terça-feira, 19 de maio de 2015

O Herói Discreto (Mario Vargas Llosa)

AVISO DE SPOILER.

NÃO QUER SABER, NÃO LEIA!
 
 
 
 
 
Hoje trago-vos a minha crítica do primeiro livro que li do vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2010, Mario Vargas Llosa, com “O Herói Discreto”.
Não fiquei rendida à escrita deste autor. Mais rendida fiquei à sua história de vida, digna de um livro, e aposto que este em específico espelha um pouco dela, mas não nos adiantemos.
«Herói Discreto» é uma história centrada em Felícito Yanaqué, um homem com perto de 50 anos, muito respeitado na sociedade, que lutou de pulso firme para conquistar a estabilidade financeira, e que hoje é gerente de um negócio de transportes, do qual muito se orgulha. Tenta, a custo, transmitir aos filhos o fruto do esforço como forma de se conseguir alguma coisa na vida. Que não é com panos quentes, nem com falas mansas que a coisa lá vai. Não é manso nas palavras nem nos gestos, mas tem um coração quente, no lugar certo.
Tudo muda com a chegada de uma carta. Uma carta a extorquir-lhe dinheiro, com ameaças.
É precisamente nesse momento que Felícito mostra esse herói que há dentro de si, e nega perentoriamente compactuar com essa gente, denotando aqui o traço definidor da escrita de Llosa: a ênfase das desigualdades sociais, das injustiças e das atitudes iniciais, por vezes, quase impensadas, que o ser humano assume para chegar aos finais desejados.
Sentindo a injustiça de compactuar com corruptos e sentindo-se duplamente traído ao descobrir que os seus colegas aceitam ser extorquidos em prol de uma paz fingida, mais bate o pé nessa recusa fazendo desta uma homenagem e consideração infinitas ao legado deixado pelo seu pai: “Não te deixes pisar por ninguém.”
A relação familiar, mais especificamente, a relação entre o pai e o filho, são a marca notória e presente ao longo deste livro. Apesar de poder o leitor sentir-se injustiçado ao deparar-se com duas histórias paralelas conhecendo-lhe o fim e o cruzamento das mesmas, praticamente no fim, há que reconhecer que a mensagem do autor é pertinente e detentora de uma reflexão profunda para lá da leitura do livro. A relação entre pai e filho é aqui essencial para que as linhas soltas e a essência do tema do autor se fundam num só: o amor de sangue, que corre nas veias, é definidor e é um marco na vida de um homem. O modelo, o exemplo de alguém na vida, para moldar, orientar, revelar e projetar, é uma nota bonita que o autor perpetua neste tão discreto herói.
A história de vida de Mario Vargas Llosa é marcada pela ausência do seu pai até aos 11 anos de idade, que abandonou a mãe após saber da sua gravidez. Pensando que o pai havia morrido, Llosa vê o pai regressar aos 11 anos, lidando igualmente com a aceitação do seu regresso por parte da mãe.
Neste livro podemos perceber a transferência da figura do pai, da importância desse homem na vida de qualquer pessoa: um filho trai o pai, escrevendo cartas ameaçadoras e envolvendo-se com a sua própria amante. Llosa nunca revelou qualquer pudor em se projetar nos seus livros, tendo inclusivamente saido prejudicado na sua vida política em detrimento das suas obras e em consequência de um povo tão preconceituoso como o seu (Peru).
É com base nisto que refiro a interessante história de vida do autor e a minha incapacidade de me desligar dela ao longo da leitura deste livro onde, acredito, é fácil perceber certas ligações e transferências à tão imortalizada figura paterna.
Não é, para mim, uma escrita envolvente, e as histórias paralelas nem sempre me fascinaram, no entanto, a mensagem que de lá se retira vem connosco, o que me leva a considerar estar perante um bom livro.
Boas leituras!
 

 

2 comentários:

Marta disse...

Que história de amor corrosiva, mas vale a pena ler.

Bom fim-de-semana :)

Denise disse...

Olá Marta,

Penso que te referes à citação do livro «Monte dos Vendavais» não é?

Concordo. Bela palavra para a descrever. Corrosiva e simultaneamente das mais belas :)

Obrigada pela visita, e boas leituras!
Bom fim-de-semana