Uma questão de tempo e...

terça-feira, 20 de agosto de 2019


... de prioridades.


Seja feliz, com meditação :)

O Corpo (Hanif Kureishi)

segunda-feira, 19 de agosto de 2019


Imagine-se idoso, caro leitor. Velho e cansado.
Imagine-se a viver num corpo que se tornou rebelde e desobediente, que não marcha como o desejado, não obedece como o desejado e, o pior, não ousa seguir-lhe os sonhos como outrora. Porque está cansado, descrente, um pouco arrogante até.

É assim que se encontra a personagem principal deste romance do conhecido autor britânico Hanif Kureishi. A premissa é esta: para todas as pessoas que vivem cansadas dos seus corpos, esticados pela idade, existe a possibilidade de o trocar, como quem vai ali aquela loja trocar uma camisa por umas calças.

Dá que pensar, não me dirá? 

Ao longo da jornada deste homem, serão muitas as vezes em que você se encontrará, eu diria, um pouco chocado. Vamos lá ver, não é todos os dias que nos acenam com a possibilidade de trocar de corpo quando a insatisfação impera. Diga-me lá que não pensa o mesmo?

É impossível não projetarmos as dores da personagem em nós mesmos. Sejamos mais velhos ou ainda jovens. Projetar o futuro no corpo que sempre nos acolheu. Como será? Corresponderá, sempre e metodicamente, aos comandos? E se assim não for, como lidar com isso? Com a amargura de um tempo que passa, que nos guarda fielmente memórias de tempos tão frescos, tão jovens para, de um momento para o outro, nos fazer sentir encarquilhados dentro de nós mesmos?

Foi neste embalo desamparado que a personagem de Kureishi encerrou uma aventura para a vida inteira. Numa conversa banal conhecerá o homem que lhe possibilitará mudar de corpo. Escolhe um corpo jovem, capaz, de pénis avantajado e segue a sua vida, numa experiência de pelo menos seis meses. Seis meses ricos em experiências e aparentes felicidades.

Lembra-se de lhe ter apontado a necessidade de, também nós, projetarmos as nossas necessidades quando o assunto é o declínio do corpo? É que ao longo de toda esta história o impacto da velhice e do avançar dos anos é retratado quase comicamente sem, no entanto, espreitar um pouco de mágoa pela inevitabilidada de vida.

A ter de escolher um conceito, ou uma definição que facilmente caracterize este livro seria, precisamente, essa dura temática que é a inevitabilidade das coisas, da vida em si mesma.

Não lhe vou contar o final desta história. Não só porque não gosto de coscuvilheiros literários com o gosto mórbido em estragar experiências leitoras, como também pelo facto - mais importante - de que quando o leitor lá chegar, a esse derradeiro final, também se sentirá velho, angustiado e talvez, um pouco perdido. E não, esse sentimento de confusão e incerteza não lhe imprimirá, de todo, a necessidade de um novo corpo.

💓

Uma história provocadora a inspirar em qualquer leitor uma máxima muito pertinente apesar de aparentemente óbvia:  nem só de um corpo se faz um homem. Concorda?

Recomendo que pegue neste livro agora mesmo e comece a pensar. Muito.


Seja feliz, na sua pele. Votos de uma boa semana.

Cai a noite em Caracas (Karina Sainz Borgo)

quinta-feira, 8 de agosto de 2019


O livro de estreia de Karina Sainz Borgo fala-nos sobre a crise atual que se vive na Venezuela. Precisamente por isso, há quem pondere que as luzes em torno da sua obra se foquem apenas e só na atualidade do tema, mas não é bem isso. Na verdade, a qualidade literária da autora suplanta qualquer pré julgamento que assuma o tema como a causa do sucesso que está a viver. É um sucesso merecido. Seja pelo tema, que obviamente assume aqui uma importância vital mas, também e muito importante, pela qualidade com que a autora expõe o tema, a cru, sem falsas modéstias.
 
É também um livro que nos toca particularmente por um assunto, provavelmente, esquecido em primeira mão: a culpa de quem se salva em prol dos que ficam na miséria. Mas não nos adiantemos.
 
«Cai a noite em Caracas» é um retrato ímpar das desgraças que nos chegam da Venezuela.Um governo a roçar similaridades com um comboio desgovernado que atropela tudo e todos, que traz fome, miséria, medo e muita solidão. É assim que vive a personagem principal desta história, Adelaida.
 
Após a morte da mãe, vítima de cancro, Adelaida perde todas as suas raízes. As memórias de um serviço de pratos debruados a vermelho,  algumas peças de roupa intocadas, os sapatos organizados da sua mãe, as memórias de um passarinho, resumiam o pequeno mundo daquela mulher, a mãe como o centro nevrálgico da família.  Estava só. Num mundo cão, esfomeado e perdido.
 
É esta a base de toda uma história de resiliência e superação. Perdida entre mortes, corpos desamparados na rua, fome, tráfico e a constatação do quanto podemos ser vis em prol da sua nossa própria vida, Adelaida percebe que chegou a hora de decidir entre as duas conhecidas respostas universais: lutar ou fugir. Será um acaso que lhe dita estar pronta para lutar.

"Regressei à sala e peguei na única carta por abrir que permanecia em cima da mesa. Era uma carta do consulado de Espanha, instalado na cidade. Tentei lê-la em contraluz, mas foi impossível. Voltei às cartas abertas. Uma, a factura da luz. A outra, também com o selo da bandeira vermelha e amarela, uma comunicação na qual o Estado espanhol solicitava uma prova de vida de Julia Peralta, a sua mãe, para receber a pensão. Tanto quanto eu sabia, aquela senhora morrera havia, pelo menos, cinco anos. Dobrei ao meio a carta do consulado espanhol e a solicitação da prova de vida e escondi-a nas calças, peguei nas chaves e fechei a porta.
Aurora Peralta estava morta, mas eu continuava viva." 
Desde então, moralismos à parte, Adelaida lutou para ser outra pessoa, para finalmente fugir de uma terra infértil. A jornada de fuga desta mulher assemelha-se às tão comentadas dores de parto, é como quem lhe arranca as entranhas nessa necessidade de fugir mas, na mesma medida, ladeada pela culpa e questionável cobardia.
 
"Era de noite e uma electricidade de miséria e beleza percorria a cidade. Caracas luzia acolhedora e, ao mesmo tempo, terrível, o ninho quente de um animal que ainda me olhava com olhos de cobra selvagem no meio da escuridão.
Apenas uma letra separa «partir» de «parir».

É de bravura que fala esta história. É, também, o jogo serpenteante de quem, para sobreviver, vai ao desencontro de si mesmo. Um desencontro que soma uma pesada culpa: se eu consegui escapar daquele lugar em que a noite nunca morre, o que faz isso de mim?

Após a leitura de «Cai a noite em Caracas», o leitor ver-se-á, num primeiro momento, compelido a escolher apenas um de dois lugares: a fraqueza ou a bravura. A autora deixa-nos esse rasto de anseios por uma resposta concreta em que apenas fica a certeza de que em ambientes inóspitos, nos lugares que desafiam a nossa própria vida, a incerteza das coisas é a certeza em si mesma. Fica-nos a consciência que ditará, esperançosamente, a melhor resposta.
 
"Viver, um milagre que ainda não consigo entender e que morde com a dentada da culpa. Sobreviver faz parte do horror que viaja com quem foge. Um animal daninho que procura derrotar-nos quando nos encontra de saúde, para nos fazer perceber que alguém merecia mais do que nós continuar com vida."
 

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