sábado, 3 de dezembro de 2016

O Barão de Lavos (Abel Botelho)






Esta opinião já vem um pouco atrasada. O livro «O Barão de Lavos», de Abel Botelho, foi a minha escolha para o desafio do «Ler(-te) em Português do mês de Novembro e a verdade é que estamos perante um livro muito delicado. Eu diria, nada fácil.
 
Integrado na trilogia «Patologia Social», este livro retrata o tema da homossexualidade e a pedofilia tendo, inclusive, para alguns, o mérito de ser a primeira obra a retratar aqueles temas.
 
Talvez por esse motivo não seja um livro fácil de interiorizar. Pelo menos comigo não foi.
 
É a história de um homem, D. Sebastião, mais conhecido pelo Barão de Lavos, casado com a Baronesa Elvira que, desde que se conhece, tem uma queda nada subtil por rapazes jovens.
 
Nesse caminho conhece um rapaz de 15 anos Eugénio e estão assim as linhas criadas para imaginarem o que se seguirá. Contudo, temos o efeito surpresa de um Eugénio esperto e interesseiro que a par com a paixão assolapada a inconsciente do Barão, aproveita o à vontade daquele e as suas visitas regulares a casa para alimentar a paixão que despertará, também, à própria Elvira.
 
Que drama, diriam. Eu concordo.
 
Gostei particularmente do pormenor do autor em frisar o interesse da Elvira pela leitura de «Madame Bovary», pois mais do que a paixão homossexual, este livro exulta o adultério nas suas diferentes facetas e a dor, igualmente multifacetada, que imprime a cada um.
 
Quando o Barão descobre a traição do jovem e da sua própria mulher, jamais se conseguirá recompor. Mais amores estarão por surgir, no entanto, acreditem, que mal fadados também.
 
Uma história pesada, eu diria, mas que ainda assim não deixa de nos obrigar a refletir num conjunto de valores, que à data da publicação do livro, hoje em dia, continuam urgentes nesse sentido.
 
Por aí recomendo vivamente a leitura. Como experiência pessoal, nunca é fácil sermos confrontados com a mesquinhez de sentimentos que nos levam para tão longe do suposto...
 
Boas leituras.
 
 
E agora, venha o último desafio! :) 

7 comentários:

Beatriz disse...

Olá, Denise :)
Uma das características de Botelho que me agrada sobremaneira é a de não atenuar a realidade.
A sociedade Portuguesa do século XIX foi escalpelizada, não fosse Botelho médico de formação.
Creio que o livro é não só mas também sobre a hipocrisia da sociedade. Como penso que tenhas reparado, o livro não se cinge ao Barão e a Eugénio.
A grande Patologia Social não é a homossexualidade mas sim a hipocrisia do dinheiro e do estatuto social, na minha opinião. A sociedade que, conhecendo o vício do Barão aceita-o como ele é, mas acaba por ignorá-lo quando perde o seu dinheiro. A sociedade releva todo o seu modo de vida e a maneira de ser, as normas morais parecem ser muito relativas. Nem as mulheres casadas e o adultério parecem importar quando o tema é homosexulaidade, não é?
Como sabes, gostei muito do livro e uma grande parte deve-se à componente artística, achei muito bem conseguida e até "explicativa".
Mas felizmente não gostamos todos do mesmo (quão entediante seria?), e por essa mesma razão não tenho comentado ultimamente. Mas sobre este livro quis deixar a minha opinião.
Boas leituras!
Beijinhos.

Anónimo disse...

Parece que não gostaste, né?

Denise disse...

Olá Beatriz :)

Obrigada pela tua visita!
Se calhar não expressei bem a minha opinião porque eu gostei do livro :) só o considerei pesado, como disse...
Considero a homossexualidade o tema basilar sem, no entanto, renegar os outros temas como tão bem referiste. Centrei-me foi naquele que me tocou mais... Como digo, é uma obra que nos permite refletir numa série de valores e de questões muito pertinentes. Obrigada pela recomendação e os teus comentários são sempre bem recebidos, gostes ou não das obras que vou lendo, sim? :)

Beijinho!

Anónimo,
Gostei sim, é um senhor livro... talvez por isso me tenha deixado levar pelo coração (eheheh) e não tenha frisado mais que tenha gostado. É o tema, sabes, nem sempre é fácil de gerir mas como diz a Beatriz, e bem, o realismo de Botelho é importante e merecedor de destaque.
Beijinhos

Beatriz disse...

Denise :) Olá!
Talvez tenhamos tido, ou eu, uma momentânea falha de comunicação.
Espero não ter-te aborrecido com o comentário anterior, a intenção não era essa. De todo. Sem vermos as expressões tudo se complica e pode gerar mal entendidos.
Quando não gosto de um escritor não comento a dizer tal coisa. As pessoas são livres, felizmente :)
Em Dezembro não haverá desafio?
Estou no início de "Cerromaior", de Manuel da Fonseca. Tinha muita curiosidade em conhecer este escritor, não sei explicar bem a razão, talvez por adorar o Alentejo e Fonseca era alentejano.
Para já ainda não posso falar muito, do pouco que li agradou-me. Quando terminar e caso te interesse, digo-te.

Beijinhos!

Denise disse...

Que bom, Beatriz!

O que eu gosto mesmo é das tuas visitas e das tuas apreciações sempre relevantes!
Volta sempre, já aprendi imenso contigo e espero poder partilhar, também, as minhas coisas boas contigo :)

Um beijinho e ótimas leituras
(Diz sim, vou ficar à espera!)

Beatriz disse...

:)
Já terminei "Cerromaior".
Escrito em 1943, durante o regime fascista, o livro serve o propósito de denunciar pela ficção o estado das liberdades civis. E a censura desbastou bastantes páginas por isso.
Um romance rural (e neo-realista)interessante e que me agradou mas que não chegou para me deslumbrar.
Em 1981 foi adaptado ao cinema.

(Talvez queiras, ou não, passar no site da tua editora até dia 15 ;))
Beijinhos.

Denise disse...

Olá! :)

Tenho de pesquisar!
(Já andei a espreitar pela bela editora, ai... :x)

Beijinhos, Beatriz!