sábado, 19 de dezembro de 2015

Flores (Afonso Cruz)


flor |ô|
(latim flos, floris)
 
substantivo feminino
 

1. [Botânica]     Parte do vegetal de que sai a frutificação.

"flor", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013
 
 
Dizes tu que me conheces quando tens a cara feita de lata para, desavergonhada, deixares o chapéu em cima da cama, Clarisse.
Clarisse. Nem o som do teu nome é o mesmo agora. Assim como os beijos que damos todas as manhãs. Ganharam o verdete da rotina pesada. Dos dias pesados que, monótonos, se seguem uns aos outros numa repetição esquizofrénica.
 
"Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica (...)" p.72

Várias vidas foram passando por nós, que desatentos, resvalámos pelo campo de uma indiferença que acalma os monstros da noite. Várias vidas que escondem promessas nunca cumpridas, que acalentam noites mal dormidas, que abraçam as culpas nos outros, que nos tornam impunes, que nos compram sonhos a saldos de 80%, que nos prometem mundos e fundos de mais vidas fingidas entre espelhos que reclamam respostas em voz alta.

Nesse intermédio, rejeitamos tudo Clarisse.
 
Nesse intermédio, vamos rejeitando o suave perfume das flores no exato momento em que aquela começa a cair, com a promessa de um novo fruto. De uma nova aventura. De uma nova jornada que apela a mudanças de pele, de estações e de confrontos com novos ventos.
Mudanças que rejeitámos, um no outro.
Rejeitámos as nossas próprias flores.
 
Rejeitámos tudo, Clarisse.
Para no fim, patéticos como só o ser humano pode ser, nos entregarmos aos frutos dos outros.
 
Se a flor cair, junto com o fruto, basta-nos assistir.
E quem sabe, amanhã, poderemos enfim dar um passo em frente por nós mesmos.
 
 
A minha estreia com Afonso Cruz num livro de enorme sensibilidade, sobre a capacidade do ser humano em se esconder nos mais recônditos lugares do coração, e do corpo, numa tentativa quase sempre frustrada de eliminar esse vazio estranho que atormenta, questiona e que, a muito custo, vai empurrando...


Recomendo.

2 comentários:

Carlos Faria disse...

Comecei a ler hoje mesmo

Denise disse...

Ahhh que bom :)
Gostei muito.
Vou passar p/ ler o seu comentário quando terminar.

Beijinhos e boas leituras!