quarta-feira, 16 de março de 2016

Purity (Jonathan Franzen)

Foi com «Liberdade» que conheci a genialidade de Jonathan Franzen.
Em «Purity» pude constatar, de uma vez, que este será provavelmente o escritor contemporâneo que mais gosto, que mais rapidamente cativou o meu interesse e escalou os lugares cimeiros das minhas preferências. É absolutamente soberba a forma delicada, simultaneamente mordaz e cruel como Franzen escreve sobre a América e seus costumes, numa espécie de montanha russa nivelada por momentos mais e menos densos.
 
Este livro conta a história da jovem Purity, a braços com uma dívida que contraiu para pagar o seu próprio curso, sendo este apenas um dos gatilhos de uma história repleta de personagens completos, complexos e muito bem desenvolvidos.
 
E Frazen faz isso mesmo ao longo do livro: cada uma das suas partes evidencia com maior pormenor cada uma dessas intrincadas personagens. Temos Andreas Wolf, jovem promissor e fundador do Projeto Luz Solar, cujo objetivo passa por traficar todos os segredos do mundo...
 
Annagret. Anabel. Tom. Leila.
 
Mais personagens adensarão um livro inesquecível e a forma como Franzen os cruza e descruza é, simplesmente, magistral.
 
Os caminhos de Purity e Andreas, ambos cuja vida foi pautada pelas neuroses de mães possessivas, que vivem para lá da realidade dos dias, vão cruzar-se de uma forma aparentemente casual. Pasme-se o leitor com o futuro reservado a ambos.
 
Um dos aspetos mais fantásticos da escrita de Franzen é o crescimento que consegue atribuir às personagens, bem como a sua (enorme!) densidade psicológica, que agarra o leitor impreterivelmente.
 
Não quero dar spoilers deste livro até porque, para isso, teria de desenvolver de uma forma bastante exaustiva todo o enredo. Nesse sentido, o que pretendo com esta minha análise é enfatizar o monstro que é Jonathan Frazen na arte de bem escrever, na arte de bem tecer um enredo repleto de personagens peculiares e brilhantes, na arte de perpetuar a sua história depois de lida.
Penso que são precisamente estes três critérios que definem, para mim, a qualidade de uma obra. A qualidade de um autor.
 
«Purity», mais do que um livro de segredos e o peso que estes acarretam ao longo da nossa vida, é um cenário bem demarcado do medo atroz da rejeição, do não se ser amado, tão bem personificado em Andreas Wolf e (desculpem o exagero e repetição) magistralmente arrastado a todos as personagens envolvidos.
 
Através das fraquezas das personagens, Franzen cria assim o ambiente ideal sobre o quanto os segredos têm de profundo e, simultaneamente, de fútil. Uma ambivalência que toca a loucura, que pesa e destrói.
 
Mais do que recomendado!

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Li Liberdade e gostei, um escritor que naquele analisa muito do submundo do controlo da opinião pública e como trabalho em ambiente vi muito retrato da realidade.
Curiosamente o que menos gosto em Franzen é de facto a escrita, dá para perceber que é uma escola americana: escrever de uma forma que aparenta sr pouco trabalhada, sem recurso a estilos literários para dar um ar natural, realista e simples da descrição, embora não seja de facto uma escrita ocasional ligeira como aparenta. Gosto de textos com figuras de estilo mas clássico.

Denise disse...

Olá Carlos :)

Também eu gosto de uma escrita bem trabalhada, profunda e que desafie constantemente.
O que acho de mais interessante no trabalho de Franzen é que a partir de uma escrita aparentemente leve, o autor consegue predizer comportamentos e adensar a complexidade de cada personagem de uma maneira que me surpreende sobremaneira.
Não é um autor propriamente direto em tudo aquilo que diz e, para mim, a beleza da obra - sobretudo em Purity - reside precisamente aí.

Tenho o primeiro livro dele «Correções» à minha espera! :)

Boas leituras!