Em «As moscas de Outono», de Irène Némirovsky, encontramos uma pequena história em que dela se extrai mais uma espécie de amor improvável: o amor de uma empregada, Tatiana Ivanovna, pelos seus amos, os Karine.
«A escrita subtil e a afinada certeza psicológica recordam-nos do quanto a boa prosa pode conseguir em muito poucas palavras.»
The Times
É isto mesmo. A escrita sempre tão limpa, harmoniosa e direta, de Irène, transformam uma pequena história como esta, a de uma empregada que segue os amos na época anterior à Revolução Russa, num marco memorável sobre amor e resiliência.
Tatiana sempre dedicou toda a vida ao cuidado dos Karine. Quando os amos, pela força das circunstâncias políticas, se vêem obrigados a abandonar a sua casa e exilando-se em Paris, Tatiana é a última a abandonar o barco. Permanece, contra tudo e contra todos, na casa agora vazia, apenas cheia pelas memórias de um passado que, a ela, lhe parece sempre presente.
Nessa fase, entregue à solidão da casa, acolhe um dos filhos dos Karine, ferido e às portas da morte. A vinda deste jovem provoca-lhe uma catadupa de memórias passadas, as mais felizes, que parecem perdurar nos valores de uma mulher que sempre cuidou, preservou e acarinhou a família para quem trabalhou desde sempre.
Programado o seu coração, de forma vitalícia, no cuidado aos amos, também ela acaba por ir ao seu encontro, no pequeno apartamento em Paris. O choque de uma mudança nunca esperada reflete nela o medo do presente, o desejo do passado, a consciência dessa mesma impossibilidade.
O final deste livro, publicado originalmente no ano de 1931, sublinha a tragédia como redenção. A consciência como porta que se abre a todos os medos e o desejo, enfim, de continuar num passado que, tanto, se quer inalterável.
Leia. Leia já!
Seja feliz,

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