terça-feira, 4 de abril de 2017

Virginia Woolf e o Anjo do Lar













Dos vários ensaios de Virgínia Woolf, este "Profissões para Mulheres" é especialmente bonito e motivador.
Nele encontraremos as impressões da autora quanto à posição da mulher no mundo laboral e é realmente bonito de se ver, correndo o risco de me repetir, como a autora se coloca no seu papel, como aligeira a fama que lhe é sua por direito e de como foi traçando o seu caminho enquanto escritora.
Do nada, pegando na caneta e desatando a escrever, decidiu um dia enviar os seus artigos pelo correio. Estariam os dados lançados e o resultado daquele que viria a ser o seu primeiro salário.
Se todos, eventualmente, esperariam o investimento em compras de mercearia e outros que tais, Virgínia preferiu comprar um gato. Mais tarde, precisaria de um carro. E assim foi.
Ao longo do ensaio, mais do que a sua jornada até se estabelecer como escritora, Virginia partilha aquele que foi, porventura, o maior dos seus monstros, alargado provavelmente a muitas outras mulheres, não necessariamente escritoras (a beleza dessa partilha de pensamento reside, precisamente, aí): o anjo do lar.
O anjo do lar é aquele que na mulher lhe diz e lhe prova a sensatez dos seus atos que se querem, sempre, sensíveis e serenos. Mostrar ao homem que a mulher não tem ideias próprias, limitando-se a escrever só e apenas o factual. Uma soma de um mais um de um dois previsível, vá. Talvez lhe permitam, porque faz sentido e não induz pensamentos profundos, para lá das paredes do seu quarto.
Daqui muitas reflexões surgirão. Uma das premissas de um ensaio, creio, assenta nisso mesmo e este pequeno ensaio tem ombros largos para abarcar questões sem um fim à vista.
Será que volvidos tantos anos, a mulher está finalmente livre dos estereótipos incutidos pela diferenciação de género? Estará, de facto, um livro isento do seu real valor apenas e só pela história que invoca? E quem o escreveu, homem ou mulher, ditará tendências, preferências?
Virginia defende que o caminho já foi desbravado. A mulher, aparentemente, conquistou já um quarto só seu.
Faltará, certamente, um recheio requintado e firmado por mão de mulher. Sensível mas, nem por isso, menos capaz.
 
Obrigada, Virginia. Pelo bem que me fazes.

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