais não seja forçado, pela mãe, vivendo amargurado e oprimido pela raiva de uma vida roubada pelo destino de outros.
 
Por último, Dilsey, a empregada negra que tudo viu começar naquela casa onde o mal impera, deseja - mesmo que inconscientemente - ver igualmente tudo acabar.
 
Se há palavra que caracterize as personagens centrais deste livro, essa palavra é egoísmo. Todos eles giram em torno de si mesmo, nos seus queixumes e dores.
E depois, temos Caddy, ausente e presente em toda a história.
É o amor e o ódio a esta mulher. O som e a fúria que provoca em tudo o que toca e agita em seu redor.

 
Apesar da dificuldade de leitura que, no meu caso, com o prefácio de António Lobo Antunes, me permitiu desde logo uma maior facilidade na mesma, considero estar perante um dos melhores livros que já li. 
Pelo enigma, pela densidade psicológica e física de cada personagem, pelo clima que se sente constantemente árido e frio, pelo drama e, obviamente, pela escrita magistral que ondula e nos leva mesmo sem saber bem para onde, mas que nos leva.
No fim, há a certeza da compensação de ir sem questionar.
 
Magistral!

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Ontem ainda comentei esta obra que li há poucos anos atrás num grupo de leitores, onde disse o seguinte:
"É uma obra que requer algum esforço de entrada, pois o primeiro capítulo são as memórias de alguém portador de deficiência mental e como tal não se apercebe da realidade como o comum dos cidadãos... depois vai-se entrando e vendo o mesmo com olhos de outros irmão todos diferentes para concluir um puzzle sobre a vida difícil daquela família e é isto a genialidade desta obra é que quando se relê se percebe sempre de algo diferente tendo em conta o que fomos assimilando das memórias."
Curiosamente a "quase escrava" negra é o ser humanamente mais rico e amoroso do livro centrado nesta família que parece ser o garante de valores.

Denise disse...

Olá Carlos!

Uma obra incrível.
Tal como dizes, vamos conhecendo aos poucos, mediando o discurso de cada personagem. O início da leitura pode ser um pouco angustiante para o leitor mais impaciente ;)
Quanto ao que referes da Dilsey... penso que também ela revela traços de egoísmo e de revolta perante aquela família, sobretudo para com Jason.
Não sei até que ponto também não tem dentro de si desejos de vingança e maldade, mesmo que inconscientes. Fiquei com essa perceção.