terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O Luto de Elias Gro (João Tordo)


Já tiveram a oportunidade de ouvir o som da pinha ao cair do pinheiro?
É um som seco. Há um estalar seco que larga a pinha e a atira, incerta, pelos ares até cair sem destino.
Também assim é o narrador desta belíssima história de João Tordo.
Ele larga tudo e atira-se a uma jornada sem destino pois o dele, esse, parece ter terminado na ausência daquilo que foi e não retorna jamais. Quando assim é, perde-se o sentido das obras construídas com precisão matemática. Há que derrubar em pleno a totalidade de uma felicidade já infecunda. Que se alimente, então, um sofrimento sôfrego por mais, inexplicável, mas certo de que deve perpetuar.
 
João Tordo obrigará o leitor (de um modo feliz, entenda-se) a retroceder para reler trechos que já passaram, tal é a intensidade, a profundidade e a verdade da sua escrita.
 
No ambiente solitário de uma ilha, esta é a história de um homem que procura fugir de si mesmo. Se existem vários tipos de dor, e porque existem, acredito que a maior seja aquela a impulsionada pela culpa, que escraviza, que perfura, que martela e relembra. O pão nosso de cada dia.
"No fundo, a dor é paz; um lugar intermédio onde finalmente entendemos que, por mais que se repitam os gestos hábeis de todos os dias, o que aconteceu nunca tornará, e todas as coisas - todas, sem excepção - se irão perder, uma de cada vez, devagarinho, sem que tenhamos tempo de as deter na ida ou de perguntar para onde vão." (p.84) 
Um livro de pesada tristeza, «O Luto de Elias Gro» aborda temas relacionados, essencialmente, com a perda e esta, entra na vida por tantas portas e de tantos feitios...
Na jornada que a personagem estabelece para si mesmo, de clausura, de auto sofrimento, fechando-se num farol que arrenda a um dos habitantes da ilha, o leitor presenciará a impossibilidade da solidão levada ao extremo, bem como as suas consequências. A deriva do corpo em detrimento do peso de chumbo de emoções, outrora leves, e que hoje são pés que carregam e diminuem quem já foi.
 
No reencontro com gentes, afinal tão iguais, no reflexo de histórias de faroleiros e escritores, que se cruzam e repetem, depois de tantos anos volvidos, este homem perceberá o seu lugar no mundo.
"Se aceitares que se faça a vontade d'Ele, e não a tua." (p.311)
É com Alma que se permite emocionar e é com Elias Gro, para todos O Padre, mas que na sua boca não passa de um mero carteiro, entregando a mensagem de Deus a todos os moradores da ilha, que aquele homem despedaçado de alma começará a dar sinais de vontade.
 
Uma vontade de nome Cecilia.
Com ela surge o ímpeto de encontrar, enfim, a medida certa do amor.
 
 
 
Foi em 2015 que tive o privilégio de descobrir a obra de João Tordo, sendo este o segundo livro que leio do autor. Não poderia estar mais rendida com um livro de enorme sensibilidade, de beleza ímpar e de reflexões essenciais àqueles que ainda se permitem sentir, numa era de corações empedernidos.
 
Mais do que recomendado!

4 comentários:

Carlos Faria disse...

Talvez o livro para dar a segunda oportunidade ao autor, li O bom inverno e eatava a gostar, mas depois detestei a forma como ele resolveu a estória e nunca mais li nada dele

Denise disse...

Já me falaram no "Bom Inverno" com a mesma opinião do Carlos. Tenho mesmo de o tirar da estante porque começo a ficar curiosa e intrigada.
Até agora, os dois livros que li do autor deixaram-me muito bem impressionada.

Vale a pena, sim, dar-lhe uma segunda oportunidade.

Boas leituras!

Pedrita disse...

eu li inverno do joão tordo e gostei bastante. esse não li. beijos, pedrita

Denise disse...

Alguém que me diz coisas boas desse livro em concreto :)
Tenho lido algumas críticas menos boas ao «O Bom Inverno». Tenho mesmo de o ler para tentar perceber o que se passa... João Tordo foi um dos autores que mais me surpreendeu este ano.

Boas leituras!