Milton Hatoum é um dos mais conceituados autores contemporâneos do Brasil. Nasceu em Manaus, em 1952, e é precisamente nessa cidade que tudo acontece na história de «Dois Irmãos».
O autor conta-nos a história de dois irmãos gémeos e toda a sua jornada de vida, quase do início ao fim. A animosidade entre os dois, iniciada por um amor comum a Lívia, só tende a crescer e a prosperar nesse terreno rico que é o ódio. É precisamente essa animosidade que marca e conduz a relação dos dois, pela vida fora.
O livro de Milton Hatoum, a partir de uma saga familiar inesquecível, traz a lume vários temas que, numa primeira passagem, poderiam passar despercebidos ao leitor. É que se inicialmente acreditamos que é a relação entre os irmãos o ponto basilar de toda a narrativa, acabaremos por repensar.
Após um acidente aparatoso entre os irmãos, Yaqub e Omar, em que este último esfaqueia a face do outro, temos um rio amazonas de atitudes mal arquitetadas por um pai e uma mãe que não o deveriam ter sido.
Desse acidente, os pais decidem enviar Yaqub, o vitimizado, para o Líbano. O afastamento do irmão, pensaram eles, afastaria igualmente a raiva distorcida que cada um tecia. Obviamente, o fogo do ódio, anos volvidos e após o reencontro, assegurou a quem quisesse ver, a sua força e disponibilidade para continuar a arder sem fim.
Vamos esquecer também a ideia generalizada do bom e do mau irmão. Seja ele gémeo ou não, acredito que as famílias em geral vivam com o dilema entre o bom e o mau irmão e que cada um deles, na imagem refletida dos próprios pais, viva em função disso mesmo.
Omar sempre fora o protegido pela mãe, enquanto Yaqub aprendeu na sua própria solidão e amor aos livros, a criar o seu próprio trajeto. A questão que reside é: de que modo pode o amor incondicional, ou a sua aparente ausência, determinar o futuro de cada um?
Acredite quando lhe digo que o futuro, não só dos irmãos, como de toda a família, será determinado por amores mal colocados, anseios não realizados e, acima de tudo, pela teia opressiva que todas as famílias oferecem.
O desejo distorcido de pefeição à luz de quem os criou no escuro da dúvida, sublinhou um ódio que, como suspeitamos desde logo, ardeu até não poder mais.
Recomendo vivamente e, com toda a certeza, lerei tudo de Milton Haboum.
Muito, muito bom.
Uma leitura com o estimado apoio:
Sejam felizes,






