sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Adeus, Tsugumi (Banana Yoshimoto)

As palavras são pesadas como as camisolas de Inverno, ou como os armários da sala. Também podem ser leves como penas ou folhas de papel. Depende de quê? No final de contas, o peso das palavras depende de quê?
Depende do som. Depende da forma como as evocamos com a boca e como esse som entra e sai, simultaneamente, de um coração que tem tanto de cansado como de esperançoso.
Morte. Fecho os olhos e vejo aquele armário da sala, pesado, a cair sobre mim. Palavra pesada, de som duro, seco, frio, que corta, gela, arrepia e me deixa sozinha.
Passamos os dias nesse medo gelado que uma palavra assim, tão desfocada, entre nas páginas de um livro da nossa casa, sem pedir. E congelamos mais um bocadinho, perdendo a perfeição necessária para evocar as palavras leves. São as leves. Só as leves é que podem combater as pesadas.
Sorriso. Sol. Céu. Passeio. Lágrima. Relva. Chuva. Salto. Amigo. Amor. Mãos. Beijo. Abraço. Querer. Gelado. Algodão. Mar. Nuvem. Areia. Casa. Livro. Criança. Bola. Flores. Filmes. Família. Chupa-chupa. Cabana. Lugar. Endereço. Café. Música. Lembrança. Paixão. Objectivo. Acreditar. Estrada. Praia. Pé. Saia. Calças. Rebuçados. Pescoço. Perfume. Infinito.
A morte é, sim, uma palavra pesada. Fecho os olhos e vejo aquele armário da sala. Mas existem tantas outras palavras leves que valem tudo. Valem tudo!
O segredo está na conjugação sábia da boca, em saber evocá-las, e a crença num coração de bom ouvido: que saiba distinguir aquilo que vale realmente ser dito e daí em frente, ser sentido e vivido sem medo. Essa sim, outra palavra pesada. Que sufoca. Que impede. Que não deixa viver...!





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