segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nada (Carmen Laforet)



















«Nada» é o romance que revolucionou a literatura e agitou a sociedade espanhola do pós-guerra.

Com a intenção de estudar e mudar de vida, Andrea parte rumo a Barcelona, hospedando-se na Rua de Aribau, na casa da sua avó e tios.
Esta será a sua história. E a história dos outros. Que contempla, apreensiva, desprendida de si mesma, ausente e presente simultaneamente numa dor que desconhece. Mas que lhe procura a origem nos passos, deambulantes, que dá pela cidade.

Carmen Laforet vai encher-lhe a alma. A sua escrita soa a uma espécie de desconsolo. Um desconsolo quente, que tudo diz numa leveza tal, que comove e promete fidelidade até ao fim da história.
“(…) apesar de todos aqueles seres trazerem consigo um peso, uma obsessão real dentro de si,  à qual poucas vezes aludiam diretamente.”

O ambiente na casa era pautado pela fome, pela secura dos gestos e amargura de afetos, que não se dizem, em todos eles. Desde a avó, pequena, frágil e em constante pranto, ao tio Juan e Gloria, Angustias e o enigmático Róman.

No fim da Guerra Civil Espanhola, aquele contexto azedo e autoritário está espelhado fielmente em cada personagem. Também a fragilidade e o cansaço. A fome de Andrea, dentro e fora.

Mais do que uma história sobre uma jovem que decide estudar em Barcelona, largando tudo para tal, Carmen Laforet, desenhou dentro daquele contexto histórico, personagens personificadas de um período ideológico autoritário como foi o Franquismo. Falo de Juan mas, particularmente, de Román.

As personagens viverão os seus temores, e na sombra, Andrea crescerá sem qualquer alicerce que não seja correr por si mesma, aprender por si mesma:


“Parecia-me que de nada vale correr, se vamos sempre pelo mesmo caminho, fechado, da nossa personalidade. Alguns seres nascem para viver, outros para trabalhar, outros para ver a vida. Eu tinha um pequeno e mau papel de espectadora. Para mim, era impossível sair dele. Impossível libertar-me. Uma tremenda angústia foi, nesse momento, a única coisa real para mim.”
 
Uma história onde o desejo de vingança impera, mas também o amor dará os ares saudáveis da sua graça. Uma história de superação, de resiliência e de crescimento.
Andrea, personagem inesquecível, mostra-nos um mundo triste, solitário e muito sombrio, mas ainda assim, com brechas a dias novos, carregados de promessas.
“Desci as escadas lentamente. Sentia uma viva emoção. Recordava a terrível esperança, o anseio de vida com que as subira pela primeira vez. Agora partia, sem ter conhecido nada daquilo que, confusamente, esperava: a vida na sua plenitude, a alegria, o interesse profundo, o amor. Da casa da Rua de Aribau, não levava nada comigo. Pelo menos, assim o julgava eu, então. (…) Barcelona inteira ficava para trás.”  

 
Boas leituras.

4 comentários:

Carlos Faria disse...

Os excertos são muito bonitos, mas nunca tinha ouvido falar desta obra.

Denise disse...

Uma escrita tão bonita, Carlos.
Considerado um dos grandes clássicos da literatura espanhola. Vale todo o seu tempo.
Leia! Por favor! :)

Beatriz disse...

:)
Que bom saber que gostaste, Denise.
Um outro escritor de que gosto, e que também toca no pós-guerra, é Marsé.
O último que li foi "Caligrafia dos Sonhos" e, caso ainda não conheças, recomendo.

Beijinhos.

Denise disse...

:)
Gostei tanto, Beatriz.
Vou voltar à autora, com toda a certeza.
Não conheço o que referes, mas vou já tratar disso. Obrigada!
Beijinho!